Em meio a crise
Uma guerra civil no STF, revelações bombásticas e uma espiral de crises.
Foto: André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão do STF. (Antonio Augusto/STF)
André Mendonça quebrou os ritos para publicizar os diálogos entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, no mesmo dia em que a Revista Piauí trouxe novas provas acerca do envio de dinheiro do banqueiro corrupto para Flávio Bolsonaro.
Enquanto a crise se avizinhava, apesar da aprovação da CCJ do Senado, o Centrão travou a ida ao plenário da promulgação do fim da escala 6×1. Agora, surgiram novas provas contra o próprio Mendonça e diálogos íntimos entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro.
Não se pode aceitar a relação promíscua entre Moraes e o banqueiro, assim como não se pode aceitar a manobra que a extrema direita quer fazer, via Mendonça, para desequilibrar a eleição em favor dos golpistas condenados pelo STF. A cada nova revelação, como a de que Kassab teria intermediado a doação para Tarcísio e Jair, vai caindo o castelo de cartas da casta.
Nessa nova rodada de instabilidade, com pesquisas eleitorais mais apertadas, não há outra via senão redobrar a condição da luta política. Eis o papel do PSOL.
30 dias de uma batalha
Um mês nos separa das eleições gerais. O que estará em jogo nesses 30 dias envolve a soberania nacional e a deriva autoritária contida na campanha de Bolsonaro e de candidatos menores, como Renan Santos. A interferência do imperialismo é gritante e as relações entre os Estados Unidos e Mendonça são estruturais. Há um movimento consciente para derrotar Lula que agrega pesos pesados do golpismo e da mídia em articulação direta de Trump, Milei e seus agentes políticos e tecnológicos.
A burguesia atuou para travar a aprovação da 6×1, manobrando com o Centrão como forma de evitar que a agenda da classe trabalhadora tenha centralidade na definição do voto popular. Na própria definição das “agendas” e dos termos que compõe a campanha, está a definição de que lugar cada setor vai ter na disputa política.
As últimas pesquisas convergem para uma situação alarmante: cresce Cury, Lula estagnado e empate técnico com Flávio no segundo turno. O cenário dos sonhos de Trump para gabaritar uma vitória como a que celebrou no Peru e na Colômbia.
Diante desse cenário, a passividade e a resignação atrapalham. É preciso colocar o bloco na rua e responder com mobilização. Dobrar a aposta da luta política, com a defesa das agendas populares como a soberania, a pressão pela aprovação do fim da 6×1 imediatamente, o apoio decidido à mobilização das mulheres (que pode ser o diferencial, inclusive eleitoral) e a defesa das nossas riquezas e do meio ambiente.
E condenar sem tréguas a corrupção de Flávio, revelada e desenhada na operação de fachada do filme Dark Horse.
A casta a serviço de Vorcaro
As conversas entre membros do STF e o banqueiro corrupto causa indignação. A condenação da seletividade de Mendonça não é um atestado de inocência para Moraes. Ele, Flávio, diversos agentes políticos, Mendonça, Gounet e muito provavelmente outros ministros e figuras de proa tinham relações nada transparentes com o banqueiro Vorcaro, um dos maiores criminosos atuais.
O STF teve um papel importante para parar a mão dos golpistas, com lugar especial para Alexandre Moraes. Isso nunca foi perdoado pela extrema direita, nem pelo imperialismo, que o condenou com a Lei Magnitsky. Essa é a jogada para debilitar o STF e Moraes e um dos eixos de agitação da extrema direita. Não se pode desconsiderar essa realidade.
O STF é parte de um casta privilegiada. Não é um espaço que representa os interesses de toda a sociedade. Moraes é um agente da burguesia, que se beneficiou dessas relações para seu próprio proveito. A burguesia brasileira, historicamente, sempre utilizou da corrupção, da relação patrimonialista com o estado para preservar seus interesses, em geral opostos ao da classe trabalhadora e a maioria do povo. Não se pode confiar na burguesia brasileira, mesmo sabendo utilizar suas contradições e fissuras, como no caso de isolar o golpismo.
Sem fazer coro à essas operação bolsonarista, é preciso colocar em tela a discussão de uma ampla reforma do poder judiciário, ligada a uma reforma política radical, que supere os limites da democracia racionada da Nova República. Uma reforma política radical que acabe com os privilégios do judiciário e do legislativo, com seus supersalários e superpoderes, e possa atacas as enormes distorções do atual sistema político brasileiro. Aliás, não se pode deixar na mão da hipocrisia da extrema direita, o discurso “antissistema”, que além de falso, confunde e desarma os trabalhadores. Quem luta contra o sistema político e econômico é a classe trabalhadora e suas organizações.
O voto em Lula é parte dessa contenção. Porém, os acordos com o centrão e as relações espúrias com a burguesia impedem uma mudança efetiva.
O PSOL na linha de frente da luta
Diante da grave crise, o PSOL não pode hesitar. Defender a ampla investigação e condenação dos envolvidos, apoiado no capital político que teve com nossas parlamentares, Fernanda e Sâmia sendo autoras do pedido de CPMI do Banco Master, bem como Fábio Felix em Brasília, denunciando as manobras para salvar Vorcaro com dinheiro público.
É preciso engajar os dezenas de milhares de apoiadores para ser parte da luta no próximo mês. A simpatia que estamos vendo na disputa das ruas precisa se converter em atividades militantes. O peso do aparato das campanhas não pode anestesiar a condição voluntária e de expansão das campanhas da esquerda militante. E vale registrar que, até aqui, os bolsonaristas não estão convocando e mobilizando seus apoiadores como em outros momentos. O crescimento de Cury também acaba contendo Renan Santos, outro perigoso fascista que arregimenta apoios entre a juventude.
E apoiar as justas lutas, mesmo moleculares, que se articulam durante o período eleitoral: o breque dos APPs o dia primeiro de setembro, a mobilização das AVE´’s na capital paulista, a vitoriosa greve dos ferroviários de SP, a paralisação dos bancários, a preparação da greve de Correios marcada para 10 de setembro, as lutas ambientais contra a instalação de data centers.
Retomar as bandeiras de luta, colocando mais ênfase na luta e pressão sobre a pauta da 6×1 é a única saída para lutar pela vitória. Todo esforço é pouco nesse sentido.
Apesar das turbulências, a tendência à politização e a disputa do voto é central para derrotar a extrema direita agora e preparar uma alternativa anticapitalista que dispute setores de massa.