STF em pé de guerra
Revelações sobre as relações de ministros com Daniel Vorcaro provocam confronto inédito no Supremo; Moraes pede investigação de Mendonça, enquanto Fachin cobra explicações dos dois
Foto: Gustavo Moreno/STF
A crise envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro chegou ao centro do Supremo Tribunal Federal (STF) e abriu uma fissura incomum dentro da própria Corte. De um lado está Alexandre de Moraes, que pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, providências contra o colega André Mendonça, acusando-o de possíveis irregularidades na condução de investigações. Do outro, está Mendonça, relator de processos relacionados ao caso Master, que retirou o sigilo de documentos da investigação e acabou expondo conversas e relações de Vorcaro com autoridades, entre elas o próprio Moraes.
O episódio é particularmente delicado porque não se trata apenas de uma divergência jurídica entre dois ministros. A disputa envolve um ministro que aparece nos elementos de uma investigação e outro que, na condição de relator, teve acesso a esse material e tomou decisões que acabaram colocando o colega sob escrutínio público.
A crise começou a ganhar força depois que a Polícia Federal analisou celulares apreendidos de Vorcaro, dono do Banco Master. As mensagens revelaram contatos do empresário com autoridades e integrantes dos meios político, jurídico e empresarial. Entre os nomes que aparecem está Alexandre de Moraes.
As mensagens também revelaram uma relação entre Vorcaro e pessoas próximas ao ministro. Um dos pontos mais sensíveis é a existência de um contrato de valor superior a R$ 50 milhões envolvendo o escritório de advocacia da esposa de Moraes e empresas ligadas ao banqueiro. O ministro nega irregularidades.
Mendonça abre o caso
André Mendonça, que assumiu a relatoria do caso no STF, decidiu retirar o sigilo de parte dos documentos. Com isso, vieram a público mensagens que até então permaneciam sob reserva. A decisão teve enorme impacto porque revelou a extensão dos contatos de Vorcaro com integrantes do poder público – e colocou Moraes no centro de um debate sobre eventual conflito de interesses.
A partir daí, porém, a situação mudou de direção.
Moraes passou a questionar a atuação do próprio Mendonça e encaminhou a Fachin um pedido para que sejam investigadas possíveis condutas do colega, incluindo suspeitas de abuso de autoridade e improbidade administrativa. É aí que está o coração da crise: Moraes questiona a maneira como Mendonça conduziu uma investigação que contém informações potencialmente comprometedoras para o próprio Moraes.
Isso não significa, por si só, que Mendonça tenha cometido alguma irregularidade. As acusações ainda precisam ser apuradas. Mas a situação criou um problema institucional extraordinário: a acusação de que Mendonça estaria usando os “métodos de Xandão”.
Segundo os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, do UOL, Mendonça estaria utilizando, na condução do caso, métodos que ficaram associados à atuação de Moraes nos últimos anos: decisões diretas envolvendo a Polícia Federal, centralização das investigações e determinação de providências investigativas.
A questão é que a disputa deixa de ser apenas sobre o conteúdo das provas e passa a envolver também os métodos utilizados para obtê-las e encaminhá-las.
É uma situação que merece atenção justamente porque Moraes se tornou, nos últimos anos, uma das figuras mais poderosas do Judiciário brasileiro. Sua atuação foi fundamental na resistência institucional às tentativas de golpe e aos ataques contra o sistema eleitoral, mas também provocou críticas por decisões consideradas excessivamente centralizadoras.
Agora, a ironia é que um colega do Supremo estaria utilizando mecanismos semelhantes para investigar elementos que atingem o próprio Moraes.
Mendonça também tem o que explicar
Seria um erro, porém, transformar o episódio numa história simplista de “Moraes contra Mendonça”, como se um dos dois fosse automaticamente o lado correto. Mendonça também passou a ser alvo de questionamentos.
Mensagens obtidas pela investigação indicam que o ministro se encontrou com Vorcaro fora da agenda oficial. Mendonça reconheceu o encontro, ocorrido em março de 2025, e afirmou que apenas ouviu o empresário. Também confirmou que recebeu advogado ligado ao ex-banqueiro e memoriais relacionados ao caso.
