‘Dark Horse’ acumula irregularidades e expõe conexões do clã Bolsonaro
Dark Horse

‘Dark Horse’ acumula irregularidades e expõe conexões do clã Bolsonaro

Ancine abriu processo contra produtora por filmagem irregular no Brasil; longa também envolve R$ 134 milhões negociados por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e investigação sobre possível desvio de recursos públicos

Tatiana Py Dutra 10 ago 2026, 08:32

Foto: Reprodução

O projeto de transformar a trajetória de Jair Bolsonaro em uma cinebiografia de alcance internacional está cada vez mais distante da imagem de superprodução patriótica que seus realizadores tentam vender. Dark Horse, filme dirigido pelo norte-americano Cyrus Nowrasteh e estrelado por Jim Caviezel no papel do ex-presidente, acumula questionamentos sobre sua produção, financiamento e relações políticas.

O problema mais recente veio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), que abriu processo administrativo contra a Go Up Entertainment, responsável pelo longa, por ter realizado filmagens no Brasil sem a comunicação prévia exigida para obras estrangeiras. A agência afirma que tentou duas vezes entrar em contato com a produtora, sem sucesso, antes de lavrar o auto de infração.

Pelas regras da Ancine, produções estrangeiras filmadas no Brasil precisam comunicar previamente a agência, apresentar documentação relacionada aos contratos com empresas brasileiras e informar os trabalhos que serão realizados no país. Segundo a própria Ancine, essa comunicação não ocorreu no caso de Dark Horse. O processo ainda está em andamento e a produtora terá direito à defesa e aos recursos. A agência ressalva que não antecipa conclusões sobre o mérito da apuração.

A situação, porém, não se resume a uma falha administrativa. Reportagem do Intercept Brasil apontou que a produção também teria sido realizada sem registro, contratos apresentados à Ancine ou comprovação de vistos de trabalho para parte do elenco estrangeiro. O veículo relatou ainda denúncias de trabalhadores brasileiros sobre atrasos de pagamentos, alimentação inadequada e condições degradantes no set. Ao menos 14 figurantes chegaram a articular ações judiciais contra a produção.

O banqueiro e os R$ 134 milhões

O aspecto mais explosivo de Dark Horse, entretanto, está no dinheiro. Em maio, uma investigação do Intercept Brasil revelou áudios e mensagens que mostram o senador Flávio Bolsonaro negociando com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, o financiamento do filme sobre seu pai.

Segundo os documentos obtidos pela reportagem, Vorcaro se comprometeu a repassar US$ 24 milhões – cerca de R$ 134 milhões à época – para bancar o longa. Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

Flávio inicialmente negou ter relação com Vorcaro, mas posteriormente admitiu que havia mantido contato com o banqueiro durante quase um ano e que havia negociado os recursos para o filme. O senador classificou o financiamento como um “patrocínio privado” e negou a existência de crime.

A conexão ganha uma dimensão ainda mais delicada porque Vorcaro foi preso em novembro de 2025, em uma investigação sobre fraudes envolvendo o Banco Master, posteriormente liquidado pelo Banco Central. É justamente nesse período de crescente pressão sobre o banqueiro que as mensagens mostram uma intensificação dos contatos com Flávio em torno do financiamento do filme.

Eduardo também estava dentro do negócio

A participação da família Bolsonaro não se limitava à negociação financeira. Documentos revelados pelo Intercept mostram que Eduardo Bolsonaro, então deputado federal, assinou contrato como produtor-executivo de Dark Horse e tinha responsabilidades relacionadas à gestão financeira do projeto.

O contrato previa que os produtores, entre eles Eduardo, a Go Up Entertainment e o deputado Mario Frias (PL-SP), participariam de decisões sobre captação e utilização dos recursos. O documento também previa atuação na busca por investidores, créditos, incentivos fiscais e patrocínios.

O plano de negócios apresentado a investidores era igualmente peculiar: aportes de até US$ 1,1 milhão poderiam garantir, além da participação financeira no filme, uma “oportunidade de imigração” para os Estados Unidos. A promessa era de devolução do capital acrescido de 20% de lucro, com posterior divisão dos ganhos entre investidores e produtores.

Em outra reportagem, mensagens atribuídas a Eduardo mostram que ele também orientou interlocutores sobre maneiras de facilitar o envio de milhões de dólares aos Estados Unidos para financiar a produção.

