A semana política em ebulição: eleição, STF e disputa pela escala 6×1
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro se acirra, a crise no STF ganha espaço na campanha e trabalhadores enfrentam novo adiamento de uma mudança histórica na jornada
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
A corrida presidencial entrou em setembro em uma nova fase. A eleição de 2026, que durante meses apresentou uma vantagem mais confortável para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), começa a adquirir contornos de disputa apertada, enquanto a direita bolsonarista intensifica a ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e tenta transformar a crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em uma das principais bandeiras eleitorais. A crise sem precedentes avançou com o vazamento de informações sobre Moraes feito por André Mendonça, ministro do STF ligado ao bolsonarismo.
A nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta-feira (3), mostra Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro (PL). Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro, com 8%. No segundo turno, entretanto, a diferença cai para apenas dois pontos: 46% para Lula e 44% para Flávio, configurando empate técnico dentro da margem de erro.
O levantamento também revela um dado importante para entender o cenário eleitoral: os dois líderes concentram elevados índices de rejeição. Flávio é rejeitado por 47% dos entrevistados, enquanto 45% afirmam que não votariam em Lula de jeito nenhum.
O resultado acendeu o sinal de alerta no campo governista. Ao mesmo tempo, estimulou a campanha de Flávio Bolsonaro a apostar numa estratégia de mobilização nas ruas e de exploração política da crise que envolve o STF.
Direita transforma crise institucional em arma eleitoral
O episódio envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais assuntos da semana. Revelações sobre mensagens trocadas entre o ministro e o ex-banqueiro, além de informações sobre contratos envolvendo o escritório da esposa de Moraes, ampliaram a pressão sobre o Supremo e provocaram uma crise institucional que passou a contaminar diretamente a campanha eleitoral.
Moraes contra-atacou pedindo a investigação Mendonça por assimetria em suas ações no caso Master, tentando proteger Flávio ao não divulgar informações das relações do candidato com Vorcaro. Acionado através do inquérito das fake news, o pedido de Moraes foi retirado do inquérito por ação do presidente do STF, Edson Fachin.
É legítimo – e necessário – que relações entre autoridades públicas, empresários e instituições sejam investigadas quando surgem suspeitas. A democracia não pode funcionar com ministros, banqueiros, políticos ou qualquer outra autoridade acima da fiscalização. Mas a resposta democrática à crise deve ser investigação, transparência e responsabilização, e não a utilização eleitoral de suspeitas ainda em apuração.
É justamente nesse ponto que a estratégia bolsonarista merece atenção. Flávio Bolsonaro pretende transformar o 7 de Setembro em um grande ato contra Moraes e contra o governo Lula. Seus aliados passaram a tratar a manifestação como uma oportunidade para ampliar a mobilização da direita e explorar o desgaste do Supremo.
O próprio candidato explicitou a estratégia ao afirmar:
“Se tem uma coisa que Brasília teme é mobilização de rua, é com povo. É com insatisfação sua nas ruas.” E completou: “É o dia que a gente vai decidir se a gente vai dar uma arrancada para de fato buscarmos a liberdade no nosso país ou se a gente vai ficar entregue a esse mar de lama que todos estão vendo que está acontecendo aqui em Brasília.”
O discurso procura apresentar o bolsonarismo como representante de uma suposta luta pela “liberdade”. O problema é que a história recente mostra que parte significativa desse campo político já tentou questionar o resultado eleitoral, atacar instituições e promover uma ruptura democrática. A defesa da democracia, portanto, não pode ser confundida com a tentativa de instrumentalizar a crise para fortalecer a extrema direita.
A contradição do discurso bolsonarista
Há ainda uma contradição difícil de ignorar. Enquanto o bolsonarismo procura explorar politicamente as relações entre Moraes e Vorcaro, surgem também informações sobre contatos e relações do próprio entorno de Flávio Bolsonaro com o empresário, como se evidenciou no escândalo do Black Horse.
Não é menor o fato de que, enquanto são vazadas informações do inquérito sobre Moraes, os mesmos tipos de dados sobre Bolsonaro continuam em segredo de justiça determinado por André Mendonça. Todos os fatos relevantes precisam ser investigados com os mesmos critérios, independentemente de quem esteja envolvido.
Outro fato notório aconteceu ao redor do deputado federal Nikolas Ferreira, um dos maiores expoentes da extrema direita na juventude, que também teve áudios para Vorcaro vazados pedindo intermediação do ex-banqueiro para um negócio de mineração de interesse de um assessor do deputado bolsonarista.
Em meio à turbulência, o ministro Flávio Dino afirmou nesta sexta-feira (4): “O STF é maior do que qualquer um que o integra.” A declaração reforça a ideia de que instituições democráticas não podem depender da vontade individual de seus integrantes, ainda que o próprio Dino tenha atuado de forma diferente no Maranhão.
Fim da escala 6×1 avança, mas fica para depois do primeiro turno
Enquanto a disputa eleitoral é tomada por acusações, ataques e crises institucionais, uma pauta que afeta diretamente milhões de brasileiros teve um desfecho bem menos estridente.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a proposta que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo os salários e garantindo dois dias de descanso remunerado.
É uma mudança que atinge o cotidiano da classe trabalhadora: significa mais tempo para descanso, convivência familiar, estudo, lazer e cuidados pessoais. O próprio Lula definiu o fim da escala 6×1 como uma “pauta civilizatória”, argumentando que não é aceitável manter, no século XXI, milhões de trabalhadores submetidos a jornadas extensas com apenas um dia de descanso.
Mas, apesar da aprovação na CCJ, a votação no plenário foi adiada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que a PEC será votada somente depois das eleições, ainda neste ano. Segundo o senador Paulo Paim, Alcolumbre teria feito a promessa da aprovação da medida antes do segundo turno.
A decisão expõe uma das contradições mais evidentes da política brasileira: enquanto candidatos disputam espaço na televisão e nas redes sociais falando em “liberdade”, “mudança” e “futuro”, uma proposta concreta para ampliar o tempo livre e melhorar a qualidade de vida de quem trabalha permanece submetida aos cálculos políticos do Congresso.
Uma eleição entre a vida real e a guerra política
O que a semana revela, portanto, é uma disputa entre duas agendas. De um lado, a tentativa da direita de transformar a crise do STF em combustível eleitoral, mobilizando ressentimentos e aprofundando a polarização às vésperas do 7 de Setembro. De outro, temas concretos que dizem respeito à vida da maioria da população – emprego, jornada de trabalho, renda, custo de vida e serviços públicos.
A pesquisa Datafolha mostra que a eleição está longe de estar decidida. Lula mantém a liderança no primeiro turno, mas a vantagem sobre Flávio diminuiu e o segundo turno aparece praticamente empatado. Isso torna ainda mais importante o conteúdo da campanha que começa a ganhar força nas próximas semanas.
A esquerda terá o desafio de não permitir que a eleição seja reduzida à disputa permanente em torno de escândalos, conflitos institucionais e provocações nas redes sociais. A crise envolvendo o STF precisa ser investigada com rigor e transparência, mas a agenda eleitoral não pode deixar de discutir aquilo que efetivamente muda a vida das pessoas.
No fim das contas, a pergunta que deveria orientar a eleição é simples: que país se pretende construir e para quem? E, para milhões de trabalhadores submetidos à escala 6×1, a resposta passa por algo bastante concreto: ter direito a mais tempo para viver.