León Trotsky e André Breton à sombra do Popocatépetl
O encontro dos dois personagens e a criação do Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente
Via Viento Sur
No verão de 1938, Breton e Trotsky se encontraram no México, aos pés dos vulcões Popocatépetl e Ixtaccíhuatl. Um encontro surpreendente entre duas personalidades que, aparentemente, estavam em polos opostos: um, herdeiro revolucionário do Iluminismo; o outro, na cauda do cometa romântico; um, fundador do Exército Vermelho; o outro, impulsionador da Aventura Surrealista. A relação entre eles era bastante desigual: Breton nutria uma enorme admiração pelo revolucionário de outubro, enquanto Trotsky, embora respeitasse a coragem e a lucidez do poeta – um dos poucos intelectuais franceses que denunciou a infâmia dos julgamentos de Moscou –, tinha algumas dificuldades para compreender o surrealismo… Ele havia pedido ao seu secretário, Van Heijenoort, que lhe conseguisse os principais documentos do movimento e os livros de Breton, mas aquele universo intelectual lhe era estranho. Seus gostos literários se inclinavam mais para os grandes clássicos realistas do século XIX do que para as experiências poéticas incomuns dos surrealistas.
No início, o encontro foi muito cordial: segundo Jaqueline Lamba – a companheira de Breton, que o havia acompanhado ao México, entrevistada por Arturo Schwarz – “estávamos todos muito emocionados, inclusive Lev Davidovitch. Nos sentimos acolhidos de braços abertos. Lev Davidovitch estava realmente contente em ver André. Ele demonstrava muito interesse”. No entanto, a primeira conversa esteve prestes a dar errado… Segundo o depoimento de Van Heijenoort: “O velho rapidamente iniciou uma discussão sobre o termo surrealismo, para defender o realismo contra o surrealismo. Por realismo, ele entendia o sentido preciso que Zola atribuía àquela palavra. Começou a falar de Zola. Breton ficou um pouco surpreso no início. No entanto, ele ouviu com atenção e soube encontrar as palavras certas para destacar certas características poéticas na obra de Zola” (entrevista de Van Heijenoort com Arturo Schwarz).
Apesar disso, houve química: o russo e o francês encontraram uma linguagem comum: o internacionalismo, a revolução, a liberdade. Jacqueline Lamba fala, com razão, de uma afinidade eletiva entre os dois. Suas conversas aconteciam em francês, idioma que Lev Davidovitch falava com fluência. Eles percorreram o México juntos, visitaram os lugares mágicos das civilizações pré-hispânicas e praticaram a pesca com as mãos, mergulhados nos rios. Em uma foto famosa, eles aparecem conversando amigavelmente, sentados lado a lado, descalços, em um bosquinho, após um desses dias de pesca.
Desse encontro, do atrito entre essas duas pedras vulcânicas, surgiu uma faísca que ainda brilha: o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente. Segundo Van Heijenoort, Breton apresentou uma primeira versão e Trotsky corrigiu esse texto com suas próprias contribuições (em russo). Trata-se de um texto comunista libertário, antifascista e avesso ao stalinismo, que proclama a vocação revolucionária da arte e sua necessária independência em relação aos Estados e aos aparatos políticos.
A ideia do documento partiu de Leon Trotsky, e André Breton a aceitou imediatamente. Foi um dos poucos, se não o único, documento escrito a quatro mãos pelo fundador do Exército Vermelho. Fruto de longas conversas, debates, trocas de ideias e, sem dúvida, algumas divergências, foi assinado por André Breton e Diego Rivera, o grande pintor muralista mexicano, na época fervoroso partidário de Trotsky (embora pouco depois eles tenham se desentendido). Essa pequena mentira inofensiva [a assinatura de Rivera em vez da de Trotsky] deveu-se à convicção do velho bolchevique de que um Manifesto sobre a arte só deveria ser assinado por artistas. O texto tinha um tom marcadamente libertário, sobretudo na fórmula, proposta por Trotsky, que proclamava que, em uma sociedade revolucionária, o regime dos artistas deveria ser anarquista, ou seja, baseado em uma liberdade ilimitada. Em outra passagem famosa do documento, proclama-se “total liberdade na arte”. Breton havia proposto acrescentar “exceto contra a revolução proletária”, mas Trotsky eliminou essa frase! Sabe-se que André Breton simpatizava com o anarquismo, mas, curiosamente, neste Manifesto foi Trotsky quem redigiu as passagens mais libertárias.
O Manifesto afirma o destino revolucionário da arte autêntica, ou seja, aquela que “ergue contra a realidade, insuportável, as forças do mundo interior”. É Breton ou Trotsky quem formula essa ideia, sem dúvida extraída do repertório freudiano? Não importa, pois os dois revolucionários, o poeta e o combatente, conseguiram chegar a um acordo no mesmo texto.
