A Argentina não é Milei
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A Argentina não é Milei

A vinda de Milei ao Brasil é parte do plano de se credenciar como o principal operador de Trump na América Latina

Israel Dutra 26 jul 2026, 09:10

Foto: Javier Milei e Flávio Bolsonaro. (Redes sociais/Reprodução)

Com sorrisos cúmplices entre sabujos, Flávio Bolsonaro e Javier Milei dividiram o palco na convenção que lançou o candidato do clã à presidência.

Milei chegou ao Brasil, recebeu uma medalha de Tarcísio de Freitas e fez um inflamado discurso “anti-socialista” na convenção do PL.

Em meio à preparação para as eleições decisivas de outubro no Brasil e diante da ofensiva feroz de Trump contra os interesses do povo brasileiro, a mensagem é bastante direta: Milei quer emprestar seu prestígio e projeto a serviço de um governo “motosserra” no Brasil.

Tentando se credenciar como articulador central da extrema direita na região, Milei faz uma jornada diplomática para aplaudir as posses de Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella, passando por Peru e Colômbia e reforçando Flávio Bolsonaro.

Tudo isso ocorre num clima onde a rivalidade entre Brasil e Argentina se acentuou, nas redes sociais, a partir da Copa do Mundo, com um setor querendo escalar o antagonismo entre brasileiros e argentinos para outras esferas da vida social.

Como compreender o profundo processo de articulação de interesses, que transpassam nações e fronteiras? Retornando ao motor da história: a luta entre as classes.

O lugar de Milei

Fruto da crise prolongada do capitalismo iniciada em 2008, com elementos que vão desde o declínio relativo dos Estados Unidos, os conflitos geopolíticos e militares, a agonia da democracia liberal, a frustração com o progressismo e a reação contra ampliação das lutas democráticas e contra opressões, a extrema direita ganhou um lugar protagonista na arena política mundial. Essa é uma realidade inescapável. Em quase todos os países, a extrema direita é um ator relevante nas agendas políticas e eleitorais, forçando uma polarização cada vez maior.

Depois do ocaso do governo peronista de Fernadez, Javier Milei subiu ao poder, ao final de 2023, com seu discurso “libertário”, alinhado com Trump. Sua presença como “nova extrema direita”, com traços supremacistas e neofascistas, foi ganhando peso a partir do modelo de gestão, da ideologização da retórica, das relações com a direita sionista e sua abertura às big techs. Milei se articulou como parte do projeto de Trump, de uma internacional da extrema direita, o CPAC; com Netanyahu sendo o principal chefe de estado da América Latina a sustentar o genocídio na Palestina; à constelação comunicacional chefiada por Musk e Thiel.

Seu projeto é aproveitar que ainda goza de apoio de uma parcela da população, ainda que minoritário e em queda para, apoiado no controle relativo da inflação, implementar um plano de choque que altere a relação de forças na sociedade argentina e redesenhe o modelo de Estado, aparado pela “motoserra”. O ambicioso plano enfrenta resistência na sociedade argentina.

A vinda ao Brasil é parte do plano de se credenciar como o principal operador de Trump, na esteira das vitórias eleitorais de Keiko Fujimori no Peru e do colombiano Abelardo de la Espriella.

Milei cumpre um papel central. Quer disputar credibilidade internacional e lutar para que parte da burguesia siga emprestando apoio aos planos, em que pese excessos. Se olharmos as dificuldades de Trump – questionado dentro e fora dos Estados Unidos -, o fato que as vitórias eleitorais da extrema direita na região foram “vitórias de Pirro” e que o presidente chileno Kast já atravessa crises importantes, resta a Milei pisar no acelerador. Se apresentar como um “líder regional” a serviço desse projeto.

O lugar da Argentina

Para se projetar como “homem do mundo”, Milei precisa impor seu plano na Argentina. Trocando em miúdos: ser reeleito em 2027 para cumprir com sua agenda, que só é possível se derrotar e desmoralizar o movimento de massas e as reservas democráticas da sociedade argentina.

