O profeta alarmado – Diálogo(s) com Mário Sergio Conti
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O profeta alarmado – Diálogo(s) com Mário Sergio Conti

Os artigos recentes do jornalista sinalizaram elementos fundamentais da situação política atual

Israel Dutra 18 jul 2024, 08:00

Foto: Reprodução/GN

Diz a máxima que os intelectuais antecipam por sua sensibilidade grandes acontecimentos.

Lendo as duas últimas colunas de Mário Sergio Conti na Folha de São Paulo fiquei com a mesma sensação.

No dia 6 de julho, na véspera do segundo turno da eleição francesa, quando parte importante da opinião pública estava impressionada com o ascenso da extrema direita e o desempenho pífio de Biden no debate presidencial, Conti saiu da aparência e foi à essência. Anteviu a vitória comemorada no dia seguinte, nas ruas e praças francesas, mesmo sem dizê-lo. Escreveu sobre as causas profundas da atual situação internacional, em título sugestivo “Dias de ira virão, verás”. Para bom entendedor, duas ideias centrais: não chorar, nem se desesperar, compreender; e, o avanço da extrema direita não é casual nem irresistível.

Na semana seguinte, triunfante, Conti apresentou à coluna, o já conhecido, e um tanto temido, Mélenchon, com o predicado de “tribuno da plebe”.

O núcleo do argumento de Conti se encontra num dos subtítulos, genial e provocativo: “As crises se acumulam, a direita boçal avança e esquerda trololó tergiversa”. Vejamos, de perto, a brilhante síntese. A base do crescimento da extrema direita são as condições profundas da crise combinada que vive o capitalismo. Conti cita a frase célebre atribuída (diz ele que erroneamente) à Lenin “ há décadas que nada acontece , e há semanas em que décadas acontecem”. Cita a França com Macron dissolvendo a Assembleia Nacional, a avançada trumpista (antes mesmo do atentado!!), a ofensiva de guerras pelo mundo, com o temor nuclear e o genocídio – com muitos cúmplices – de Gaza por parte do estado de Israel. Cita a crise climática. A terrível guerra de ocupação da Ucrânia, onde compara, de forma corajosa, Putin a “la Netanyahu”. Como responsabilidade, simples: o próprio capitalismo com sua crescente desigualdade (ilustra com dados da insuspeita Oxfam) e a superexploração. E conclui, que indagando, que “mundo surgirá dessas tensões”?

A resposta, singular, é, óbvia e aparentemente fora de uso pela mesma “esquerda trololó” que ele aponta como impotente, citando um “liberal de boa cepa”: “Se uma revolução vem vindo (e parece que estamos bem longe de uma solução não revolucionária para a ‘policrise’ que enfrentamos), ela pode ser como a de 1848 – mal planejada, dispersa, acidentada e cheia de contradições”.

Uma semana depois dessa previsão, que para alguns poderia soar como “alarmada”, ele traça o perfil de Mélenchon, como “tribuno que prega a ruptura com a política carcomida”. O mais radical dos componentes centrais da Nova Frente Popular, ao qual afirma que se filia a linhagem de Marat, Danton e Robespierre; afirmando esperança e lirismo, colocando ênfase num programa de “igualitarismo radical”. Ou seja, Conti sabe que o problema da dispersão acidentada da nova era de urgências, emergências e turbulências, só pode ser resolvida com programa, ruptura e capacidade de sentido comum. Algo próximo à constatação de que há uma “crise de direção”, feita por outro profeta, há quase um século, quando também se dava voltas à desesperança.


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