A escola, o Estado e a disputa pelo imaginário
Harry Potter e a Ordem da Fênix

A escola, o Estado e a disputa pelo imaginário

Em “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, o controle exercido pelo Ministério da Magia sobre Hogwarts revela como a escola pode ser usada para moldar valores, controlar narrativas e disputar o imaginário social

Vanderlei Tenório 25 jul 2026, 07:00

Foto: Divulgação

Em uma das cenas mais emblemáticas de Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007), os corredores de Hogwarts deixam de ser apenas um espaço de aprendizagem de magia para revelar algo familiar: uma instituição submetida ao controle político. A chegada de Dolores Umbridge ao castelo não representa meramente a entrada de uma professora autoritária. Ela simboliza a tentativa de um governo de ocupar uma estrutura de formação de conhecimento, reorganizar seus valores e determinar o que pode — ou não — ser ensinado.

Antes mesmo de lançar seu primeiro feitiço contra os estudantes, Umbridge já exerce uma forma de poder. Vestida em tons de cor-de-rosa e falando com uma cordialidade artificial, ela anuncia uma mudança na relação entre Estado e escola. O Ministério da Magia, acuado pela necessidade de preservar sua autoridade diante do retorno de Lord Voldemort, decide intervir diretamente em Hogwarts. O argumento oficial é a modernização e a organização do ensino. A prática, contudo, revela outra intenção: o controle sobre a produção do conhecimento.

“Progresso pelo progresso não será encorajado”, afirma Umbridge em seu discurso de abertura do ano letivo. A frase sintetiza a lógica de uma administração que enxerga a educação não como um espaço de pensamento crítico, mas como instrumento de reprodução de uma determinada ordem política.

Embora pertença ao universo fantástico de J.K. Rowling, a situação dialoga com uma discussão central na filosofia política e na sociologia da educação: a tensão entre Estado, escola e ideologia. O filósofo francês Louis Althusser, em Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado (1970), argumentava que a manutenção de uma sociedade não ocorre apenas pela força ou pela repressão direta. Os Estados modernos operam, sobretudo, por meio de instituições responsáveis por transmitir valores, comportamentos e visões de mundo. Entre esses aparelhos, a escola ocupa uma posição privilegiada.

Para Althusser, a educação é o espaço onde uma sociedade ensina não apenas conteúdos técnicos, mas formas de compreender a própria existência. O aluno aprende matemática, literatura e ciências, mas também internaliza regras de comportamento, expectativas sociais e uma visão específica sobre trabalho, autoridade e hierarquia.

A escola, nesse sentido, nunca é um local neutro de transmissão de conhecimento; é, permanentemente, um território de disputa.

A escola como fábrica de cidadãos

A ideia de que a educação possui uma dimensão política não nasceu com Althusser. Desde o século XIX, pensadores ligados ao marxismo analisavam a simbiose entre formação escolar e organização econômica. Com a Revolução Industrial, a escola moderna assumiu uma nova função: além da alfabetização, precisava moldar indivíduos aptos a ocupar posições na estrutura produtiva. A disciplina dos horários, a organização das fileiras, a autoridade do professor e a valorização da obediência espelhavam a lógica da fábrica e da hierarquia do trabalho.

Na visão althusseriana, o sistema educacional moderno perpetua essas relações. Ele não apenas prepara trabalhadores para funções específicas, mas também inculca noções de mérito, sucesso individual e lugar social. A escola ensina, portanto, a cada indivíduo como compreender seu próprio papel na estrutura social.

É precisamente esse mecanismo que vemos em A Ordem da Fênix. O Ministério da Magia não fecha Hogwarts, não proíbe as aulas nem expulsa os professores. Ele faz algo mais sofisticado: modifica as regras internas. O controle ocorre pelo currículo. A disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, antes voltada para o aprendizado prático de proteção, torna-se meramente teórica.

O livro de Wilberto Slinkhard, adotado por Umbridge, evita a prática e limita os estudantes a uma abstração inofensiva da defesa mágica. A justificativa é pedagógica; o resultado é a formação de jovens incapazes de enfrentar ameaças reais. A escolha não é acidental: ensinar jovens bruxos a agir significaria permitir-lhes autonomia. Manter a teoria significa manter o controle.

Quem controla o currículo, controla o futuro

A disputa em Hogwarts ressoa um problema contemporâneo: quem decide o que uma geração deve aprender? Currículos escolares nunca são construídos no vazio; eles refletem escolhas políticas, disputas culturais e interpretações sobre o que é considerado “importante”.

