Três anos de guerra civil, uma cidade sitiada e a pior crise humanitária do mundo no Sudão
O país sofre com a pior crise humanitária do mundo, que já deixou 9 milhões de deslocados e dezenas de milhares de mortos
Foto: Mulheres estão sentadas ao redor de panelas com comida em um dos maiores campos de refugiados em El-Obeid, no Sudão, em julho de 2026. (MSF/Reprodução)
Via Naiz
Em 15 de abril de 2023, Mohamed Amro viu um avião militar na televisão. Abriu a janela e avistou a mesma aeronave no céu. Ele ainda não sabe se o som dos rotores — que no Sudão soam como tambores de guerra — vinha da rua ou da tela. “Estávamos no Ramadã e acordamos mais tarde para nos ajudar a passar o jejum”, conta Amro, que acordou naquele dia com um telefonema de sua mãe informando que a terceira guerra civil sudanesa havia começado.
O conflito opõe o Exército sudanês, que em 2019 deu um golpe de Estado, aos paramilitares das FAR (Forças de Apoio Rápido). Hoje, o país está dividido entre o sudoeste, controlado pelos paramilitares, e o norte e o leste, território do Exército regular. “Sabíamos que havia tensões, mas não imaginávamos que seria algo tão grave nem que duraria tanto tempo”, relata Amro, que nasceu em Madri e cursava Engenharia Elétrica em Cartum, capital do Sudão, no início da guerra.
Crise de refugiados
O conflito desencadeou a maior crise humanitária do mundo, que já deixou dezenas de milhares de mortos e obrigou milhões a fugir de suas casas. Dos cerca de 50 milhões de habitantes do país, mais de 9 milhões vivem como refugiados, de acordo com o Relatório Global sobre Deslocamento Interno de 2026. É o país com o maior número de deslocados internos do mundo e, em 2024, esse número chegou a 11 milhões, o maior já registrado na história em um único país. Muitos também deixaram o Sudão.
Por terem nacionalidade espanhola, Mohamed Amro e sua família puderam se refugiar em Madri poucos dias após o início do conflito, mas a maioria não teve essa sorte. “Um amigo me contou que viu quando atiraram no pescoço de uma de suas vizinhas, uma senhora idosa”, relata Amro, que agora é presidente da Casa do Sudão, uma organização que representa e presta apoio à comunidade sudanesa na Espanha.
A maioria dos que decide deixar o país segue para o Egito, de onde alguns partem depois para a Europa, os Estados Unidos, o Canadá… Às vezes, por rotas perigosas. Atualmente, a Casa do Sudão está com o foco voltado para Ceuta, para onde enviam pessoas para apoiar os refugiados que entraram na cidade no final de julho. “Das 4.000 pessoas que vivem na praia, cerca de 1.000 são sudaneses”, relata o presidente da organização, que lamenta que “não estejam recebendo apoio”.
Ele denuncia, além disso, a desinformação por parte das autoridades espanholas: “Há casos de sudaneses a quem a polícia disse que não poderão solicitar asilo”. O Estado espanhol reconhece e garante o direito ao asilo em sua Constituição, pelo que seria obrigado a acolher essas pessoas, que vêm de um país em guerra no qual, além disso, foram cometidas graves violações dos direitos humanos.
Cerco em El-Obeid
Quando as Forças Armadas do Sudão (FAR) cercaram e tomaram de assalto a cidade de El-Fasher, no noroeste do Sudão, no final de 2025, mataram 6.000 civis em três dias. A Universidade de Yale publicou um estudo no qual, por meio de imagens de satélite, identificou terra removida de valas comuns, estradas queimadas e sacos com cadáveres espalhados por uma cidade sem imprensa internacional que pudesse denunciar os fatos. Em fevereiro deste ano, uma missão das Nações Unidas confirmou que as FAR haviam cometido crimes contra a humanidade na cidade.
No início de julho, a ONU alertou que o massacre de El-Fasher corria o risco de se repetir na cidade de El-Obeid, capital da região do Kordofão do Norte, que fica próxima à linha divisória entre os territórios controlados por um e outro bando. Nos últimos meses, centenas de milhares de pessoas que fugiram de outras partes do país se instalaram em escolas, prédios abandonados e acampamentos ao redor da cidade.
A Organização Internacional para as Migrações das Nações Unidas (OIM) informou, em meados de agosto, que, no que vai do ano, na região de Kordofan (onde fica El-Obeid), o conflito já causou mais de 200 mil deslocados. Além disso, segundo a OIM, a chegada de ajuda humanitária está cada vez mais limitada por atrasos nas cadeias de abastecimento decorrentes de outros conflitos, particularmente pelos bloqueios nas rotas do Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz.
