A importância estratégica da eleição brasileira para a situação internacional
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A importância estratégica da eleição brasileira para a situação internacional

Uma vitória de Lula e o crescimento do PSOL serviriam como pontos de apoio para coordenar um movimento antifascista internacional, combinando a luta contra a extrema direita mundial com a defesa da soberania dos povos

Israel Dutra 7 ago 2026, 13:02

Foto: Manifestação em Porto Alegre durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. (Redes Sociais/Reprodução)

De todo os processos e fenômenos geopolíticos, sociais e eleitorais que o mundo atravessa, a eleição brasileira merece um lugar muito especial.

Enquanto a extrema direita semeia um projeto internacional com traços neofascistas, disputando o sentido de futuro, defendendo o genocídio em Gaza, a disputa eleitoral brasileira ganha contornos estratégicos. Trump precisa avançar com o projeto da nova Estratégia de Segurança Nacional, batizada “Donroe”, uma vez que sofreu uma importante derrota no Oriente Médio, a partir do que está se consolidando como fracasso da agressão militar contra o Irã.

Trump representa um imperialismo em declínio, porém mais agressivo, disputando áreas de influência com o imperialismo chinês emergente. Para tanto, ativa uma corrente neofascista com peso de massas e que atua de forma sincronizada, tendo em Milei seu referente regional. Depois de conquistar vitórias eleitorais, controversas por sinal, no Peru e na Colômbia, Trump e Milei querem derrotar a todo custo Lula em outubro. Além de seguir a tutela na Venezuela, o acosso sobre Cuba, a mudança do governo brasileiro, pintando o maior país do mapa sul-americano de azul, é um objetivo estratégico para o trumpismo.

O centro da disputa: ofensiva imperialista e soberania

O governo americano atua de forma consciente contra a soberania do Brasil. Além do acintoso tarifaço, que taxou em 37,5% diversos produtos brasileiros, tivemos sinais inequívocos de ingerência como a classificação do CV e PCC como grupos terroristas, a prorrogação do estado de emergência nacional declarado em relação ao Brasil, levantando suspeitas sobre a eleição e as urnas eletrônicas.

A nova escalada envolveu a revisão do visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, numa atitude inédita em evidente retaliação diante da postura brasileira.

Milei foi figura de proa na convenção de Flávio. Falou contra o “socialismo” e conclamou derrotar Lula e a esquerda no continente, esperando a vitória da oposição na eleição brasileira. Milei concluiu seu “giro” pela América do Sul na posse de Abelardo de la Espriella como novo presidente da Colômbia.

O centro da disputa da eleição brasileira será a questão da soberania. As big techs, como a Palantir de Peter Thiel (que se instalou na Argentina de Milei), atuam como força de choque digital do projeto da extrema direita. Parte de seus desejos é construir um experimento tecnofascista nos países da região e tal projeto recebe também o apoio entusiasmado de Renan Santos e do partido Missão no Brasil.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro abriria caminho para uma maior ofensiva colonial, controle das terras, das águas, dos portos e muitos outros recursos e estruturas nacionais, além de ampliar de forma contundente o intervencionismo estadounidense na América Latina.

Independência ou Trump

Uma vitória de Lula servirá como “muro de contenção” para a ofensiva direitista e neocolonial. A sanha trumpista quer controlar as terras raras no Brasil, a produção mineral, como do lítio na Argentina e Bolívia, além das principais hidrovias. A questão do controle das transações financeiras, como a do Pix, é parte da disputa geral e torna-se uma medida central para exemplificar para dezenas de milhões de pessoas como a linha de Trump em favor dos interesses dos EUA vai piorar as condições de vida da maioria da população brasileira.

Não se pode perder de vista que a ampla maioria da elite brasileira aceita a condição subordinada, apesar de reclamações e perdas. A vergonhosa declaração do ministro da Defesa, José Múcio, de que iria “abrir o portão” em caso de uma hipotética invasão dos Estados Unidos deve ser combatida, pois é a expressão de uma ‘quinta coluna” de traidores nas hostes do próprio governo. Importante lembrar também que Múcio foi uma das principais vozes em defesa da redução de penas dos golpistas do 8 de janeiro.

É fundamental articular a luta por soberania, por uma efetiva independência do imperialismos, com a defesa dos direitos democráticos e de um plano que atenda as demandas da maioria da população. Flávio representa um projeto de retrocesso nas condições de vida das mulheres e das populações negras e indígenas seriam diretamente afetadas por suas posições masculinistas, racistas e em favor do extrativismo predatório.

Uma vitória de Lula reposicionaria o pêndulo da relação de forças continental. E pavimentaria o caminho para a derrota de Trump, já encrencado no Irã e com chances de perder as eleições de midterms nos Estados Unidos em novembro próximo.

É isso que está em jogo.

A força do PSOL e a conexão com os fenômenos internacionais à esquerda

Além de derrotar a extrema direita, nas eleições de outubro estará colocado fortalecer o PSOL e sua bancada, superando a cláusula de exclusão e enviando um sinal para a esquerda anticapitalista no mundo. A nova dinâmica do PSOL, com sua ala mais atrelada ao governo em vias de deixar o Partido, reforça a sua independência política e o credencia internacionalmente.

A eleição brasileira pode refletir o giro à esquerda que setores de massas estão fazendo. O crescimento do DSA nos Estados Unidos, onde candidatos alinhados a defesa da Palestina venceram o lobby sionista nas primárias democratas, é parte da expressão que combina unidade para enfrentar a extrema direita e a construção de um novo polo à esquerda dos partidos tradicionais. Não foi menor a vitória do médico Abdul El-Sayed nas primárias Democratas em Michigan, derrotando os setores pró-Israel do establishment do do partido em um movimento fortemente representando por Zohran Mamdani – atual prefeito de Nova York – e que se amplia através de um setor cada vez mais radicalizado do povo norte-americano.

Com as devidas diferenças, a busca por algo novo na Argentina resulta no fortalecimento da Frente de Esquerda (FIT-U), que supera mais de 10% em boa parte das pesquisas de opinião. Tal movimento se combina com as amplas mobilizações contra as políticas privatistas e entreguistas de Milei no país, que pioram cada vez mais a dura situação econômica da classe trabalhadora argentina. Ao redor do planeta, a Geração Z está sendo disputada e pesquisas indicam que cresce entre os jovens a inclinação para ideias socialistas também nos Estados Unidos e em outros países centrais.

Uma vitória de Lula e o crescimento do PSOL serviriam como pontos de apoio para coordenar um movimento antifascista internacional, combinando a luta contra a extrema direita mundial com a defesa da soberania dos povos. Por isso, somos parte da construção de uma nova edição regional da Conferência Internacional Antifascista, que será realizada em dezembro próximo na Argentina.

Está colocada na ordem do dia espalhar por todo lado a bandeira: Fora Trump do Brasil e de toda a América Latina!


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