Essa tensão não pertence apenas ao universo da ficção. No Brasil, as transformações recentes nos currículos escolares revelam como as escolhas sobre o ensino envolvem distintos projetos de sociedade. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP), orientada pela professora Cláudia Valentina Assumpção Galian, analisou as mudanças no currículo do ensino médio paulista entre 2007 e 2020. 

O estudo aponta uma redução expressiva na carga horária de disciplinas tradicionais — como história, geografia, física, química e filosofia — em favor de uma formação de caráter marcadamente instrumental.

Ao adotarem a lógica das “competências”, documentos como o Currículo Oficial do Estado de São Paulo (2008) e o Currículo Paulista (2020) passaram a priorizar habilidades como empreendedorismo, educação financeira, uso de tecnologias e “projeto de vida”. Para os pesquisadores, essa guinada não é meramente metodológica, mas uma definição política sobre o papel da escola. Fundamentado em autores como o espanhol Gimeno Sacristán e o britânico Michael Young, o estudo reforça que o currículo é um espaço atravessado por interesses sociais e econômicos, onde se estabelecem hierarquias de saber.

Para Althusser, os aparelhos ideológicos funcionam justamente porque não se apresentam como mecanismos de dominação, mas como a própria normalidade. A ideologia é mais eficiente quando assume ares de senso comum. O estudante absorve uma interpretação da história ou da economia sem notar que aquele saber é, antes de tudo, uma perspectiva política.

Isso não significa, porém, que toda educação seja manipulação ou que professores sejam meros peões do Estado. A escola também é um espaço de resistência. Antonio Gramsci, outro pilar da compreensão entre cultura e poder, argumentava que a política se faz no campo das ideias. As instituições que produzem conhecimento podem consolidar uma hegemonia, mas também podem criar as condições para contestá-la.

Essa contradição pulsa em Harry Potter. Enquanto o Ministério tenta transformar Hogwarts em um centro de obediência, os alunos criam a Armada de Dumbledore. A iniciativa nasce da ausência de uma educação crítica; ao negar o conhecimento necessário para enfrentar a realidade, o Estado acaba produzindo os próprios dissidentes.

Assim como em Hogwarts, onde o Ministério busca redefinir o ensino para preservar sua autoridade, a definição de um currículo escolar brasileiro é, em última instância, uma disputa sobre quais saberes serão valorizados e quais serão silenciados. Controlar o que uma sociedade ensina às novas gerações significa, inevitavelmente, influenciar como elas interpretam o mundo e imaginam seu próprio futuro.

Entre a repressão e o consenso

Althusser diferenciava os aparelhos repressivos (polícia, exército) dos aparelhos ideológicos (escola, família, religião). Os primeiros funcionam pela força; os segundos, pelo consenso. A trajetória de Umbridge combina ambos. Ela começa pelo currículo e pelas avaliações; logo, escala para os Decretos Educacionais e a função de Alta Inquisidora. A intervenção administrativa converte-se em vigilância e punição.

A narrativa de Rowling recupera, aqui, a discussão real sobre regimes autoritários: a sanha por controlar as instituições que formam as novas gerações. Governos autoritários visam escolas e universidades porque compreendem que a educação não produz apenas trabalhadores, mas interpretações do mundo. Quem controla a memória, controla o presente; quem controla o ensino, molda as possibilidades do futuro.

A análise de Althusser é, por vezes, criticada por uma visão excessivamente determinista da escola. Afinal, instituições educacionais também foram palco de emancipação e de movimentos sociais. Ainda assim, sua contribuição permanece atual: nenhuma escola existe apartada das disputas de poder. Ela pode reproduzir desigualdades, mas também pode revelá-las. Pode transmitir valores dominantes, mas também formar sujeitos capazes de implodi-los.

É essa ambiguidade que torna Hogwarts uma metáfora tão poderosa. O castelo não é apenas uma escola de magia; é uma arena. De um lado, o Ministério deseja uma educação previsível e dócil; de outro, os estudantes descobrem que aprender é, acima de tudo, desenvolver autonomia.

No fim, a batalha contra Voldemort não começa nos duelos mágicos, mas dentro da sala de aula, quando os jovens compreendem que o conhecimento não é o que a autoridade decide transmitir, mas o que uma sociedade permite questionar.


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