Chiara Lodi, coordenadora médica da Médicos Sem Fronteiras no Sudão, conta que uma família sudanesa pode ter cerca de seis membros, e há cerca de 9.000 famílias em Al Mina Al Muwahad, o maior campo de refugiados de El-Obeid. No segundo, outras 5.000. Embora esse número, segundo Lodi, esteja aumentando a cada dia: “Há um fluxo constante de deslocados; em alguns dias chegam 20, em outros, 50…”.
Água, medicamentos e partos
Nos acampamentos, cada pessoa dispõe de cerca de um litro e meio de água por dia para beber, cozinhar, limpar… “Isso não é nada. Só ao dar descarga já gastamos cerca de 7 litros”, diz a responsável médica da MSF, que conta que um dos maiores desafios que enfrentam é conseguir fornecer água aos deslocados. Eles também temem que o atraso da estação das chuvas prejudique as colheitas e possa desencadear uma crise alimentar.
Há também falta de acesso a medicamentos para os doentes crônicos e problemas de saúde nos recém-nascidos: “Em El-Obeid há muitos partos, que normalmente são conduzidos por parteiras tradicionais nos próprios acampamentos e, se não houver água, os recém-nascidos podem contrair infecções graves. Estamos vendo, ao visitar hospitais, como as maternidades estão cheias de pacientes com infecções”, explica a responsável da MSF.
A saúde mental é um tema talvez mais esquecido, “menos chamativo do que a água”, diz Lodi, “mas igualmente um problema”. “Ter que fugir de casa, o sofrimento do qual você é testemunha e o fato de viver por um longo período em uma barraca causam estragos na saúde mental: depressão, ansiedade e um sentimento de vazio, de não saber o que vai acontecer amanhã. É algo que se percebe até mesmo na maneira como as pessoas andam pela rua”, relata.
Esse problema afeta de forma desigual adultos e crianças. Nos primeiros, por exemplo, pela sensação de não poderem cuidar de suas famílias. Nas crianças, por outro lado, a vida como refugiadas lhes nega a infância, já que “não têm espaços sociais para se relacionar, as escolas estão fechadas…”, explica a coordenadora da MSF.
O combustível da guerra
Quando Alfredo Langa Herrero, pesquisador do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH), era delegado da Cruz Vermelha no Sudão, ele conta que os alertavam para tomarem cuidado com “os bandidos Yanyauid”, um grupo de paramilitares “utilizado pelo Exército para cometer o genocídio de Darfur — um massacre sistemático de grupos não árabes que deixou centenas de milhares de mortos — a partir de 2003”.
Dos Yanyauid surgiram as Forças de Apoio Rápido (FAR), o então braço paramilitar do Exército sudanês. Após dar um golpe de Estado em 2019, as forças armadas do país quiseram integrar as FAR ao Exército regular. Os paramilitares se rebelaram em abril de 2023 e a guerra começou. Langa afirma que “não há um lado legítimo, como costuma-se dizer”, mas trata-se do “Exército regular e seus ex-paramilitares em uma luta pelo poder”, ambos “islamistas militares”.
A instabilidade da guerra, segundo Langa, beneficia várias potências internacionais devido aos recursos naturais que extraem do Sudão. O Exército regular controla o petróleo e as FAR, o ouro. Ambos têm seus clientes: “Al Burhan (Abdelfattah al Burhan, chefe do Exército do Sudão) conta com o apoio do Egito e da Turquia; a China também tem interesse no petróleo sudanês; e Dagalo (Mohamed Hamdan Dagalo, líder das FAR), nos Emirados Árabes Unidos, que importam 93% do ouro do país”.
“O ouro e o petróleo não deram início à guerra, mas são o combustível e a causa de seu agravamento”, segundo o pesquisador do IECAH, que explica que uma “democracia plena, na qual os sudaneses se beneficiem de seus próprios recursos, seria muito ruim para uns e para outros”, razão pela qual “praticamente não houve nenhum processo de paz sério desde os acordos de 2005 que culminaram na independência do Sudão do Sul”.
Um futuro “péssimo”
A guerra não dá sinais de que vá acabar, aponta o especialista, a menos que haja intervenção internacional. Ele relata que, anteriormente, já houve uma missão internacional da ONU e da União Africana na região de Darfur – onde ocorreu o genocídio de 2003 –, e que, naquela época, “não havia violência alguma. Em 2020, a missão chegou ao fim e a situação se agravou”. Ele lamenta que, atualmente, nenhuma missão semelhante esteja sendo implementada.
Ele explica, além disso, que no Conselho de Segurança da ONU, “a Rússia vetou recentemente várias resoluções” relacionadas à situação sudanesa e que, atualmente, “não há muito interesse” no assunto. Sobre o futuro, Langa teme que o país possa se dividir (como já aconteceu entre o Sudão e o Sudão do Sul) e que dessa cisão surja “um Estado controlado pelas FAR e por Dagalo”, pois isso significaria “legitimar um grupo paramilitar, e isso seria péssimo”.