Caos nos trilhos reacende debate sobre privatização em São Paulo
Incêndio, falhas elétricas, superlotação e paralisações marcaram os primeiros dias da nova concessionária; metroviários defendem reestatização e apontam histórico de problemas após concessões ferroviárias
Foto: Gabriele Faustino/TV Globo
Os primeiros dias da operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade pela concessionária Trivia Trens foram marcados por uma sucessão de falhas que mergulhou o transporte ferroviário de São Paulo em uma semana de caos. Incêndio em uma composição, interrupções de circulação, plataformas superlotadas, passageiros caminhando pelos trilhos e longas filas transformaram a estreia da empresa em um novo capítulo da discussão sobre a privatização do transporte sobre trilhos no estado.
A gravidade da situação levou a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) a determinar que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) reassuma temporariamente a operação das três linhas por 90 dias, enquanto são apuradas as causas dos problemas e a capacidade operacional da concessionária.
Para o Sindicato dos Metroviários e Metroviárias de São Paulo, porém, a medida é insuficiente. A entidade defende o cancelamento definitivo da concessão, a reestatização das linhas e novos investimentos na CPTM e no Metrô.
Incêndio e paralisação
O episódio mais grave ocorreu na manhã de quinta-feira (23), quando um incêndio atingiu uma composição da Linha 12-Safira nas proximidades da estação Brás. Segundo a Trivia Trens, um possível curto-circuito provocou o fogo, acionando automaticamente o desligamento das subestações elétricas. Como consequência, as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade tiveram a circulação interrompida por horas.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram fumaça, faíscas e passageiros deixando os vagões pelos trilhos, enquanto equipes da Polícia Militar auxiliavam na retirada das pessoas. Três usuários receberam atendimento médico, mas não houve registro de vítimas graves.
A interrupção provocou reflexos em toda a malha ferroviária da Região Metropolitana, com atrasos, plataformas lotadas e milhares de trabalhadores enfrentando dificuldades para chegar ao emprego.
Problemas começaram antes do incêndio
Para os metroviários, o incêndio foi apenas o episódio mais visível de uma sequência de falhas iniciada logo após a transferência da operação. Segundo Arthur Andrade, diretor de organização do Sindicato dos Metroviários, os passageiros já enfrentavam aumento dos intervalos entre trens, lentidão, restrições operacionais e superlotação desde o primeiro dia da concessão.
“Vimos problemas de diferentes naturezas desde o dia 21, quando a Trivia assumiu: superlotação de plataformas, principalmente na estação Brás, lentidão na movimentação dos trens, maiores intervalos em horários de pico, restrições na circulação e inutilização de vias”, disse Andrade ao DCM.
Para o dirigente sindical, a rapidez com que os problemas apareceram evidencia falhas na preparação da concessionária:
“Trata-se de uma tragédia anunciada, mas de fato impressiona a gravidade das falhas em apenas três dias, o que demonstra que houve um despreparo e um descaso total em gerenciar problemas operacionais a partir do momento em que a Trivia assumiu.”
O que teria provocado a crise
Na avaliação do sindicato, as dificuldades não começaram com a troca de operador, mas durante o processo de preparação da concessão. Arthur Andrade afirma que, desde o início da atual gestão estadual, houve redução da manutenção preventiva, dificuldades para reposição de equipamentos e diminuição do quadro de trabalhadores da CPTM.
“Desde o início do mandato do governador Tarcísio, o que vimos foi uma precarização sistemática da manutenção preventiva das linhas. Isso passa desde a falta de reposição de peças e equipamentos, tanto de via quanto dos próprios trens, até a falta efetiva de trabalhadores”, afirma.
Segundo a entidade, a perda de equipes experientes comprometeu a capacidade de resposta diante de falhas operacionais.
Impactos para passageiros
Os principais prejudicados foram os usuários do sistema. Milhares de passageiros ficaram retidos em plataformas superlotadas, enfrentaram longos atrasos e precisaram buscar meios alternativos para concluir seus deslocamentos.
Em alguns trechos, pessoas foram orientadas a deixar os trens e caminhar pelos trilhos até as estações mais próximas, procedimento adotado apenas em situações excepcionais e sob acompanhamento operacional.
O caos também afetou trabalhadores da própria ferrovia, que precisaram atuar em condições de elevada pressão para restabelecer a circulação e orientar os passageiros.
Metroviários defendem a reestatização
Diante da sequência de falhas, o Sindicato dos Metroviários voltou a defender que as linhas retornem definitivamente ao controle público. Segundo a entidade, empresas privadas operam sob uma lógica voltada à remuneração dos acionistas, o que pode pressionar custos de manutenção, investimentos e contratação de pessoal.
“Nós, metroviários, defendemos a reestatização das linhas de trens, pois é a única forma de garantir que a lógica do lucro não prevaleça sobre a prestação de um serviço essencial”, disse Arthur Andrade.
Além do cancelamento da concessão, o sindicato reivindica concursos públicos, recomposição do quadro de funcionários, investimentos permanentes na CPTM e absorção dos trabalhadores atingidos pelas concessões, preservando salários e direitos.
Um histórico de problemas
A crise envolvendo a Trivia Trens ocorre em um contexto de questionamentos sobre outras concessões ferroviárias em São Paulo.
Desde que passaram para a iniciativa privada, em 2022, as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, operadas pela ViaMobilidade, registraram uma série de ocorrências que motivaram multas aplicadas pelo governo estadual, investigações do Ministério Público e críticas de usuários.
Entre os episódios registrados nos últimos anos estão falhas de energia, interrupções prolongadas da circulação, panes em sistemas de sinalização, descarrilamentos de composições, problemas em portas de trens, restrições de velocidade e superlotação em horários de pico.
Em março de 2023, um descarrilamento na Linha 8-Diamante interrompeu a circulação por horas. Em diferentes ocasiões, panes elétricas e falhas de sinalização provocaram paralisações simultâneas nas duas linhas, levando o governo estadual a aplicar sucessivas penalidades contratuais à concessionária.
A ViaMobilidade atribuiu esses episódios, em diferentes momentos, a fatores como falhas em equipamentos antigos herdados da operação anterior, vandalismo, furtos de cabos e necessidade de modernização da infraestrutura, além de afirmar que vem realizando investimentos previstos no contrato de concessão.
Debate político
Os novos problemas também repercutiram no debate sobre a política de concessões do governo paulista. Levantamento do Datafolha divulgado em julho mostrou que 53% dos paulistanos são contrários à privatização das linhas da CPTM, enquanto 39% apoiam o modelo. Em 2023, os índices eram de 45% e 49%, respectivamente, indicando uma inversão na percepção da população.
Enquanto o governo estadual sustenta que as concessões permitirão ampliar investimentos e melhorar a qualidade do transporte ao longo dos próximos anos, sindicatos e movimentos de usuários defendem que os episódios recentes reforçam a necessidade de fortalecer as empresas públicas e ampliar investimentos diretos na operação ferroviária.
A crise da Trivia reacendeu esse debate ao mostrar que a simples transferência da operação para a iniciativa privada não elimina, por si só, problemas estruturais acumulados durante décadas. Para passageiros que enfrentaram horas de espera, superlotação e insegurança nos primeiros dias da nova concessão, a principal expectativa permanece a mesma: um sistema de transporte confiável, seguro e capaz de responder rapidamente quando surgem falhas.