A produtora e a suspeita envolvendo dinheiro público

A própria Go Up Entertainment passou a ser alvo de outro foco de investigação. Sua proprietária, Karina Ferreira da Gama, também preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que firmou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para implantação de pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades da capital.

Em junho, a Polícia Civil de São Paulo deflagrou a Operação Wi-Fi Livre para investigar possíveis fraudes na contratação e na execução do programa. Segundo a investigação, há suspeitas de que R$ 26 milhões tenham sido pagos por serviços não prestados e de que recursos públicos possam ter sido desviados para financiar atividades relacionadas à produção de Dark Horse. A polícia também apontou suspeitas de confusão patrimonial.

É importante ressaltar: trata-se de investigação, não de uma conclusão judicial de que dinheiro público tenha financiado o filme. Mas a suspeita é suficientemente grave para ter levado a uma operação policial.

E as controvérsias não param aí. O Intercept revelou posteriormente que a mesma ONG é investigada por suspeitas relacionadas a recursos do Sesi e por outros problemas envolvendo contratos e utilização de dados de usuários do programa de Wi-Fi.

Um filme cercado pelo histórico político da família

As conexões de Dark Horse tornam-se ainda mais significativas quando colocadas ao lado do histórico de controvérsias envolvendo os filhos de Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro, que hoje tenta se apresentar como herdeiro político do pai e candidato presidencial, já esteve no centro do caso das chamadas “rachadinhas” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. A investigação acabou arquivada pela Justiça fluminense depois que decisões sobre quebras de sigilo foram anuladas, de modo que não há condenação pelo caso.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, tornou-se réu em ação penal no Supremo Tribunal Federal por acusação de coação no curso do processo relacionada à articulação do tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Segundo a Procuradoria-Geral da República, ele teria pressionado autoridades norte-americanas para impor sanções ao Brasil como forma de interferir no processo judicial contra seu pai. A defesa pediu sua absolvição.

Já Jair Renan Bolsonaro foi tornado réu pela Justiça do Distrito Federal por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e uso de documento falso, após investigação da Polícia Civil apontar suspeitas de fraude em documentos usados para obtenção de empréstimos.

No caso de Carlos Bolsonaro, a Polícia Federal apontou sua participação, ao lado do pai, no esquema conhecido como “Abin paralela”, que teria utilizado a estrutura da Agência Brasileira de Inteligência para monitorar adversários, autoridades e jornalistas. A investigação apontou que Carlos estava entre os integrantes centrais da estrutura clandestina.

Não significa que todas essas histórias tenham a mesma natureza ou o mesmo desfecho jurídico. Significa, porém, que Dark Horse surge em uma família política cuja trajetória recente é marcada por investigações, processos e controvérsias envolvendo dinheiro, poder público, influência política e atuação internacional.

A biografia como operação política

É nesse contexto que Dark Horse deixa de ser apenas uma cinebiografia. O projeto reúne o filho que negocia milhões com um banqueiro posteriormente preso, outro filho com poder contratual sobre o dinheiro da produção, uma produtora investigada por possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos e uma filmagem realizada no país, segundo a Ancine, sem cumprir as exigências regulatórias.

A própria escolha do elenco e da equipe reforça o caráter internacional do projeto. O filme é falado em inglês, dirigido por um cineasta norte-americano e tem roteiro assinado por Nowrasteh, Mark Nowrasteh e Mario Frias. A narrativa pretende transportar para o cinema a trajetória de Jair Bolsonaro – justamente quando sua família tenta reorganizar politicamente seu legado e preparar a sucessão eleitoral.

O problema é que, antes mesmo de chegar às telas, a produção já se tornou um retrato involuntário do universo que pretende celebrar: dinheiro circulando por canais pouco transparentes, relações entre política e negócios privados, suspeitas sobre recursos públicos e familiares do protagonista ocupando posições estratégicas no empreendimento.

A Ancine, por enquanto, não condenou a produtora. A Polícia Civil também ainda investiga as suspeitas envolvendo o Instituto Conhecer Brasil. E ninguém deve ser considerado culpado antes do fim dos respectivos processos.

Mas uma coisa já está documentada: Dark Horse não é apenas um filme sobre Jair Bolsonaro. É também uma produção cuja própria realização colocou sob os holofotes algumas das relações políticas, financeiras e empresariais que cercam o clã Bolsonaro.


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