Palestina: “Nos exterminam em fogo brando”
Diretamente de Gaza, um relato sobre a situação na região e a continuidade do genocídio operado pelo estado sionista
Foto: Crianças palestinas examinam os danos causados a uma casa após ataque de Israel a Gaza, em Rafah. (Abed Rahim Khatib /Flash90)
Via Viento Sur
Olá, amigas e amigos. Ainda estou vivo.
Queridos leitores e leitoras, faz muito tempo que não dou notícias, e peço que me perdoem. Sei que ficaram preocupados e que sentem falta das informações sobre Gaza. Tive alguns problemas de saúde, mas depois, não sei por quê, não voltei a escrever. Sabah, minha esposa, costumava me perguntar: “Por que você não escreve?”. O problema é que eu não tinha resposta. Por mais de um mês, vivi com uma mente que queria falar sobre tudo e um coração saturado de dor e tristeza que não queria se abrir. Talvez esse genocídio que não cessa há três anos, essas catástrofes e massacres diários, esse estresse permanente fossem um fardo pesado demais.
Há muito a contar e, ao mesmo tempo, a comunidade internacional não tem nada a dizer. Nada do que está acontecendo em Gaza encontra eco no silêncio do mundo. Nem mesmo no meu próprio silêncio, que nem eu mesmo consigo entender. Do que ele era feito? Talvez eu só precisasse descansar. Talvez tivesse chegado a um ponto em que precisava ficar calado, em que já não tinha mais nada a dizer.
Todos os dias ficamos sabendo da morte de um amigo próximo, de um vizinho, em um bombardeio ou por causa de uma doença não tratada
Durante o último mês, passamos por grandes momentos de tristeza. Sabah perdeu sua tia, não por causa de um bombardeio, mas por causa dos ratos. Sim, por causa dos ratos. Em Gaza, como vocês sabem, mais de 1,5 milhão de pessoas continuam vivendo em barracas em acampamentos improvisados. Essas pessoas estão amontoadas umas ao lado das outras, concentradas em 30% da superfície de Gaza, ou seja, aproximadamente 120 quilômetros quadrados. Recentemente, e especialmente com o calor, a maioria dessas barracas foi invadida por ratos, camundongos, répteis e roedores.
Ao armarem suas lonas, as pessoas deslocadas tentam encontrar uma parede na qual apoiar seu abrigo, para economizar tecido de um lado e para ter uma superfície sólida onde cravar pregos, por exemplo. Foi isso que a tia de Sabah fez. Ela havia sido deslocada apenas uma vez, ao contrário da maioria dos habitantes de Gaza, que tiveram que vagar de um lugar para outro sob os ataques israelenses. Ela era natural do bairro de Shejaya, na parte leste da cidade de Gaza, que foi completamente arrasado pelo exército israelense. Acabou ficando em uma barraca no centro da cidade. Ela havia montado essa barraca encostada na parede que restara de pé de uma casa destruída. A parede acabou desabando sobre a família: os ratos haviam cavado buracos sob suas frágeis fundações. Toda a família acabou no hospital. Huda morreu alguns dias depois. Que descanse em paz. A filha dela teve uma perna amputada. Ela é diabética, o que agravará seu sofrimento.
Há também a história de um amigo que talvez vocês conheçam, o rapper palestino Ayman Mghames[1], que trabalhava comigo quando eu era guia e produtor local para a imprensa internacional. Ele me ajudou nos contatos com os jornalistas e nas traduções. Teve a sorte de conseguir sair de Gaza com a esposa e os filhos, e atualmente está na França. Infelizmente, não conseguiu evacuar a mãe, nem o irmão e a família dele. A cunhada foi transferida com os filhos para o Egito, onde está em tratamento contra o câncer. O irmão de Ayman havia ficado em Gaza com a mãe. Mas sofria de insuficiência renal que acabou sendo fatal, por falta de atendimento adequado. Que descanse em paz.
É apenas mais uma morte entre tantas outras. Diariamente ficamos sabendo da morte de um amigo próximo, de um vizinho, em um bombardeio ou por causa de uma doença não tratada. Tudo isso em meio ao silêncio do mundo inteiro. É claro que não estou falando das populações. Sei que há uma forte mobilização, seja na França ou em outro lugar, e sei que muitos leitores estão aguardando meu diário porque querem saber o que está acontecendo em Gaza. Querem saber a verdade, conhecer a realidade.
