De repente, Augusto Cury
O crescimento meteórico de Cury – a depender de como evolui o cenário eleitoral – não deve trazer espanto, mas uma postura de combate
Foto: Augusto Cury. (Reprodução)
Que a burguesia brasileira é subordinada e covarde, não há dúvidas. O que, de quando em quando aparece, é uma dose inusitada de criatividade. Desde hipóteses e ensaios como Silvio Santos e Roseana Sarney, até certas “aventuras”, como foram Collor e Temer. A última novidade da política brasileira é o crescimento de Augusto Cury, chegando nas pesquisas ao terceiro lugar, com até 11% como na recente pesquisa BTG/Nexus.
Será um típico “voo de galinha”? Será que se consolida uma importante mudança no cenário eleitoral? É um movimento organizado de um setor da burguesia ou uma operação de “aparelho”? Qual o impacto dessa nova posição para a polarização real que já existe entre Flávio e Lula? Qual a base desse crescimento?
Cury era, até semana passada, um escritor de autoajuda, com relativo sucesso nesse nicho, mas pouco conhecido na vida política nacional. Pouquíssimos brasileiros conheciam seu rosto até a sua aparição no debate da Band e no Jornal Nacional. Há algo novo no ar.
A tropa indiana
A jornalista da Globonews, Daniela Lima, registrou que Cury ‘inundou’ as redes sociais. O movimento orquestrado contou com uma série de ações: uma live com o influenciador Pablo Marçal, inelegível, mas que está desembarcando na campanha Cury; centenas de influenciadores nas redes comentaram suas entrevistas e propostas; e por fim, dados indicam um pico de buscas sobre Cury na Índia, despertando a suspeita do uso massivo de bots.
O crescimento digital, conforme o Instituto Democracia em Xeque, foi espantoso. Em duas semanas de campanha acumulou quase 2,5 milhão de novos seguidores nas redes. O resultado da pesquisa BTG/Nexus não é isolado. O levantamento de outro instituto, o da Atlas/Bloomberg, apontou Cury em terceiro, com 7,8%, superando Renan Santos, do Missão. Nos dados da pesquisa Nexus, Cury chegou a 22% entre o eleitorado mais jovem.
Uma verdadeira “bagunça” no terreno da disputa eleitoral, como se pode observar. Renan Santos, avariado pela decisão de Toffoli, contudo, não se dá por vencido, e segue disputando no terreno das redes, com protagonismo. Caiado e Zema seguem estagnados.
O “vendedor de sonhos”
O candidato do inexpressivo partido Avante se notabilizou pelo tipo de escrita de autoajuda, de caráter reacionário e individualista. Sendo uma espécie de Paulo Coelho de uma vertente da psicologia, Cury fez fortuna ao redor de tal imagem. O mais rico dos candidatos se pretende um “coach”, com propostas neoliberais com suposta roupagem inovadora.
Uma delas é o “ministério da IA”, que sugere dispensar funcionários públicos para incorporar o uso da Inteligência Artificial na prestação de serviços fundamentais.
Privatista, Cury tem como best-seller o livro “O Vendedor de Sonhos”, onde usa do expediente ficcional para vender a ideologia das saídas individuais. Um dos comentários que chamou a atenção foi o que comparou a política brasileira a um “manicômio”.
Analistas atribuem seu desempenho nas pesquisas à enorme rejeição dos dois candidatos favoritos, além da operação midiática e de um setor da burguesia para trazê-lo como “novidade modernizadora”. Para todo um setor da Faria Lima e para uma parcela do agro, preocupada com o fato de que Caiado não decola, pode ser um teste, um ensaio para cravar seu programa, num processo eleitoral polarizado e imprevisível.
A “nova teoria” dos dois demônios de um setor da burguesia
Uma vez mais, um setor da burguesia alenta uma teoria que trabalha a equidistância entre Lula e o bolsonarismo. Sem querer alinhar-se com a aventura de Bolsonaro, sem votos para buscar uma candidatura mais afinada com o que seria seu ideal, como o governador Tarcísio de Freitas, uma parte importante da burguesia segue sua prédica. Nem Lula, nem Flávio. O editorial da Folha de São Paulo clamando por fiscalismo expressou essa posição. E o lugar da Globo nas entrevistas, além da grande imprensa buscar desgastar Lula, indicam por onde correm as expectativas eleitorais.
A Folha agora ataca os Correios, na linha de “ou privatiza ou fecha”. O incômodo da burguesia industrial e comercial com a possível aprovação do fim da escala 6×1 no Senado é indisfarçável.
Toda a discussão sobre o comércio exterior, o tarifaço e a crise com Trump também compõe esse cenário. Não esqueçamos que pesos-pesados como as Casas Bahia e o Habib´s estão em recuperação judicial, com o endividamento empresarial e familiar como fantasmas que assolam a economia.
O crescimento meteórico de Cury – a depender de como evolui o cenário eleitoral – não deve trazer espanto senão uma postura de combate. Lula e o campo que o apoia devem intensificar a campanha, fazendo do fim da 6×1 a bandeira central da disputa, dando o tom classista e popular para a eleição; a demanda acerca da soberania, política, econômica e digital, não pode ser abandonada. E a denúncia do Bolsomaster, onde Flávio, até aqui, não explicou nem apresentou o famoso contrato de patrocínio de “Dark Horse”.
As próximas semanas vão esquentar a até aqui morna campanha eleitoral. O cenário de confusão só pode ser revertido com muita luta política e mobilização.