Eleições nos EUA: Democratas impõem derrota esmagadora aos Republicanos
Uma “onda azul” de votos democratas derrotou Trump e os republicanos. Agora é hora de construir movimentos por mudanças reais
Foto: Cabines de votação nos EUA. (IDEA/Reprodução)
Via ESSF
O Partido Democrata conquistou uma vitória espetacular e histórica nas eleições de meio de mandato, impondo uma derrota esmagadora ao presidente Donald Trump e aos republicanos. Os democratas conquistaram o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado, venceram disputas para governos estaduais e conquistaram cadeiras no Senado ou governos estaduais em estados do Sul e do Meio-Oeste que até então eram republicanos, como Texas, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Ohio e Kansas, redesenhando o mapa político do país. Em Michigan, o democrata progressista Dr. Abdul El-Sayed, a quem Trump e os republicanos haviam chamado de jihadista e terrorista, derrotou facilmente o republicano Mike Rogers.
O eleitorado deslocou-se 13 pontos percentuais à esquerda. Como muitos disseram, não foi simplesmente uma onda azul, mas um verdadeiro tsunami azul.
O candidato vitorioso ao Senado James Talarico, professor e seminarista presbiteriano eleito pelo Texas, afirmou: “Acabamos de demonstrar que uma política de divisão não é páreo para uma política de amor. E acabamos de enviar uma mensagem a todos os megadoadores bilionários, a todos os megadoadores trilionários… O poder pertence ao povo”.
O povo estadunidense rejeitou Trump por causa dos altos preços dos combustíveis, da guerra no Irã, das violentas operações de repressão à imigração e da corrupção desenfreada. Os eleitores votaram nos democratas, que prometeram reduzir os preços e melhorar os serviços de saúde, a assistência às crianças e as condições de moradia.
Ao mesmo tempo, candidatos apoiados pelos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) conquistaram cinco cadeiras na Câmara dos Representantes. Agora, haverá sete membros do DSA entre os 435 representantes no Congresso. Vários outros candidatos progressistas também foram eleitos. O DSA e outros setores progressistas esperam deslocar o Partido Democrata para a esquerda, mas seus números continuam pequenos, e ainda está por se ver qual impacto conseguirão exercer.
Trump passou seu segundo mandato combatendo as políticas de DEI — Diversidade, Equidade e Inclusão —, mas o povo estadunidense votou a favor desses princípios nesta eleição.
As eleições também foram marcadas por uma série de pioneirismos relacionados à diversidade, equidade e inclusão. A democrata Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta, foi eleita governadora da Geórgia, tornando-se a primeira mulher negra a governar qualquer estado do país. Melat Kiros, de 29 anos, integrante dos Socialistas Democráticos da América no Colorado, foi eleita para a Câmara dos Representantes, tornando-se a primeira mulher da Geração Z a ocupar uma cadeira no Congresso. Gina Hinojosa, que derrotou Greg Abbott na disputa pelo governo do Texas, tornou-se a primeira pessoa de origem hispânica a governar o estado, cuja população é 40% latina. El-Sayed tornou-se o primeiro senador muçulmano. Deb Haaland, integrante do povo Laguna Pueblo, foi eleita governadora do Novo México, tornando-se a primeira mulher indígena a governar um estado na história dos Estados Unidos. E Peggy Flanagan, integrante da Nação White Earth, tornou-se a primeira mulher indígena eleita para o Senado dos Estados Unidos.
Trump não interferiu nas eleições, como muitos temiam. Ele não enviou agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) nem tropas militares aos locais de votação, como havia ameaçado fazer, tampouco apreendeu cédulas ou interveio de qualquer outra maneira. Na verdade, Trump aceitou os resultados sem protestar e atribuiu a derrota ao fato de não ter sido candidato. Isso apesar de ter dito repetidamente às pessoas que votassem como se ele próprio estivesse na disputa.
Embora Trump e os republicanos tenham sofrido uma grande derrota nas eleições, o presidente e o Congresso atual ainda detêm um poder enorme. Os novos parlamentares eleitos só assumirão seus mandatos em 3 de janeiro de 2027, quando reduzirão significativamente esse poder. Durante os próximos dois anos, Trump continuará governando, em grande medida, como tem feito até agora: por meio de decretos presidenciais e ignorando o Congresso. Além disso, continuará sendo o comandante-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos. Ainda assim, os republicanos talvez agora estejam mais dispostos a criticá-lo e enfrentá-lo, algo que não fizeram no passado.
Os democratas agora dispõem de um enorme aumento de poder político, mas como irão utilizá-lo? Os democratas no Congresso podem realizar investigações com base em seu poder de intimação, como uma investigação sobre a corrupção de Trump. Também podem bloquear as indicações de Trump para cargos no Judiciário. No entanto, até agora, a direção do Partido Democrata não demonstrou disposição para lutar por uma mudança nos rumos do país nem para apresentar uma agenda mais progressista.
Será que as pessoas que foram às ruas aos milhões nas manifestações do movimento “No Kings” (“Sem Reis”) agora marcharão para exigir saúde pública para todos, creches para todas as crianças e ampliação da oferta de moradias populares? Será que agora marcharão para exigir o fim da guerra contra o Irã ou para interromper o financiamento à guerra genocida de Israel?
O povo estadunidense derrotou Trump e os republicanos nestas eleições. Será que agora conseguirá começar a superar a desigualdade econômica e construir uma sociedade mais igualitária, uma sociedade mais justa? Esse será o nosso desafio.