Preso, Vorcaro mira governo Lula e tenta usar delação para deixar a cadeia
Daniel Vorcaro

Preso, Vorcaro mira governo Lula e tenta usar delação para deixar a cadeia

Banqueiro acusa cúpula da PF de barrar colaboração e afirma ter informações sobre integrantes do governo; sem apresentar novas provas, ele busca apoio de André Mendonça para reabrir negociação

Foto: Divulgação

Preso e com duas tentativas de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o banqueiro Daniel Vorcaro mudou de estratégia. Em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ele afirmou que pretende delatar integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e colocou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, no centro de suas acusações. O objetivo declarado de sua defesa é obter uma colaboração premiada que possa contribuir para sua saída da cadeia.

A nova ofensiva ocorreu em depoimento prestado em 27 de agosto, na Papudinha, em Brasília. A pedido de Vorcaro, a Polícia Federal não participou da oitiva. Segundo o UOL, o banqueiro tentou atrair o apoio de Mendonça ao se apresentar como vítima de um complô, afirmar que sofreu intimidações durante a prisão e sustentar que sua delação não avançou porque envolveria pessoas ligadas ao atual governo.

O movimento ocorre depois de duas tentativas frustradas de negociação. Em junho, a PF e, posteriormente, a PGR rejeitaram propostas de colaboração de Vorcaro por entenderem que elas não apresentavam informações novas ou elementos suficientes para sustentar as acusações. A PGR apontou ainda que o banqueiro não havia se comprometido efetivamente com a devolução de valores.

Agora, diante de Mendonça, Vorcaro voltou a oferecer uma delação – desta vez com um ingrediente político de enorme impacto: a promessa de atingir integrantes do governo Lula.

“Pessoas do núcleo do atual governo”

Durante o depoimento, Vorcaro afirmou que pretendia revelar relações que teria estabelecido com autoridades para tentar proteger o Banco Master diante das dificuldades enfrentadas pela instituição.

“No meu entendimento, houveram (sic) relações jurídicas e pessoais com pessoas relevantes do atual governo e de instituições que, caso reveladas, poderiam prejudicar pessoas que estavam do outro lado da mesa.”

Segundo o banqueiro, essas relações teriam envolvido situações que ultrapassariam questões meramente políticas e poderiam incluir condutas que, em sua avaliação, cruzaram “linhas de moralidade” e “linhas de ilicitude”. Questionado pelo representante da PGR que participou da oitiva se pretendia detalhar as acusações contra o diretor-geral da PF, Vorcaro respondeu:

“Sim, porque toda a minha colaboração, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar.”

A frase é politicamente explosiva, mas há uma ressalva fundamental: Vorcaro não apresentou, nesse depoimento, provas novas que comprovem as acusações. A própria PGR já havia rejeitado uma proposta anterior justamente pela ausência de elementos inéditos e verificáveis.

Andrei Rodrigues vira principal alvo

O principal alvo de Vorcaro foi Andrei Rodrigues. O banqueiro afirmou que mantinha uma relação cordial com o diretor-geral da PF e que os dois participaram de eventos promovidos pelo Banco Master:

“Não chegou a amizade, mas uma relação de estar em eventos conjuntos, de estar em eventos de charuto, juiz, de ter uma tratativa cordial, amistosa, de ir com a família em eventos do banco, convites para eventos de Fórmula 1, de outras coisas.”

Para Vorcaro, essa proximidade seria justamente uma das razões pelas quais sua tentativa de colaboração não teria avançado dentro da PF.

“Entrou o advogado novo, a gente queria construir uma nova colaboração, me sinto desconfortável de propor uma colaboração em que a gente tem um diretor da Polícia Federal, com quem eu tinha… um diretor-geral com quem eu tinha uma relação, que frequentou eventos, que participou de todo esse crescimento do banco e relação de eventos de participação em que ele esteve presente em diversas outras situações que eu gostaria de narrar, não tem a menor chance disso se viabilizar e dar certo. Eu já sabia que não teria”, disse em depoimento.

A acusação, entretanto, foi feita sem que Vorcaro apresentasse, na oitiva, provas capazes de demonstrar que Rodrigues tenha interferido para impedir sua delação. A CNN também destacou que o banqueiro alegou que a negociação não avançou por envolver o diretor-geral da PF, mas que a narrativa foi apresentada no contexto de sua tentativa de obter uma colaboração premiada.

A estratégia para sair da cadeia

O contexto é essencial para compreender a nova ofensiva. Vorcaro está preso e já teve duas propostas de delação rejeitadas. Em junho, a PGR concluiu que sua colaboração não apresentava novidades relevantes e continha relatos que não eram acompanhados de elementos de comprovação.

Agora, com uma nova equipe de defesa e uma nova abordagem, o banqueiro tenta apresentar-se como alguém que possui informações capazes de atingir figuras importantes do poder político e institucional. A estratégia é evidente: transformar o que antes era considerado insuficiente pelas autoridades em uma moeda de negociação para conquistar benefícios judiciais.

Ao mesmo tempo em que afirma possuir informações sobre o governo, Vorcaro também se apresenta como vítima de perseguição. Ele relatou supostos maus-tratos durante deslocamentos sob custódia e afirmou ter sido intimidado por agentes da PF.

