Flávio transforma 7 de Setembro em palanque contra Lula e STF, mas mobilização perde força
Enquanto Lula aposta em um desfile institucional e no discurso de soberania nacional, candidato bolsonarista usa a Independência para atacar Moraes e presidente; ato na Paulista reúne menos público que nos anos anteriores
Foto: Reprodução
O 7 de Setembro de 2026 expôs duas estratégias políticas bastante diferentes na corrida presidencial. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou do desfile oficial em Brasília, adotando uma postura institucional e colocando no centro do discurso a soberania nacional. De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformou a Avenida Paulista em palanque eleitoral, com ataques ao presidente e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A diferença não passou despercebida pela imprensa. Enquanto Lula procurou preservar o caráter oficial da celebração da Independência, Flávio levou para as ruas a estratégia tradicional do bolsonarismo: explorar a polarização, atacar o STF e apresentar a eleição presidencial como uma disputa contra o que seus apoiadores chamam de “sistema”.
O ato de Flávio teve como lema “Fora Lula, Fora Moraes” e reuniu, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP, do Cebrap e da ONG More in Common, 28,5 mil pessoas no pico da manifestação. O número, embora expressivo, ficou 32,5% abaixo do registrado no 7 de Setembro de 2025, quando 42,2 mil pessoas participaram do ato na Paulista. Em 2024, haviam sido 45,4 mil.
A mobilização, portanto, produziu uma contradição para a campanha bolsonarista. Flávio conseguiu transformar o feriado nacional em um importante evento eleitoral, reuniu figuras de peso da direita e ocupou o noticiário, mas não repetiu a capacidade de mobilização observada em manifestações anteriores.
O discurso foi marcado por ataques diretos a Lula e, principalmente, a Moraes. Flávio procurou estabelecer uma associação política entre o presidente e o ministro do STF e defendeu a saída de Moraes da Corte. A manifestação também serviu para exaltar o ministro André Mendonça, transformado pelos bolsonaristas em uma espécie de contraponto ao magistrado.
Em determinado momento, Flávio resumiu sua estratégia com uma frase que sintetiza o caráter eleitoral do ato: “Quem vota em Lula vota em Moraes”. A tentativa foi evidente: transformar a atual crise envolvendo o Supremo em um dos principais eixos da disputa presidencial.
A escolha não foi casual. A crise envolvendo Moraes e Mendonça, além das revelações relacionadas ao caso Master, criou um terreno fértil para que a direita retomasse um de seus principais discursos: a acusação de que o STF teria ultrapassado seus limites. A manifestação na Paulista explorou justamente esse ambiente, com pedidos de impeachment de Moraes e manifestações de apoio a Mendonça.
Mas a própria cobertura jornalística chamou atenção para outro aspecto: o ato teve características cada vez mais explícitas de campanha eleitoral. Leonardo Sakamoto, em análise publicada pelo UOL, classificou a manifestação como um “comício” e observou que o evento reuniu candidatos e aliados da direita em uma estrutura organizada de campanha.
A presença de políticos como Nikolas Ferreira, Silas Malafaia, Tarcísio de Freitas, Valdemar Costa Neto e Sergio Moro reforçou esse caráter. O ato não foi apenas uma manifestação contra o STF: foi também uma demonstração de força do campo político que pretende levar Flávio Bolsonaro ao segundo turno da eleição presidencial.
Lula aposta na institucionalidade
Em Brasília, Lula percorreu a Esplanada dos Ministérios durante o desfile oficial ao lado das principais autoridades dos Três Poderes. O tema escolhido para a celebração foi “Soberania – A força que une o Brasil”, numa tentativa clara de recuperar o patriotismo e os símbolos nacionais para além da apropriação feita pela extrema direita nos últimos anos.
A estratégia foi deliberadamente diferente da de Flávio. Lula evitou transformar o desfile em comício e não fez do STF o centro de sua participação. Ao contrário, manteve uma postura institucional ao lado do presidente da Corte, Edson Fachin, e das demais autoridades.
Ainda assim, o presidente encontrou uma maneira de fazer um contraponto político. Em sua mensagem de 7 de Setembro, criticou os chamados “falsos patriotas”, numa referência àqueles que, segundo Lula, utilizam o discurso de defesa do Brasil enquanto subordinam os interesses nacionais a interesses estrangeiros.
A escolha do termo também dialoga com uma disputa simbólica que deverá ganhar importância durante a campanha: quem tem o direito de falar em nome do patriotismo e da defesa do Brasil.
O contraste é significativo. Enquanto Flávio procurou associar patriotismo à oposição ao governo Lula e ao enfrentamento do STF, o presidente tentou apresentar a soberania nacional como uma agenda de Estado, desvinculada da disputa partidária.
Quem saiu por cima?
Se o critério for capacidade de produzir manchetes e alimentar a polarização, Flávio Bolsonaro provavelmente teve maior exposição. Seu ato foi explicitamente eleitoral, teve ataques diretos a Lula e Moraes e colocou a crise do STF no centro do noticiário.
Mas se o critério for demonstração de força política e popular, o resultado é muito menos favorável ao candidato do PL. A manifestação reuniu 28,5 mil pessoas — um número relevante, mas inferior ao dos atos bolsonaristas realizados no mesmo feriado em 2024 e 2025.
A Agência Pública resumiu o cenário como uma espécie de contenção dos dois lados: Lula e Flávio foram mais cautelosos do que de costume e deixaram que seus públicos transmitissem boa parte das mensagens políticas. A publicação também destacou a redução do público do ato de direita em relação ao ano anterior.
Há, portanto, uma diferença importante entre aparecer mais e demonstrar mais força. Flávio ocupou mais espaço político no 7 de Setembro porque transformou a data em um comício. Lula, por sua vez, ocupou o espaço simbólico de presidente da República e procurou disputar o significado da própria Independência.
E há um elemento eleitoral que torna o confronto ainda mais relevante. Uma pesquisa Quaest divulgada no próprio 7 de Setembro mostrou Lula e Flávio empatados em 41% a 41% num eventual segundo turno. Ou seja, os dois chegam à reta final da disputa praticamente lado a lado.
Nesse contexto, o 7 de Setembro funcionou menos como uma simples celebração da Independência e mais como uma prévia da campanha que se intensificará nas próximas semanas. Flávio apostou na indignação contra Lula e o STF. Lula tentou ocupar o campo da institucionalidade, da soberania e dos símbolos nacionais.
A disputa, no fundo, é também pela definição do que significa ser patriota no Brasil de 2026. E, ao menos neste 7 de Setembro, Flávio fez mais barulho; Lula preservou melhor o papel institucional que ocupa.