O ministro apresentou ainda notas fiscais para contestar a suspeita de que teria recebido ternos pagos por pessoas ligadas a Vorcaro. Segundo a documentação divulgada, Mendonça desembolsou R$ 26,4 mil em duas compras numa alfaiataria de luxo.
Ou seja: Mendonça tem explicações a dar, mas isso não significa que as suspeitas contra ele estejam comprovadas. Essa distinção é fundamental.
Fachin tenta impedir guerra interna
Diante da escalada da crise, Edson Fachin decidiu não comprar simplesmente a versão de um lado ou de outro. O presidente do STF determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos sobre a condução do caso.
A iniciativa de Fachin é importante porque desloca a discussão para o terreno que deveria prevalecer desde o início: fatos, documentos, procedimentos e responsabilidades. Não basta afirmar que um ministro é vítima de uma conspiração. Também não basta afirmar que outro ministro agiu corretamente. É preciso verificar o que aconteceu.
A crise também alcançou a própria PGR. Mensagens de Vorcaro fazem referência a Paulo Gonet, embora não existam, até o momento, elementos que o coloquem diretamente como alvo de investigação. O episódio, porém, provocou desconforto dentro do Ministério Público.
A confiança nas instituições
O caso Master expõe algo mais profundo do que a disputa entre dois ministros. O que está em jogo é a credibilidade das instituições responsáveis por investigar e julgar casos envolvendo poderosos. Se um empresário investigado consegue manter relações com ministros do STF, integrantes da PGR, políticos, advogados e outros personagens influentes, a sociedade tem o direito de perguntar: até que ponto essas relações interferiram nas decisões tomadas?
Essa pergunta vale para todos. Vale para Moraes. Vale para Mendonça. Vale para Gonet. Vale para a Polícia Federal. E vale para qualquer autoridade que apareça nos documentos da investigação. A resposta democrática não pode ser a blindagem corporativa.
É justamente por isso que a posição mais responsável não deve ser a de defender automaticamente Moraes – tampouco a de comprar a narrativa da direita de que toda a crise provaria que o STF é uma instituição ilegítima.
O Supremo foi decisivo para preservar a democracia brasileira diante das ameaças golpistas dos últimos anos. Isso não dá a seus ministros licença para agir acima de qualquer escrutínio. Da mesma forma, questionar condutas de integrantes do STF não significa aderir ao discurso daqueles que pretendem enfraquecer a Corte para abrir caminho à impunidade.
Uma crise que não pode ser transformada em espetáculo político
O momento é especialmente perigoso porque o caso surgiu às vésperas das eleições. A direita bolsonarista já tenta utilizar as revelações para ampliar seus ataques a Moraes e mobilizar sua base para o 7 de Setembro.
O presidente Lula, por sua vez, adotou uma posição de cautela e defendeu investigações amplas, sem “blindagem de ninguém”, além de criticar o que chamou de “vazamentos seletivos”. Essa deveria ser a regra.
Nenhuma autoridade pode estar acima da lei – nem ministros do STF, nem banqueiros, nem políticos, nem integrantes do Ministério Público ou da Polícia Federal.
O episódio envolvendo Moraes e Mendonça precisa ser investigado com transparência, respeito ao devido processo e sem seletividade. Se houver irregularidades, elas devem ser responsabilizadas. Se as suspeitas não se confirmarem, isso também precisa ficar claro.
A democracia não se fortalece quando instituições são tratadas como intocáveis. Fortalece-se quando elas demonstram que conseguem investigar seus próprios integrantes, admitir erros e corrigir abusos. A queda de braço entre Moraes e Mendonça, portanto, pode ser mais do que uma disputa pessoal ou uma batalha de bastidores. Ela é um teste para o próprio Supremo.
E a pergunta que Fachin agora terá de ajudar a responder é simples, mas decisiva: o STF será capaz de aplicar a si mesmo o rigor que exige dos demais?