Cuba, presa entre as grandes potências
Castro

Cuba, presa entre as grandes potências

Ao libertar-se da esfera de influência dos Estados Unidos após a revolução castrista e diante do cerco imposto por uma superpotência hostil, a revolução buscou desesperadamente e encontrou um aliado na União Soviética

Foto: Fidel Castro discursa para a multidão em Santiago de Cuba em junho de 1964. Abaixo, à esquerda, usando uma boina preta, está Ernesto “Che” Guevara. (Jung/ullstein bild)

Via Viento Sur

O que pode fazer um Estado diante de uma potência avassaladora, desejosa de conquistá-lo ou de manter seu domínio sobre ele? Frequentemente, precisa buscar a ajuda de outra potência, hostil ou rival, ou até mesmo refugiar-se sob sua proteção. Ao fazê-lo, costuma correr o risco de passar de Caríbdis a Cila1. Após a Segunda Guerra Mundial e até aproximadamente 1990, esse risco era ainda maior, pois o mundo era percebido como bipolar, apesar de um número crescente de países se libertar da órbita das duas superpotências.

Esse era o risco enfrentado por Cuba ao libertar-se da esfera de influência dos Estados Unidos após a revolução castrista. Diante do cerco imposto por uma superpotência hostil, a revolução buscou desesperadamente e encontrou um aliado na União Soviética. Logo ficou evidente que essa aliança ameaçava comprometer sua independência. Fidel Castro lutou durante mais de uma década para preservá-la, chegando inclusive a quase romper com os soviéticos em várias ocasiões.

“Uma colônia na república”

A revolução foi muito real, assim como as da Iugoslávia, China ou Vietnã. Além disso, diferentemente destas últimas, a revolução cubana não foi feita pelos comunistas; por sua própria natureza, ofereceu forte resistência à sovietização. Isso permaneceu verdadeiro mesmo quando seus líderes decidiram se aliar aos comunistas locais, ou até se tornarem eles próprios comunistas, embora recém-convertidos. O problema era que os antigos comunistas, com quem a aliança dos novos era tão inevitável quanto a aliança dessa revolução com a URSS, alinhavam-se aos soviéticos, o que minava internamente o objetivo de manter a independência em relação ao aliado internacional. A luta por essa independência teve, portanto, de ser travada em duas frentes interligadas: a externa e a interna.

A revolução vitoriosa de janeiro de 1959 ocorreu em um país que, cinquenta anos antes, havia conseguido libertar-se da Espanha após uma guerra de independência, mas que caíra em profunda dependência dos Estados Unidos. O Exército norte-americano interveio naquela guerra para recuperar, em escala global, quase todo o legado colonial dessa potência em decadência, incluindo Cuba. Mesmo em 1934, após a revogação da Emenda Platt — que mantinha Cuba completamente subordinada —, “a colônia continuou vivendo na república”, como dizia o poeta e líder independentista cubano do século XIX José Martí ao se referir a esse tipo de Estado. Uma colônia como poucas outras repúblicas da América Latina.

A revolução, que começou como uma luta contra a ditadura de Batista, transformou-se rapidamente em um confronto com os interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos. Após dois anos de guerra de guerrilhas, o Exército Rebelde de Fidel Castro obrigou as forças governamentais a capitular e tomou o poder. A revolução logo se deparou com a colônia existente dentro da república e a destruiu. E como essa colônia dentro da república era constituída principalmente pelo capital norte-americano na economia, ao eliminá-la, derrubou também o próprio capitalismo por meio de amplas nacionalizações. A revolução conseguiu isso poucos meses antes do segundo aniversário de sua vitória.

“É preciso acabar com esses golpistas!”

Quem foram aqueles que, no final de 1956 e início de 1957, lançaram a guerra de guerrilhas? Ernesto Che Guevara, entrevistado sobre esse tema em um acampamento guerrilheiro pelo jornalista argentino Jorge Masetti, explicava: “Politicamente, Fidel e seu movimento poderiam ser classificados como nacionalistas revolucionários”. E com razão, exceto pelo fato de que não se tratava de um nacionalismo puramente cubano, mas também latino-americano, semelhante ao pan-arabismo da época. “A pátria é a América”, é “nossa América”, como a chamava Martí — a América Latina —, e eles eram martianos: consideravam-se herdeiros ideológicos desse herói da guerra de independência.