O objetivo é a deportação dos palestinos
Refiro-me ao silêncio dos líderes e das pessoas responsáveis pela tomada de decisões da comunidade internacional. Estamos sufocados pela ocupação, massacrados pelos israelenses, com total impunidade, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, onde colonos armados atacam constantemente as aldeias. O objetivo é a deportação dos palestinos. O plano já está sobre a mesa. Na Cisjordânia, ele é implementado pelos colonos, protegidos pelo exército de ocupação.
As agências de notícias divulgaram recentemente a versão israelense de um ataque de colonos contra um vilarejo próximo a Nablus: “caminhantes” teriam sido “atacados” por palestinos. Os tranquilos caminhantes amantes da natureza que percorriam os territórios palestinos para admirar suas paisagens teriam sido agredidos por terroristas sedentos de sangue que detestam mochilas.
Na verdade, tratava-se de uma milícia de colonos armados com fuzis M16 que foram, como de costume, assediar e maltratar os habitantes. Um jovem palestino agarrou a arma do líder do bando e o matou na hora. Os “caminhantes” têm o direito de atacar vilarejos, queimar mesquitas e campos, matar quem quiserem. Os palestinos que simplesmente querem viver em suas terras não têm o direito de atrapalhar seus passeios.
A maioria da população depende da ajuda humanitária, que continua diminuindo
Como relacionar essas duas realidades, a da propaganda israelense e a do terreno? Mais uma vez, eu não sabia o que dizer, e essa é uma das razões pelas quais fiquei em silêncio por um tempo. Esta é a realidade: em Gaza, a situação está cada vez pior. O genocídio continua. A água potável está cada vez mais escassa. As ONGs internacionais, inclusive as da ONU, estão reduzindo suas atividades no enclave. A maioria da população depende da ajuda humanitária, que continua diminuindo. O responsável por emergências do Programa Mundial de Alimentos (PMA) acaba de anunciar que “neste mês, a ajuda em dinheiro destinada a 75 mil pessoas foi reduzida em 25%, enquanto 220 mil famílias viram suas rações alimentares reduzidas pela metade”, e acrescentou que “em outubro, o PMA terá que fazer cortes muito maiores, a menos que sejam obtidos fundos adicionais”[2]. Ele alertou que uma nova fome poderá se instalar em Gaza no próximo dezembro. A ONG World Central Kitchen (WCK), que até agora distribuía 1.500.000 refeições por dia às cozinhas comunitárias, reduziu sua ajuda pela metade. A redução da ajuda humanitária também afeta o emprego. Muitos moradores da Faixa de Gaza empregados por ONGs internacionais ou associações locais foram demitidos.
Na França, a onda de calor causou milhares de mortes, apesar de um bom sistema de saúde. Imagine seus efeitos em Gaza
O apoio da diáspora também tende a diminuir. Desde o início do genocídio, muitas famílias de Gaza foram apoiadas por seus amigos, irmãos e parentes no exterior, que lhes enviam dinheiro regularmente ou por meio de fundos online. Três anos depois, muitas dessas famílias já não têm mais condições de financiar seus parentes. Aqueles que têm condições, assim como os doadores por meio dos fundos, podem se cansar de uma situação sem saída.
E, acima de tudo, os palestinos no exterior podem ser enganados pelas imagens veiculadas pela mídia ocidental e israelense, que afirmam que agora temos uma vida boa em Gaza. Falam-nos de um “cessar-fogo” que não existe. Mostram-nos supermercados onde é possível encontrar chocolate, Nutella e ketchup.
Não mostram os 1,5 milhão de pessoas que vivem em barracas em condições de vida atrozes. Não mostram o sistema de saúde praticamente destruído, as crianças que correm atrás dos caminhões-pipa para pegar um pouco de água, que fazem fila sob um calor escaldante para conseguir um prato de lentilha. Na França, a onda de calor causou milhares de mortes, apesar de um bom sistema de saúde.
Imaginem seus efeitos em Gaza, nas crianças e nos idosos que vivem sob lonas. Sob o sol, essas lonas e telas de barraca se transformam em estufas onde as pessoas se queimam.