Desde então, o documento continua a ter uma atualidade surpreendente, mas não deixa de apresentar certas limitações, talvez devido ao contexto histórico em que foi redigido. Por exemplo, os autores denunciam, com grande perspicácia, os obstáculos impostos à liberdade dos artistas pelos Estados, sobretudo (embora não apenas) pelos totalitários. Mas, curiosamente, falta uma análise e uma crítica aos obstáculos que surgem do mercado capitalista e do fetichismo da mercadoria… O documento cita um trecho do jovem Marx, no qual ele proclama que o escritor “deve, naturalmente, ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas em nenhum caso deve viver para ganhar dinheiro”; no entanto, em seu comentário sobre essa passagem, em vez de analisar o papel do dinheiro na corrupção da arte, os dois autores limitam-se a denunciar as restrições e as disciplinas que se tenta impor aos artistas em nome das “supostas razões de Estado”. Isso se torna ainda mais surpreendente se levarmos em conta que não se pode pôr em dúvida o anticapitalismo visceral de ambos: afinal, não foi Breton quem chamou Salvador Dalí de “Avida Dollars”, por ter se tornado um mercenário? Encontramos essa mesma lacuna na revista da Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente (Clé), que convoca à luta contra o fascismo, o stalinismo e… a religião: o capitalismo brilha pela ausência.
O Manifesto conclui com um apelo à criação de um movimento amplo, a Federação por uma Arte Revolucionária Independente (FIARI), que inclua todos aqueles que se identifiquem com o espírito geral do documento. Em um movimento como esse, escrevem Breton e Trotsky, “os marxistas podem marchar lado a lado com os anarquistas, desde que uns e outros rompam implacavelmente com o espírito policial reacionário, seja ele representado por Joseph Stalin ou por seu vassalo García Oliver”. Esse apelo à unidade entre marxistas e anarquistas é um dos aspectos mais interessantes do documento e um dos mais atuais.
Entre parênteses, é preciso dizer que a denúncia de Stalin – “o inimigo mais pérfido e perigoso do comunismo” – era indispensável, mas seria necessário chamar de “vassalo” García Oliver, o companheiro de Durruti, o líder histórico da CNT-FAI, o herói da vitoriosa resistência antifascista de Barcelona em 1936? É verdade que ele foi ministro (renunciou em 1937) do primeiro governo da Frente Popular (Largo Caballero) e que seu papel em maio de 1937, durante os combates em Barcelona entre stalinistas e anarquistas (apoiados pelo POUM), ao impor uma trégua entre os dois bandos, é muito questionável, mas isso não o torna um lacaio do Bonaparte soviético…
A FIARI foi fundada logo após a publicação do Manifesto; conseguiu reunir não apenas os partidários de Trotsky e os amigos de Breton, mas também anarquistas e escritores ou artistas independentes. A Federação tinha uma publicação, a revista *Clé*, cujo redator era Maurice Nadeau, na época um jovem militante trotskista muito interessado no surrealismo (em 1946, ele se tornaria o autor da primeira História do surrealismo). O diretor era Léo Malet e o Comitê Nacional era composto por: Yves Allégret, André Breton, Michel Collinet, Jean Giono, Maurice Heine, Pierre Mabille, Marcel Martinet, André Masson, Henry Poulaille, Gérard Rosenthal e Maurice Wullens. Entre os participantes estavam: Yves Allégret, Gaston Bachelard, André Breton, Jean Giono, Maurice Heine, Georges Henein, Michel Leiris, Pierre Mabille, Roger Martin du Gard, André Masson, Albert Paraz, Henri Pastoureau, Benjamin Péret, Herbert Read, Diego Rivera, León Trotsky, … Esses nomes dão uma ideia da capacidade da FIARI de reunir personalidades políticas, culturais e artísticas bastante diversas.
A revista Cle publicou apenas duas edições: a n.º 1 saiu em janeiro de 1939 e a n.º 2 em fevereiro de 1939. O editorial da n.º 1 intitulava-se “Não há pátria!”, e denunciava a expulsão e o internamento de imigrantes estrangeiros pelo governo de Daladier: um tema muito atual!
A FIARI foi uma bela experiência marxista libertária, embora de curta duração: em setembro de 1939, o início da Segunda Guerra Mundial pôs fim à Federação.
Posfácio
Em 1965, nosso amigo Michel Lequenne, na época um dos líderes do PCI (Partido Comunista Internacionalista), a seção francesa da Quarta Internacional, propôs ao Grupo Surrealista a refundação da FIARI. Parece que a ideia não desagradou a André Breton, mas acabou sendo rejeitada por meio de uma declaração coletiva, datada de 19 de abril de 1966, assinada por Philippe Audoin, Vincent Bounoure, André Breton, Gérard Legrand, José Pierre e Jean Schuster, em nome do Movimento Surrealista.
O livro de Arturo Schwarz, André Breton, Trotsky e a anarquia (Paris, 10/18, 1974), não só inclui o texto do Manifesto da FIARI, mas também todos os escritos de Breton sobre Trotsky, além de uma extensa introdução histórica de 100 páginas do autor, que teve a oportunidade de entrevistar o próprio Breton, Jacqueline Lamba, Van Heijenoort e Pierre Naville. Um dos documentos mais comoventes desta compilação é o discurso proferido por Breton no funeral de Natalia Sedova Trotsky, realizado em Paris em 1962. Depois de prestar homenagem a essa mulher cujos olhos testemunharam “as lutas mais dramáticas entre a sombra e a luz”, ele concluiu com essa esperança obstinada: chegará o dia em que não apenas será feita justiça a Trotsky, mas também “às ideias pelas quais ele deu a vida”.