É um plano ousado, porém, nada simples. A começar por seus aliados internacionais, ou melhor dizendo, suas referências e “chefes políticos”, que são Trump e Netanyahu.

Trump está jogando em diversas frentes, como uma complicada operação no Oriente Médio e um labirinto ligado ao acionamento da guerra tarifária. Tudo isso com uma eleição pela frente em novembro e um repúdio crescente, dentro e fora do seu país. Netahyahu sustenta sua ofensiva sobre a Palestina e o Líbano com base no genocídio e no apoio de Trump, porém ao preço de um isolamento internacional nunca visto desde o regime do Apartheid na África do Sul.

Nesse momento, Milei se apresenta para cumprir um papel estratégico, com a disposição de Trump de redobrar sua ofensiva sobre o continente americano, depois do sequestro de Maduro e Cilia e a pressão para asfixiar Cuba. Para isso, mais importante que a simpatia de Milei é a resultante sobre a Argentina. O país é o laboratório da polarização, ainda que Milei e Trump o querem como “laboratório da extrema direita”.

Apesar da desindustrialização, a Argentina segue tendo um lugar estratégico na economia mundial, por vários elementos, como a extração de recursos naturais centrais e a produção de grãos e outros alimentos.

A tradição política, o nível cultural e a capacidade de organização da sociedade argentina conferem, contudo, ao país, tal qual o Brasil por exemplo, um lugar central nas definições gerais sobre a América do Sul. Um dado relevante, diante desse cenário, é que o país possui ainda um índice de sindicalização que varia entre 27 e 30%, longe dos índices de países nórdicos, mas altíssimos para a periferia do capitalismo.

E essa Argentina, frustrada após anos de alternância entre o peronismo e a direita tradicional, que Milei quer torcer e consolidar como parte orgânica do projeto da extrema direita mundial.

Com êxito relativo na aprovação de algumas leis, a situação de Milei é contraditória. Podemos dizer que vive um impasse: de um lado mantém certo apoio, aparece como candidato a reeleição e usa dos dados da inflação esconder as terríveis condições de ajuste; por outro, já tivemos quatro greves gerais durante a era Milei, manifestações multitudinárias como as do dia da memória em 24 de março e um enorme mal humor social represado. Milei hoje oscila entre 32 e 36% de aprovação, com sua reprovação chegando a até dois terços da população, a depender da pesquisa. Portanto, longe de qualquer estabilidade que o credencie para navegar em mar calmo.

Os últimos escândalos de corrupção que custaram a demissão de seu principal articulador e ex -chefe de gabinete, Manoel Adorni, voltaram a colocar o governo na defensiva. A Copa do Mundo funcionou como um interregno, onde tampouco Milei conseguiu capitalizar, com os jogadores empunhando faixas sobre as Malvinas e dando declarações de que a situação econômica do país é insustentável. Ambos os casos irritaram Milei.

A debilidade do peronismo e a passividade de alguns sindicatos como a CGT ajudam a explicar o impasse, quando mesmo com Milei mais frágil, a oposição e o movimento de massas não conseguem impor derrotas estruturais ao seu governo.

O próximo semestre será decisivo. Nos meses que antecedem à eleição o pêndulo da política argentina estará com toda atenção concentrada: Milei contornará as dificuldades e vai conseguir avançar com seu plano de ajuste? Ou o mal-estar que a sociedade vive vai encontrar caminhos para ser canalizado numa luta mais aberta contra o governo?

A indefinição eleitoral por parte da oposição é outro fator. O peronismo está altamente dividido, com no mínimo duas grandes alas enfrentadas. Por um lado, Axel Kicillof, governador da maior província do país, Buenos Aires; de outra parte, sem condições judiciais de concorrer e em prisão domiciliar, Cristina Kirchner. Pela esquerda, a novidade é a candidatura de Myriam Bregman, da FITU, que aparece com quase 15% nas pesquisas, indicando tanto uma simpatia difusa por ideias mais à esquerda em amplas franjas de massas quanto a responsabilidade da esquerda anticapitalista em se postular como uma alternativa real, plural, aberta e com vocação de maioria.


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