Lula enfrenta pressão no JN e parte para o contra-ataque
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Lula enfrenta pressão no JN e parte para o contra-ataque

Presidente reage a perguntas sobre Lulinha, INSS e Lava Jato, critica cobertura da imprensa e tenta deslocar a sabatina para os resultados do governo

Tatiana Py Dutra 28 ago 2026, 16:11

Foto: Reprodução

A entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional, na noite de quinta-feira (27), teve como marca principal o confronto. Pressionado por perguntas sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o escândalo dos descontos indevidos no INSS e suspeitas envolvendo aliados, o presidente abandonou o tom conciliador e adotou uma postura de enfrentamento.

A avaliação de diferentes analistas foi de que Lula começou a entrevista na defensiva, mas conseguiu recuperar parte do controle da conversa quando passou a falar de economia e das ações de seu governo. Leonardo Sakamoto, do UOL, resumiu a mudança de postura ao afirmar que Lula deixou o “paz e amor” de lado e apareceu em “modo combate”. Já José Roberto de Toledo avaliou que o presidente conseguiu “sobreviver” à bateria inicial de questionamentos e virar o jogo na segunda metade da entrevista.

O formato da sabatina, entretanto, também chamou atenção. Durante boa parte do tempo, os entrevistadores concentraram-se em denúncias, investigações e relações pessoais de Lula e de integrantes de seu entorno. O próprio presidente ironizou a sequência de perguntas: “Já estava achando que estava no Ministério Público”.

A escolha da pauta não é irrelevante em uma eleição presidencial. Ao dedicar grande parte da entrevista aos episódios envolvendo corrupção, o JN reduziu o espaço para que o candidato apresentasse propostas e discutisse políticas públicas para um eventual novo mandato. Essa foi justamente uma das críticas apontadas por Letícia Casado, do UOL, para quem o foco prolongado na corrupção acabou sendo ruim para o PT.

Lula não aceita ficar no banco dos réus

Diante da pressão, Lula decidiu não se limitar a responder às acusações. Em vários momentos, devolveu os questionamentos aos entrevistadores e defendeu que qualquer pessoa que tenha cometido irregularidades seja responsabilizada – inclusive integrantes de seu próprio círculo.

Sobre as investigações envolvendo Lulinha, o presidente afirmou que não pretende proteger o filho. “Vai ter que provar a inocência”, disse, ao sustentar que, se houver comprovação de crime, ele deverá responder perante a Justiça como qualquer cidadão.

A estratégia é politicamente importante. Em vez de tentar blindar familiares e aliados, Lula procurou estabelecer uma separação entre responsabilidade política e responsabilidade individual: investigações devem seguir seu curso, mas acusações não podem ser transformadas automaticamente em condenações.

O presidente também questionou o que chamou de acusações sem fundamento e criticou a maneira como a imprensa tratou episódios anteriores envolvendo seu nome.

A Lava Jato voltou ao centro do debate

Foi nesse contexto que Lula retomou uma das principais feridas de sua trajetória política: a Operação Lava Jato.

O presidente voltou a atacar o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol, classificando-os como “mentirosos”, e criticou a atuação da imprensa na construção da narrativa que levou à sua prisão e impediu sua participação na eleição de 2018.

A fala provocou reação dos entrevistadores, especialmente quando Lula questionou o papel da imprensa na cobertura da operação. O episódio é particularmente relevante porque a Lava Jato não foi apenas um processo judicial: tornou-se um dos principais instrumentos de disputa política da década passada e teve consequências decisivas para a democracia brasileira.

A anulação das condenações de Lula pelo Supremo Tribunal Federal e o reconhecimento da incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgá-lo são elementos fundamentais para compreender por que o presidente considera a operação parte de uma injustiça política sofrida por ele.

A lembrança da Lava Jato, portanto, não é apenas uma tentativa de revisitar o passado. Em 2026, ela volta a ocupar espaço justamente porque a eleição coloca novamente Lula diante de seus adversários políticos e de uma parcela da imprensa que insiste em recuperar acusações associadas àquele período.

