O fracasso das negociações comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos
Os desafios da guerra comercial imposta por Trump ao Canadá e ao Quebec
Foto: Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá. (PtaG/Reprodução)
O fracasso das negociações comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos revela a realidade da intenção do governo Trump de subjugar o Canadá e deixa explícitas as modalidades para tal. Ele cristaliza diversos problemas estruturais. Esse fracasso também traz à tona uma divisão interna no Canadá, entre um governo federal há muito inclinado a fazer concessões e os governadores provinciais — de Ontário à Colúmbia Britânica, passando pelo Quebec —, que pressionam por uma postura mais dura, revelando as tensões entre a lógica da conciliação econômica e as pressões da opinião pública, que, segundo as pesquisas, é majoritariamente favorável à firmeza. Resta que a vontade da classe dominante e dos diversos governos é retornar à situação anterior de maior abertura dos mercados. Essa perspectiva não pode se concretizar no interesse da classe trabalhadora e da maioria popular. É necessário propor uma orientação totalmente diferente.
I. O novo rumo do imperialismo norte-americano: predação e vontade de vassalização
1. No âmbito internacional
Os Estados Unidos não se tornam imperialistas com Trump, mas Trump impõe um novo rumo ao imperialismo norte-americano que visa:
- garantir o livre acesso aos recursos naturais do planeta, impondo seu controle direto sobre os recursos minerais, energéticos e as vias de comunicação;
- impor uma política migratória restritiva, especialmente aos seus vizinhos, o Canadá e o México, desconsiderando todas as normas do direito internacional em matéria de refugiados e migrações;
- não levar em conta a soberania nacional dos países e alcançar a vassalização dos mesmos para defender seus interesses econômicos. Essa política predatória não visa apenas os países do Sul Global, mas também países aliados, como o Canadá;
- fazer prevalecer as legislações americanas sobre as legislações dos diversos países;
- impor aos aliados da OTAN que aumentem seus gastos militares até 5%;
- desregulamentar (no caso da UE) ou bloquear qualquer regulamentação futura sobre as GAFAM (no caso do Canadá);
- defender a hegemonia americana contra os países emergentes, e particularmente a China, por meio da imposição de tarifas elevadas sobre suas exportações, mas recorrendo se necessário a ameaças de guerra…
2. Contra o Estado canadense
O Estado canadense — e, por extensão, o Quebec — também é alvo do governo Trump. Além de sua retórica sobre a definição do Canadá como o 51º estado dos Estados Unidos, sua política predatória e de vassalagem se concretizará:
- pelo aumento das tarifas alfandegárias de 25% para 50%, de acordo com modalidades e setores que, de forma totalmente ilegal, colocam radicalmente em causa o Acordo de Livre Comércio entre o Canadá, os Estados Unidos e o México (ACEUM);
- por meio de pressões para que o Canadá endureça sua política migratória, reforce a vigilância nas fronteiras para impedir a passagem de imigrantes do Canadá para os Estados Unidos e para conter a onda migratória que sua política de deportação corre o risco de gerar;
- por meio da solicitação de aumento dos gastos militares e do apoio a diversas operações militares que possam ser conduzidas pelo governo Trump, solicitação à qual o primeiro-ministro Carney respondeu positivamente;
- ao garantir o monopólio dos recursos petrolíferos, de gás, de eletricidade e dos recursos minerais estratégicos de que o Canadá é rico, sem esquecer os recursos de água potável dos quais os Estados Unidos têm uma necessidade urgente — o que se revelou ser um dos objetivos da guerra comercial lançada por Trump;
- ao questionar a soberania do governo federal sobre o Ártico canadense.
A vassalização, ou seja, a aceitação do domínio do Estado americano sobre o Canadá, é o objetivo final e é expressa na retórica trumpista pela proposta de que o Canadá se torne o 51º estado dos Estados Unidos.
II. As respostas do governo canadense: da busca frenética por um compromisso à criação de uma frente de resistência
Inicialmente, as ameaças de Trump de impor tarifas geraram verdadeiro pânico nos setores empresariais. Os políticos federais e provinciais adotaram posições divergentes. No entanto, o questionamento da soberania canadense levou a maioria da classe política a construir uma frente comum para elaborar medidas de retaliação às tarifas que eventualmente seriam impostas por Trump. Embora a recusa em aceitar as tarifas impostas pelo governo de Trump à economia canadense tenha levado à adoção de certas medidas de retaliação e à multiplicação de iniciativas destinadas a diversificar seus mercados no plano internacional, o governo de Carney também tentou apaziguar Washington por meio de uma série de concessões:
a) Diante das ameaças do presidente americano Donald Trump de encerrar as negociações comerciais com o Canadá caso este mantivesse a Taxa sobre os Servicos (TSD) de 3% sobre certas receitas arrecadadas no Canadá pelas gigantes da internet, incluindo Google, Meta, Microsoft, Amazon e Netflix, o Canadá recuou imediatamente e anunciou a revogação da TSD.
b) Sob pressão de Trump, que exigia o desenvolvimento da exploração de energias fósseis e para reconstruir a frente unida das províncias, abalada pelo governo da província de Alberta, o primeiro-ministro Carney passou a defender o setor petrolífero canadense e adotou as propostas da Alberta e do Partido Conservador do Canadá de apoiar a construção de um oleoduto para permitir a exportação de petróleo para o mercado asiático. Embora inicialmente tenha chamado ao setor privado para financiar tal projeto, logo decidiu garantir o financiamento público desse oleoduto. No âmbito de sua política de grandes projetos, ele prometeu apoiar a construção de usinas de GNL [Gaz Natural Liquefeito] e de gasodutos que atravessam o Canadá (e o Quebec). Após a revogação do imposto sobre o carbono, a defesa da exploração de hidrocarbonetos demonstra o abandono de qualquer intenção de combater a crise climática.
c) O primeiro-ministro também atendeu às demandas do governo Trump ao investir maciçamente em gastos militares. Ele promete elevar os gastos militares para 5% do PIB. As elites militares, que veem seus orçamentos de defesa aumentarem, e os empresários do complexo militar-industrial, que se preparam para fechar contratos lucrativos, comemoram essa política de Ottawa. A opinião pública, por sua vez, não havia solicitado nada disso (ver A necessidade de construir um amplo movimento antimilitarista contra a Estratégia Industrial de Defesa do governo Carney, em francês).
d) O governo do Canadá atendeu rapidamente às exigências de Trump no que diz respeito ao fechamento das fronteiras. Já havia implementado uma série de medidas mais rígidas em sua política em relação aos migrantes, sejam eles refugiados, trabalhadores e trabalhadoras imigrantes temporários ou sem documentos.
Diante desses sinais de acomodação, o governo Trump acreditou poder ir ainda mais longe. Em julho de 2026, novas tarifas de 50% (com vigência prevista para 22 de agosto de 2026, nos termos do artigo 338 da Lei Tarifária de 1930) visam três categorias de produtos canadenses, em resposta a uma suposta discriminação do Canadá contra os Estados Unidos nos setores de laticínios, bebidas alcoólicas e veículos automotores. As negociações das últimas semanas suscitaram esperanças de que essas tarifas fossem reduzidas. Mas, na verdade, o governo de Washington, por iniciativa do próprio Trump, acabou por querer impor toda uma série de medidas que teriam significado uma verdadeira vassalizaçao do Estado canadense.
Em seu discurso, no qual anunciou a retirada dos negociadores canadenses, o primeiro-ministro canadense explicou da seguinte forma as exigências americanas: Washington exige o direito de supervisionar os acordos que o Canadá assina com países terceiros, o desmantelamento total do sistema de gestão da oferta de laticínios previsto na legislação canadense, a alteração da regulamentação linguística em Quebec, a abertura dos mercados públicos canadenses às empresas americanas e até mesmo o controle americano sobre a exploração de minerais críticos e as metas de gastos em matéria de defesa (compra dos caças F-35).
Era, portanto, a soberania do Estado canadense que estava sendo negada. A maioria da população canadense recusava essa submissão ao Estado americano. Os governos provinciais também foram unânimes em rejeitar esses retrocessos, embora Alberta permanecesse bastante tímida a esse respeito. Eles teriam sido incapazes de convencer sua população e as empresas afetadas pelas tarifas a aceitá-los. A única opção do governo Carney era encerrar essas negociações e considerar medidas de retaliação que levariam o país a uma verdadeira guerra comercial.
As entidades patronais compreenderam rapidamente as dificuldades em que essa situação colocava suas empresas e solicitaram aos governos provinciais, bem como ao governo federal, que implementassem uma série de medidas para auxiliá-las (empréstimos, isenções fiscais, subsídios, compras locais, apoio à exportação para outros mercados, etc.). Trata-se de medidas que, sem dúvida, permitirão que as empresas continuem em atividade, mas que de forma alguma questionam a dependência da economia canadense em relação à economia norte-americana. A esperança é que a era Trump termine com a saída dessa figura e que a economia canadense possa retornar aos tempos abençoados da dependência feliz. Trata-se de uma profunda ilusão quanto ao rumo atual do imperialismo norte-americano.
III. Um programa de desconexão para se libertar dos ditames do imperialismo predatório e das tentativas de vassalização de Trump
Opor-se ao novo rumo do imperialismo norte-americano impulsionado por Donald Trump apenas por meio da resposta às tarifas que ele busca impor é recusar-se a enxergar o conjunto dos objetivos por ele perseguidos. Ficamos, então, reduzidos a uma discussão sobre manobras diplomáticas ou a medidas de retaliação no plano comercial. É todo o projeto trumpista de vassalização que deve ser combatido. Isso só pode ser alcançado a partir das lutas sociais, políticas e culturais das classes trabalhadoras e populares, que se comprometam a trilhar o caminho da socialização de sua economia e da redefinição das instituições políticas atuais, capazes de lançar as bases para a rejeição dessa vassalização.
Essas políticas devem articular-se em torno de quatro eixos: 1) uma altermundialização parcimoniosa, baseada no planejamento ecológico na luta contra as mudanças climáticas, passando por uma ruptura com o capitalismo fóssil; 2) a prioridade concedida à satisfação das necessidades sociais por meio da defesa dos serviços públicos, sob uma perspectiva de igualdade social; 3) uma luta antipatriarcal em defesa da igualdade entre homens, mulheres e pessoas de diversidade sexual e de gênero, e uma luta antirracista pela instauração de uma verdadeira igualdade social; 4) a independência do Quebec em aliança com as classes trabalhadoras e populares do Rest of Canada (ROC), os povos indígenas e transformando o Quebec em uma terra de acolhimento diante das migrações que tendem a se intensificar.
1. Uma altermundialização parcimoniosa, baseada no planejamento ecológico na luta contra as mudanças climáticas, passando por uma ruptura com o capitalismo fóssil.
Trump fez do “Drill baby drill” um slogan de sua campanha eleitoral. Empresas internacionais no Canadá (e até mesmo no Quebec) estariam dispostas a adotar esse lema. A globalização capitalista é uma fonte de exploração predatória de recursos, como a energia, sem falar na poluição de todos os tipos. O transporte internacional de mercadorias, ligado à divisão internacional do trabalho, contribui significativamente para as emissões de CO₂. É preciso, portanto, promover a relocalização e a redução dos gastos decorrentes das formas atuais das cadeias de abastecimento. É preciso também abandonar a lógica do crescimento, que leva a produzir cada vez mais, a consumir mais e, assim, a esgotar os recursos minerais, florestais e energéticos do planeta. É preciso abandonar as energias fósseis e o capital fóssil, pois esse crescimento beneficia apenas as empresas multinacionais.
Daí decorrem:
a) a relocalização das produções estratégicas (alimentos, medicamentos, meios de transporte…);
b) a luta pelo abandono das energias fósseis e a recusa à construção de oleodutos ou gasodutos;
c) a recusa ao aumento da produção de energia hidrelétrica para fins de exportação e uma política de sobriedade energética que passe pela renovação térmica das moradias, que são verdadeiros ralos de energia;
d) a recusa à privatização da Hydro-Québec – e a nacionalização/socialização das energias renováveis para permitir seu desenvolvimento planejado, orientado para a satisfação das necessidades da população;
e) a rejeição do setor de baterias e do carro elétrico como solução para a crise climática, bem como a produção local de meios de transporte público (ônibus, trens) para as pessoas e o uso das ferrovias para o transporte de mercadorias, garantindo a gratuidade desses meios de transporte;
f) o desenvolvimento de uma agricultura ecológica centrada na soberania alimentar e na proteção da biodiversidade, reorientando a produção para os mercados locais e regionais e não para a exportação e, para isso, o fim da produção de carne voltada para a exportação.
2. A prioridade concedida à satisfação das necessidades sociais por meio da defesa dos serviços públicos, em uma perspectiva de igualdade social.
Os responsáveis políticos nomeados por Trump são, frequentemente, bilionários. Os costumes políticos dos Estados Unidos estão corrompidos pelo poder do dinheiro. É preciso impedir que os modos de funcionamento da política americana tenham seus efeitos sobre a política canadense ou quebequense. Essa luta implica a luta contra o aumento das desigualdades.
A atual distribuição de riqueza em favor de uma minoria dos mais ricos priva a maioria popular da possibilidade de fazer escolhas que realmente atendam às necessidades sociais da grande maioria. As escolhas dos governos visam essencialmente proteger essa acumulação de riqueza pela classe dominante. Os generosos subsídios às empresas privadas contribuem para essa concentração de riqueza. Diante das dificuldades atuais impostas pela guerra comercial, o acúmulo de riqueza pelos mais ricos corre o risco de se agravar. É por isso que é necessário:
a) Abolir os privilégios fiscais dos mais ricos e reformar o sistema tributário para torná-lo mais justo e mais redistributivo;
b) Aumentar o salário-mínimo e indexá-lo ao custo de vida, além de garantir o direito à moradia por meio da construção de habitações sociais, criando uma empresa pública de construção para esse fim;
c) Reinvestir maciçamente nos serviços públicos de saúde e educação, desprivatizar as clínicas médicas e impedir a abertura de hospitais privados;
d) Nacionalizar a indústria farmacêutica e promover a produção local e a distribuição gratuita de medicamentos;
e) Assegurar um verdadeiro serviço público de educação e acabar com os subsídios às escolas particulares.
3. Uma luta antipatriarcal em defesa da igualdade entre homens e mulheres, pelos direitos das pessoas trans e uma luta antirracista pela instauração de uma verdadeira igualdade social.
A política de Trump é sexista e racista. Ela volta a negar o direito ao aborto. Estigmatiza os afro-americanos e conduz uma política contra os migrantes. Os impactos sobre o Canadá e o Quebec não podem ser negligenciados. Sobretudo em um momento em que o nacionalismo quebequense assume uma forma cada vez mais identitária e excludente, e em que os partidos nacionalistas, como a CAQ e o PQ, não hesitam em utilizar essa demagogia contra uma parte da população do Quebec, apresentando os migrantes como a fonte de todos os males da sociedade quebequense. É por isso que, entre outras coisas, a luta contra o sexismo e o racismo e o apoio à auto-organização dos oprimidos são imprescindíveis. É por isso que as lutas devem:
a) garantir o direito ao aborto livre e gratuito;
b) fornecer os meios necessários para a luta efetiva contra a violência sexista e sexual;
c) apoiar a luta das pessoas LGBTQi e combater a transfobia;
d) erradicar as discriminações raciais e a ideologia racista, combate essencial ao objetivo de igualdade social que buscamos em todos esses domínios.
4. A independência do Quebec passará pela construção de um bloco popular que reúna a maioria popular de uma sociedade plurinacional e pluricultural como é o Quebec.
Esse bloco popular passará por:
a) a rejeição de uma visão étnica homogênea da nação e do projeto nacionalista de homogeneização cultural;
b) uma política de rejeição à discriminação e à negação da existência de setores da sociedade privados de direitos, bem como pela união de todos os componentes da maioria popular nessa luta;
c) pela liberdade de circulação e de estabelecimento de todas as pessoas migrantes;
d) pela erradicação do racismo sistêmico que afeta tanto as nações indígenas quanto os demais setores racializados da população;
e) pela construção de uma aliança da maioria popular do Quebec com as classes trabalhadoras e populares do ROC e os povos indígenas, tornando o Quebec uma terra de acolhimento diante das migrações que estão destinadas a se desenvolver;
f) pela saída das alianças militares (OTAN e NORAD) e pela reconversão das indústrias militares em indústrias produtoras de bens que atendam às necessidades da população.
Conclusão
O projeto de subjugação da sociedade canadense e da sociedade quebequense pelo imperialismo trumpista possui múltiplas dimensões. A rejeição a esse projeto não pode, de forma alguma, ser resolvida apenas no âmbito da política comercial e por meio de retaliações tarifárias. Ele só poderá ser revertido por meio de uma convergência das lutas sociais conduzidas pelos diferentes setores da maioria popular no Quebec, assim como no Canadá. A vitória só será possível se a esquerda política e social souber esclarecer as bases dessa convergência e se empenhar com determinação nessa tarefa.