Os ratos atacam os bebês
Gaza está agora estrangulada economicamente, mais do que militarmente. Durante o período mais intenso do genocídio, os preços dos alimentos podiam chegar a 100 vezes mais. Um quilo de maçãs chegava a custar 100 shekels (quase 29 euros), e ainda havia compradores. Hoje em dia, o quilo de maçãs custa 10 shekels (quase 3 euros), mas quase ninguém tem condições de comprá-lo. As pessoas que tinham um pouco de dinheiro já não o têm mais. Quem tinha algumas economias as perdeu. Gastei quase todas as minhas economias durante esse genocídio. Não consigo mais proporcionar uma vida normal aos meus filhos.
Todos os dias há bombardeios, todos os dias há mortos, seja nos ataques ou por falta de cuidados, como o irmão de Ayman. Quem sofre de doenças graves (câncer, insuficiência renal, problemas respiratórios e dermatológicos) e quem passou por amputações não consegue receber tratamento. Todos esses doentes estão morrendo em silêncio, mas com grande sofrimento. Os israelenses também nos matam por causa da falta de higiene. Os ratos atacam os bebês. Segundo Bassem Zaqout, diretor da Organização da Sociedade de Socorro Médico Palestino (Associação de Socorro Médico Palestino, PMRS):
“Houve 3.958 abortos espontâneos em mulheres grávidas durante o primeiro semestre de 2026, devido aos deslocamentos por estradas em mau estado e a bordo de meios de transporte inseguros, ao estado de medo permanente causado pelos bombardeios, bem como às condições de vida extremamente difíceis: dormir no chão, falta de água quente e produtos de higiene, e a propagação de condições sanitárias precárias nos campos de deslocados”.
É o mais forte que sobrevive
E então, nesse oceano de miséria, surgem as novas fortunas geradas por diversos tipos de tráfico, muitas vezes em conexão com os israelenses. Esses novos ricos gostam de se exibir. Desfilam em carros de 100 mil euros, ou até mesmo de 200 mil euros. Compram terrenos, casas ou o que restar, e os reconstruem, o que custa uma fortuna devido à falta de materiais, mas os traficantes encontram maneira de obtê-los a um preço alto.
A guerra dilacerou o tecido social de Gaza. É claro que sempre há casos de solidariedade entre as famílias, mas, por falta de recursos, por falta de dinheiro, por falta de tudo, cada vez mais prevalece o “cada um por si”. Estamos em modo de sobrevivência, porque não há vida em Gaza. É o mais forte que continua vivo.
O mais forte economicamente, o mais forte fisicamente, que consegue procurar trabalho e que é o primeiro a ser atendido nas filas pela ajuda humanitária e pela água. Os menos fortes pertencem à categoria daqueles que vão morrer.
A estratégia israelense evoluiu. Agora ela utiliza o “efeito rã”
Tudo isso foi, sem dúvida, a razão do meu silêncio. A sensação de ter o coração cheio de coisas a dizer, mas, ao mesmo tempo, não poder dizê-las. É o efeito de três anos de um genocídio sem fim. E, acima de tudo, por essa sensação de não ser ouvido. Essa “comunidade internacional”, esses governos que nos veem, que nos ouvem, que veem tudo o que está acontecendo… Por que nos tratam assim? Por que não nos consideram seres humanos? Por que essa impunidade de Israel? Por que esse Estado é intocável? Por que esses massacres, esse terrorismo de Estado? Eles dizem claramente que querem nos deportar, que querem expulsar a população de Gaza e instalar assentamentos aqui. E o Ocidente não se mexe. Talvez eu precisasse me calar, pensar no que estamos vivendo. Porque nossa sociedade mudou. Nós mudamos. Tentamos continuar vivendo, encontrar momentos de alegria, mas conseguimos isso cada vez mais raramente.
A estratégia israelense evoluiu. Agora ela usa o efeito rã. Em vez de nos matar diretamente e em massa, eles nos exterminam aos poucos, como uma rã submersa em água que vai esquentando gradualmente. Ela não percebe, e quando a água ferve, já é tarde demais. Para os israelenses, seu ministro da Defesa em 2023, Yoav Gallant (acusado pelo Tribunal Penal Internacional de “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade”), já disse: somos “animais humanos”. Escrevo essas palavras com grande tristeza. Normalmente, é meu cérebro que fala, mas agora é meu coração. Sinto que a comunidade internacional sabe muito bem que, no fim das contas, a rã morrerá