“Isso [ocorreu] em um transporte, quando eu saí de São Paulo, que ia vir para Brasília.”

Segundo ele, teria ouvido de agentes:

“Isso que dá. Você querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso.”

Vorcaro chegou a afirmar que teria sofrido “torturas, de me deixarem em um caixote por seis horas, sem ar, suando”.

As acusações são graves e devem ser investigadas caso haja elementos que as sustentem. Mas também precisam ser analisadas dentro do contexto em que foram apresentadas: um banqueiro preso, que busca uma nova oportunidade de fechar um acordo de delação e obter benefícios em sua situação processual.

“Me proteger dos ataques”

O próprio Vorcaro reconheceu que buscou aproximação com autoridades políticas e do Banco Central depois que mudanças regulatórias passaram a ameaçar os negócios do Banco Master.

“A partir daí, uma série de mudanças regulatórias afetou a operação do Banco Master.”

Ele afirmou que passou a procurar autoridades em Brasília para tentar proteger a instituição:

“Foi quando a gente acabou fazendo uma interação com pessoas relevantes ali do Banco Central, com membros da política, para que a gente pudesse explicar qual era o contexto das mudanças regulatórias, que eram mudanças para prejudicar o mercado, prejudicar o nascimento de novas instituições, não para beneficiar a população.”

Segundo Vorcaro, sua estratégia era evitar uma previsão feita por um concorrente de que seria “queimado vivo em praça pública”.

“A partir desse aviso, eu começo a tomar uma série de medidas tentando me proteger, evitar que isso acontecesse.”

O banqueiro admite que, nesse processo, estabeleceu relações com pessoas influentes.

“Eu acabei tendo acesso, conhecendo pessoas relevantes.”

É justamente nesse ponto que o caso se torna ainda mais amplo. As relações de Vorcaro com autoridades não são, por si só, prova de corrupção. Mas a investigação precisa esclarecer por que um banqueiro que comandava uma instituição posteriormente liquidada pelo Banco Central circulava tão próximo de autoridades públicas e quais interesses estavam envolvidos nessas relações.

A promessa de atingir o governo Lula

A nova estratégia de Vorcaro também introduz um elemento político evidente. Ao prometer revelar informações sobre integrantes do governo Lula, o banqueiro coloca sua possível delação no centro da disputa eleitoral de 2026.

Isso não significa que as acusações devam ser descartadas. Se Vorcaro possui informações sobre crimes ou irregularidades, elas precisam ser investigadas, independentemente de quem seja o envolvido. Mas também não se pode tratar como fatos comprovados acusações feitas por alguém que busca negociar sua própria liberdade.

Essa cautela é ainda mais necessária porque as duas primeiras tentativas de delação foram rejeitadas justamente pela falta de informações novas e elementos de prova considerados suficientes pelas autoridades.

A PGR, portanto, terá de decidir se essa terceira investida traz algo diferente das anteriores. Por enquanto, a resposta institucional continua sendo de cautela.

O caso também atinge a disputa eleitoral

A escolha do momento e do interlocutor para a nova ofensiva não é politicamente neutra. Vorcaro prestou depoimento ao gabinete de André Mendonça, ministro que relata o caso do Banco Master no STF, e fez questão de apresentar uma narrativa em que a PF aparece como obstáculo à sua colaboração.

O episódio ocorre simultaneamente à crise provocada pelas mensagens que revelaram a proximidade entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes e às revelações sobre os repasses feitos pelo banqueiro para o filme Dark Horse, ligado à família Bolsonaro.

O resultado é uma trama que reúne dinheiro, sistema financeiro, Judiciário, Polícia Federal e disputa eleitoral.

No caso de Dark Horse, o Coaf identificou um pagamento de US$ 1,6 milhão feito por Vorcaro em setembro de 2025, contrariando a versão anteriormente apresentada por Flávio Bolsonaro sobre a data do último repasse. O episódio já colocou o candidato do PL sob pressão.

Agora, a promessa de Vorcaro de atingir integrantes do governo Lula acrescenta uma nova frente à disputa política.

É fundamental, portanto, não permitir que a eleição determine quais partes do caso serão investigadas. Se houver corrupção no governo, que seja investigada. Se houver irregularidades nas relações de Vorcaro com autoridades do Judiciário, da PF ou do campo bolsonarista, que também sejam investigadas.

A democracia não pode depender da palavra de um banqueiro preso – nem de versões seletivas apresentadas conforme a conveniência política de cada grupo.

O que Vorcaro afirma precisa ser confrontado com documentos, provas e testemunhos. E, se a delação que ele agora oferece pretende valer como moeda para deixar a cadeia, a pergunta central é simples: quais provas novas ele está disposto a entregar em troca desse benefício?

Até que elas apareçam, o que existe é uma promessa de delação – feita por um banqueiro preso que tenta, pela terceira vez, transformar informações sobre os bastidores do poder em uma possível saída para a própria situação criminal.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 30 ago 2026

O que é soberania?

As eleições de outubro serão um momento central para resistir aos interesses imperialistas representados pelo bolsonarismo
O que é soberania?
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores