Revolta juvenil na Índia derruba ministro da Educação
Grande movimento da juventude indiana se levanta contra o governo de extrema direita de Modi
Foto: Manifestação de estudantes em Nova Delhi. (Sajjad Hussain/GI)
O movimento das autodenominadas “baratas” – um xingamento de um magistradoo que o movimento pré-universitário assumiu como galhofa – enfrentou repressão e preconceito durante oito semanas e venceu importante batalha. Os dirigentes da revolta chamaram os estudantes a voltar para casa, mas é pouco provável que as coisas voltem ao normal no gigante do Sul asiático.
Em 25 de julho, o ministro da Educação da Índia renunciou. Foi a primeira vez, em doze anos de governo de Narendra Modi, que uma rebelião nas ruas forçou a saída de um ministro. O movimento responsável por isso tinha oito semanas de existência, sem estrutura organizacional, sem recursos financeiros e sem nenhum programa além da derrubada do ministro e da sátira com a difícil situação que vivem.
Tudo começou em 16 de maio, quando o presidente do Supremo Tribunal da Índia comentou, do banco dos juízes, que os jovens desempregados eram como baratas, parasitas que atacam o sistema. Um graduado na casa dos vinte anos respondeu fundando nas redes sociais o “Partido Popular das Baratas”. Em três dias, o novo “partido” já contava com três milhões de seguidores; em julho, já eram 22 milhões, mais do que o número de membros do Bharatiya Jana Sangh (BJS, Partido do Povo Indiano), agremiação hinduísta de extrema direita no poder. Em junho, o movimento ocupou uma praça central de Nova Delhi e começou protestos na capital em resposta ao vazamento de uma prova do exame nacional de admissão à faculdade de medicina, ao qual 2,2 milhões de candidatos se inscreveram para 130 mil vagas e que acabou sendo cancelado.
Foi o início de uma tragicomédia de erros do Estado. Primeiro, deslegitimou a causa e os jovens — acusando-os de antinacionais e financiados pelos inimigos da Índia, o repertório de sempre. Os estudantes responderam filmando confissões graves de que a China havia transferido sessenta rúpias para a passagem de ônibus e o Paquistão, quarenta para o almoço, cerca de um dólar entre os dois países.
Em seguida, veio a guerra jurídica, e aí a máquina travou. O órgão correspondente à Procuradoria Geral do país (Diretoria de Execução da Índia) vem disciplinando a oposição há uma década: já foram 193 processos contra políticos, duas condenações, seguindo o princípio da Lava Jato de que a condenação nunca é o objetivo. O processo é a punição, e funciona com pessoas que têm carreiras a perder. Não tem efeito sobre jovens de dezenove anos cuja queixa é justamente não terem nada a perder, nem emprego, nem vaga nas Universidades nem perspectivas. O que restou foi a força bruta: cassetetes e gás lacrimogêneo, filmados e postados na internet em questão de minutos.
A situação econômica não pode ser definida exatamente como “crise”. A Índia cresceu cerca de 7% em 2025, a inflação ficou em torno de 2% e os lucros das empresas atingiram níveis recordes. O que se rompeu foi o vínculo entre esse crescimento e as pessoas que deveriam se beneficiar dele. Menos de 7% dos homens graduados conseguem um emprego assalariado permanente no prazo de um ano após a formatura; 3,7% conseguem um emprego de colarinho branco. A oferta de diplomas cresceu muito mais rápido do que o emprego, porque é barato para o Estado conceder diplomas, ao passo que empregos não são. O resultado é um excedente populacional de pessoas diplomadas; ainda não proletárias, mas desclassificadas antecipadamente e conscientes disso aos dezenove anos.
Daí a explosão em torno de um exame. Onde o Estado não promete mais trabalho, ainda promete competição justa pelas poucas vagas restantes, e essa promessa transforma a exclusão em massa em fracasso pessoal. Houve setenta vazamentos de provas em sete anos, com 7 milhões de candidatos afetados. A promessa agora transformou-se em manter o mercado das ilusões, com vendedores, prestadores de serviços e empresas de preparação vendendo a prova em todas as etapas. Esse ataque à legitimidade dos exames destrói a última ficção legitimadora desse arranjo.
O acordo com os revoltosos para suspender a mobilização seguiu uma lógica similar: ceder em relação a uma pessoa (o ministro), para manter a estrutura. O primeiro-ministro nunca apareceu. Dois ministros negociaram com os estudantes. Prometeram indenização aos prejudicados e nenhuma punição aos mobilizados. O movimento se dispersou de boa-fé. A agência de exames, a economia das preparatórias e a questão do emprego permaneceram intocadas. Um dia depois, o local do protesto estava vazio.
A forma desse desfecho não é desconhecida. O movimento de junho de 2013 no Brasil também foi uma revolta sem liderança, irônica e hiperconectada, construída em torno de uma única demanda setorial, que a levou à vitória e à dissolução. As condições diferem, e na Índia as frentes estudantis de esquerda estiveram presentes desde o primeiro dia. Mas o mecanismo não é obscuro: uma vasta quantidade de energia antissistêmica foi liberada em um campo onde a direita organizada está mais bem equipada para aproveitá-la. O governo nacionalista hindu da Índia não conseguiu dar um caráter “confessional” (religioso) nem xenofóbico a esse movimento — ele não carrega nenhum marcador religioso e sua base é o próprio terreno de recrutamento do regime —, mas tentará novamente.
O que vai acontecer a partir de agora vai depender das conexões presenciais que os vestibulandos e graduados desempregados vão fazer fora das redes. O desafio é que eles encontrem os entregadores que levaram comida a seus acampamentos no meio da noite, consigam dialogar com eles e como todas e todos que os apoiaram. O desafio é que as aspirações bloqueadas se transformem em política de classe. O verdadeiro objetivo do movimento nunca foi renunciar às ruas, e elas podem ser reocupadas. A luta demonstrou que é possível fazer com que o todo-poderoso e antidemocrático governo Modi se mova. Se isso se tornará uma força não é uma questão de previsão, mas de organização.