Depois de um verão catastrófico, reconstruir a esperança na Palestina
Em Gaza, assim como na Cisjordânia, a situação tem sido catastrófica durante todo o verão. À medida que começam as eleições em Israel e na Palestina, o desafio continua sendo relançar a mobilização e a solidariedade internacional
Em Gaza, o calor escaldante dentro das tendas agravou ainda mais o sofrimento. A falta de necessidades básicas e de eletricidade está tornando a vida infernal: os hospitais já não conseguem oferecer atendimento adequado, e a água não pode ser bombeada ou filtrada de maneira apropriada. Segundo um relatório publicado em 13 de agosto pelo IPC (Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar), principal organismo mundial de monitoramento da fome, a insegurança alimentar aguda continua disseminada por toda a Faixa de Gaza.
Fome, bombardeios, violência colonial
Quase 1,2 milhão de pessoas encontram-se em situação de “crise” alimentar (fase 3 de 5) e mais de 200 mil em situação de “emergência” (fase 4). Segundo o IPC, quase dois milhões de habitantes de Gaza poderão em breve enfrentar níveis elevados de insegurança alimentar. O relatório também estima que 74.200 crianças menores de cinco anos precisarão de tratamento para desnutrição aguda até abril de 2027, incluindo mais de 11.400 casos de desnutrição grave, além de 24.600 mulheres grávidas ou que estejam amamentando. Depois de meses de genocídio e bloqueio, as consequências para a saúde serão sentidas durante anos.
Enquanto isso, os bombardeios continuaram, mantendo um nível horrendo de mortes em Gaza. Israel chegou ao ponto de classificar os balões e pipas lançados no enclave como uma “ameaça”, advertindo que intensificaria seus ataques e evacuaria as áreas utilizadas como “locais de lançamento”. As pipas com as quais as crianças brincam são, assim, apresentadas como atos de guerra. Mais um pretexto para bombardear e deslocar a população.
Na Cisjordânia, a situação está cada vez mais crítica. Os ataques dos colonos, com a cumplicidade do Exército, atingiram um nível sem precedentes: roubo de gado, destruição de equipamentos e agressões físicas, várias vezes ao dia. As tentativas de autodefesa são imediatamente descritas como “terroristas” e reprimidas com violência, muitas vezes de forma coletiva, numa inversão que torna sistemática a inversão da culpa.
Não há nenhuma mudança significativa a ser esperada para os palestinos nas primeiras eleições israelenses em quatro anos, que serão realizadas no final de outubro. Massacre, genocídio e expansão colonial produziram uma ampla unidade nacional: durante a campanha, os candidatos disputam entre si quem adota posições mais radicais contra os palestinos. Nem a criação de um Estado palestino, nem o fim da ocupação, nem mesmo o fim do genocídio são realmente defendidos. Grande parte da sociedade israelense parece ter internalizado a ideia de resolver o “problema palestino” por meio da violência.
Eleições em meio ao genocídio
Em um grotesco jogo de espelhos, a Autoridade Palestina também anunciou eleições para o final de novembro. Se não forem canceladas, como ocorreu em 2021, serão as primeiras desde 2006. Cerca de 64% dos palestinos da Cisjordânia e de Gaza têm menos de 30 anos, portanto, a maioria nunca votou. Sob pressão internacional, a Autoridade Palestina, apesar de sua postura extremamente colaboracionista, vem sendo pressionada a realizar reformas ou corre o risco de perder parte de seu financiamento, particularmente o proveniente da Europa.
Após negociações no Cairo, foi formada uma coalizão em torno do Hamas, da Jihad Islâmica Palestina e, mais particularmente, de antigos adversários ou ex-integrantes do Fatah. Espera-se que os grupos de esquerda anunciem em breve se irão aderir à coalizão. Uma aliança desse tipo poderia ameaçar Abbas e seu grupo, tamanha é a perda de credibilidade da Autoridade Palestina. Incapaz de proteger os habitantes dos ataques dos colonos, ela trabalhou principalmente, nos últimos três anos, para neutralizar os grupos armados palestinos na Cisjordânia, a ponto de parecer uma força auxiliar da ocupação.
No entanto, parece difícil imaginar que as eleições ocorram tranquilamente em meio ao genocídio, enquanto a potência ocupante persegue, prende ou assassina opositores que possam se candidatar. Atualmente, quase 10 mil palestinos estão presos, especialmente por sua oposição política. O precedente de 2006 também permanece na memória: a vitória eleitoral do Hamas não foi reconhecida nem por Israel nem pelas potências ocidentais, abrindo caminho para o bloqueio de Gaza.
Ainda assim, essas eleições podem oferecer aos palestinos uma oportunidade de reconstruir a unidade nacional, relançar uma luta política baseada na esperança e renovar a oposição de massas ao genocídio e à ocupação. É preciso, contudo, afrouxar o cerco israelense. Depois de um verão catastrófico, a urgência é, portanto, relançar a mobilização para pôr fim à impunidade e fortalecer a solidariedade internacional.