A esquerda volta ao jogo no Espírito Santo
A campanha começa oficialmente em 16 de agosto, mas a disputa pelos rumos do Espírito Santo já começou
A pré-campanha eleitoral no Espírito Santo entrou em uma nova fase. No último domingo (26), o Esquenta dos Apoiadores da deputada estadual Camila Valadão (PSOL) reuniu um público expressivo e lotou a Casa Caipora, no Centro de Vitória, demonstrando que a militância do partido chega mobilizada para as próximas semanas. Mais do que um ato de preparação, o encontro simbolizou um momento político diferente daquele vivido há poucas semanas, quando o cenário da esquerda capixaba ainda era marcado por impasses e incertezas.
A principal delas dizia respeito à Federação PSOL-Rede. Depois de semanas de negociações, os dois partidos chegaram a um acordo que preserva a unidade da Federação e, ao mesmo tempo, reconhece as diferentes estratégias adotadas por cada legenda para a disputa majoritária no estado.
Pelo entendimento aprovado pela direção da Federação, a Rede Sustentabilidade apoiará Ricardo Ferraço (MDB) para o Governo do Estado e Renato Casagrande (PSB) e Fabiano Contarato (PT) para o Senado. O PSOL, por sua vez, apoiará Helder Salomão (PT) para o Governo, lançará a candidatura do Professor Carlos Fabian (PSOL) ao Senado e indicará Contarato como segunda opção de voto para senador.
O elemento político mais importante desse acordo é que a candidatura de Carlos Fabian será registrada pela própria Federação, assegurando ao PSOL o direito de apresentar uma candidatura socialista ao Senado sem romper a unidade construída nas chapas proporcionais. A Federação seguirá unificada na disputa para deputado estadual e deputado federal, na campanha pela reeleição de Camila Valadão e no apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reafirmando que derrotar a extrema direita continua sendo a principal tarefa política da esquerda brasileira em 2026.
Ao mesmo tempo, o restante do tabuleiro eleitoral capixaba também começou a se mover.
A consolidação da aliança entre Lorenzo Pazolini (Republicanos) e o PL, de Magno Malta, parece ter produzido um efeito diferente daquele imaginado por seus articuladores. Ao aproximar-se definitivamente do bolsonarismo, Pazolini abriu espaço para uma reorganização do centro político estadual. O PSD, presidido no Espírito Santo pelo prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, passou a ser tratado como uma peça importante dessa nova configuração.
Se esse movimento se confirmar, Ricardo Ferraço poderá ampliar seu arco de alianças justamente às custas da opção de Pazolini por uma vinculação mais orgânica ao bolsonarismo. Nesse contexto, também chama atenção o papel que poderá ser desempenhado pelo ex-governador Paulo Hartung. Hartung nunca escondeu a intenção de voltar a exercer um papel de projeção nacional. Se o PSD consolidar esse movimento, não seria estranho que uma eventual participação em um futuro governo Lula, inclusive ocupando um ministério, estivesse entre os elementos da negociação. Trata-se, evidentemente, de uma leitura política, mas que ajuda a compreender a intensidade das movimentações recentes.
Esse cenário também parece ter produzido mudanças importantes no campo da esquerda. Nas últimas semanas, a pré-candidatura de Helder Salomão passou a estabelecer uma contraposição mais clara aos projetos representados por Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini, recuperando temas que ajudam a diferenciar uma candidatura de esquerda das demais alternativas colocadas ao eleitorado capixaba. Mais do que construir um palanque para Lula, a candidatura petista passou a apresentar com maior nitidez um projeto para o Espírito Santo, conectando a defesa do governo federal com uma agenda voltada ao enfrentamento das desigualdades, à ampliação da participação popular e à disputa sobre o modelo de desenvolvimento do estado.
Na disputa pelo Senado, Fabiano Contarato segue bem posicionado nas pesquisas divulgadas até o momento. Ao mesmo tempo, a confirmação da candidatura de Carlos Fabian amplia a presença da esquerda socialista no debate estadual. Trata-se de uma candidatura que fortalece o projeto político do PSOL, impulsiona suas chapas proporcionais e amplia as possibilidades de diálogo com setores da sociedade que desejam uma alternativa claramente identificada com a esquerda.
Nada disso significa que o cenário esteja definido. As convenções partidárias ainda podem produzir novos movimentos e a própria campanha certamente modificará a correlação de forças ao longo dos próximos meses. Ainda existe expectativa sobre os desdobramentos das negociações envolvendo o PSD e seus reflexos na composição das chapas majoritárias, assim como permanece aberta a disputa em torno das candidaturas ao Senado.
Mesmo assim, é difícil negar que o PSOL chega às convenções em uma posição política mais consistente do que aquela existente poucas semanas atrás. O impasse na Federação foi superado, a candidatura de Carlos Fabian foi assegurada, a chapa proporcional foi preservada, a mobilização demonstrada no Esquenta de Camila Valadão revelou disposição militante para a campanha e a candidatura de Helder Salomão passou a apresentar uma identidade política mais definida.
No dia 31 de julho, a Federação PSOL-Rede realizará sua convenção para homologar as candidaturas. No dia 1º de agosto, o PSOL promoverá uma Convenção Pública, reunindo militantes, apoiadores e movimentos sociais em um ato político de lançamento de suas candidaturas. A campanha eleitoral começará oficialmente apenas em 16 de agosto, mas a disputa política já entrou em uma nova etapa.
Depois de semanas marcadas por negociações, impasses e rearranjos, a esquerda chega às convenções em condições políticas muito mais favoráveis do que parecia possível há pouco tempo. Não porque a eleição esteja encaminhada. Ao contrário. O cenário permanece aberto e altamente competitivo. Mas o campo que apoia Lula chega a este momento com uma estratégia mais clara, uma alternativa própria ao governo estadual, uma candidatura socialista ao Senado garantida e uma chapa proporcional capaz de disputar a ampliação da representação da esquerda.
Agora, a tarefa muda de natureza. O desafio deixa de ser resolver os impasses internos e passa a convencer a sociedade de que existe um caminho diferente tanto do continuísmo representado por Ricardo Ferraço quanto do projeto de extrema direita liderado por Lorenzo Pazolini. A campanha começa oficialmente em 16 de agosto. A disputa pelos rumos do Espírito Santo, porém, já começou.