O episódio de Roberta Luchsinger

Um dos momentos mais delicados para Lula ocorreu quando ele falou sobre Roberta Luchsinger, citada nas investigações relacionadas a Lulinha.

O presidente afirmou que não a conhecia e chegou a classificá-la como “pilantra”. A declaração surpreendeu integrantes de sua própria campanha, segundo a coluna Painel, da Folha, que informou que a equipe havia preparado Lula para demonstrar decepção com eventuais irregularidades sem utilizar uma linguagem tão agressiva.

O problema é que existem fotografias de Lula ao lado de Luchsinger. A partir daí, a declaração transformou-se em um dos principais pontos negativos da entrevista e passou a ser explorada pelos adversários.

Aliados do presidente, porém, sustentaram que Lula não mentiu: segundo eles, ele teria posado para fotografias em eventos, mas nunca teria sido formalmente apresentado à empresária nem saberia quem ela era.

Ainda assim, politicamente, o episódio criou um ruído desnecessário e desviou novamente o foco da entrevista para questões pessoais. Quando conseguiu falar de governo, Lula recuperou terreno

A segunda metade da sabatina ofereceu ao presidente uma oportunidade diferente: falar sobre economia, emprego, programas sociais, segurança e resultados do governo.

Foi nesse momento, segundo a análise de Toledo, que Lula conseguiu recuperar parte do controle da entrevista. A postura passou a ser menos defensiva e mais propositiva.

Na economia, Lula defendeu uma política baseada em crescimento e rejeitou a ideia de que o enfrentamento da dívida pública deva ser feito exclusivamente por meio de cortes de gastos sociais.

Questionado sobre a situação fiscal, afirmou que “a dívida pública não é motivo de preocupação” e sustentou que o crescimento econômico pode reduzir a relação entre dívida e PIB. A declaração repercutiu também internacionalmente, sendo destacada pela Reuters.

O debate econômico, porém, mostra uma das principais disputas desta eleição: de um lado, a defesa de crescimento, investimento e políticas sociais; de outro, propostas de maior austeridade fiscal e mecanismos de contenção de despesas, como o teto para a dívida defendido pela campanha de Flávio Bolsonaro.

Uma entrevista que revela a disputa eleitoral

Mais do que uma simples sabatina, a entrevista expôs o terreno em que Lula deverá disputar a eleição: a tentativa de seus adversários de transformar denúncias envolvendo familiares e aliados no eixo central da campanha, enquanto o presidente procura recolocar no debate os resultados de seu governo e sua agenda para o país.

A imprensa teve papel importante nessa disputa ao escolher quais temas seriam priorizados. A checagem posterior do Aos Fatos mostra que várias declarações de Lula foram submetidas a verificação factual, permitindo separar afirmações comprováveis de interpretações políticas.

O desempenho do presidente, portanto, não pode ser reduzido nem a uma vitória retumbante nem a um fracasso. Lula foi pressionado, cometeu deslizes e terminou a entrevista tendo de administrar o desgaste provocado pela declaração sobre Luchsinger. Ao mesmo tempo, não se deixou encurralar e aproveitou os momentos em que conseguiu falar sobre seu governo para recuperar a iniciativa.

A diferença em relação à entrevista de Renan Santos, realizada no dia anterior, é significativa. Enquanto o candidato do Missão transformou o espaço televisivo em uma vitrine para declarações extremadas – incluindo a defesa de uma bomba atômica e a frase “a polícia tem que atirar para matar” -, Lula enfrentou uma entrevista em que o principal desafio foi responder a um conjunto de acusações e, depois, tentar recolocar no centro do debate aquilo que pretende fazer caso seja reeleito.

No fim, o JN expôs duas estratégias eleitorais bastante distintas. Renan apostou no choque para conquistar atenção. Lula precisou resistir ao desgaste e, na segunda metade, tentar falar de governo.

Para o presidente, a principal tarefa daqui para frente será justamente não permitir que a eleição seja reduzida às acusações contra familiares e aliados. Se quiser disputar a reeleição pelo legado de seu governo, Lula precisará ocupar cada vez mais o debate com aquilo que pretende entregar ao país – e não apenas com a defesa diante das acusações de seus adversários.


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