Tinham então algum vínculo com os comunistas do Partido Socialista Popular (PSP)? Inicialmente, nenhum. Quando, em 26 de julho de 1953, Castro tentou pela primeira vez lançar um levante contra a recém-instaurada ditadura de Batista atacando o quartel de Santiago com seus homens e mulheres, o Partido Comunista condenou energicamente a ação, classificando-a como um “ato putschista aventureiro”. Isso se tornou um motivo de discórdia ainda mais importante do que qualquer outra diferença ideológica e política. A mensagem de Moscou aos partidos comunistas era clara: a via pacífica ao socialismo… que, segundo zombavam os castristas, seguia ad calendas graecas.

O episódio seguinte revela até que ponto o espírito insurrecional dos nacionalistas revolucionários foi motivo de conflito com os comunistas e as consequências que isso frequentemente acarretava.

Em 13 de março de 1957, enquanto a guerra de guerrilhas já assolava a Sierra Maestra, 46 combatentes do Diretório Revolucionário, fundado pelo líder estudantil José Antonio Echevarría, atacaram o palácio presidencial sob seu comando para matar Batista. Quase todos morreram imediatamente. Quatro sobreviveram e se esconderam, mas, após uma denúncia, a polícia os encontrou e os assassinou.

Sete anos depois, descobriu-se que um de seus colegas de universidade, um comunista, havia feito a denúncia; ele havia se infiltrado no Diretório por ordem de seu partido. Diante do tribunal, confessou ter agido por motivos ideológicos, mais especificamente pela hostilidade de seu partido a esses métodos de luta, considerados putschistas.

Os revolucionários das planícies e das montanhas

O llano [planície, em tradução livre], ramo urbano clandestino do Movimento 26 de Julho, desconfiava profundamente dos comunistas. Muitos militantes desse movimento afirmavam que a URSS era uma potência imperialista, assim como os Estados Unidos. Outros, como Armando Hart e Enrique Oltuski — este último filho de imigrantes judeus poloneses —, também liam com aprovação os escritos de Trotsky sobre a degeneração do Estado soviético e, em geral, sobre o stalinismo dentro do movimento comunista. Além disso, o líder da Frente Operária Nacional do Movimento 26 de Julho, o ferroviário Ñico Torres, era militante trotskista. No Movimento 26 de Julho também atuavam alguns antigos trotskistas que, havia muito tempo, haviam se unido aos nacionalistas revolucionários, preservando suas antigas ideias políticas.

Durante os últimos meses de 1958, quando o Exército Rebelde passou à ofensiva, os comunistas começaram a cooperar com ele. Representavam um aliado potencialmente importante, já que o Movimento 26 de Julho não possuía uma base social comparável dentro do movimento operário. Dentro do ramo serrano — isto é, guerrilheiro — do Movimento 26 de Julho, no círculo mais próximo de Castro, dois dos outros três principais comandantes — Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel, e Guevara — defendiam posições pró-comunistas e pró-soviéticas.

Raúl havia pertencido anteriormente à juventude comunista, e foi ele quem, no México, enquanto Fidel organizava o desembarque dos insurgentes rumo a Cuba, recrutou o argentino ao perceber que compartilhava sua orientação pró-soviética. Ansiosos para transformar a revolução em uma revolução socialista, acreditavam que não se podia prescindir dos comunistas; por isso, para conquistá-los para sua causa, ambos, ainda na guerrilha, filiaram-se ao PSP (Partido Socialista Popular), sem contar a Fidel.

Por causa de suas posições, Guevara encontrava-se então em conflito político com os dirigentes do ramo urbano do movimento. Após um ano de luta armada na Sierra Maestra, escreveu a René Ramos Latour, líder nacional de Ação e Sabotagem do Movimento 26 de Julho:

Pela minha formação ideológica, pertenço aos que acreditam que a solução dos problemas do mundo está por trás da chamada cortina de ferro, e considero este movimento como um dos muitos provocados pelo desejo da burguesia de libertar-se das correntes econômicas do imperialismo. Sempre considerei Fidel como o autêntico líder da burguesia de esquerda, embora sua figura seja engrandecida por qualidades pessoais de extraordinário brilho que o colocam muito acima de sua classe. Foi com esse espírito que iniciei a luta: honestamente, sem esperança de ir além da libertação do país, disposto a ir embora quando as condições da luta posterior levassem toda a ação do Movimento para a direita (em direção ao que vocês representam).

Ramos Latour respondeu:

Nós queremos uma América [Latina] forte, dona de seu próprio destino, uma América que enfrente com altivez os Estados Unidos, a Rússia, a China ou qualquer potência que tente atacar sua independência econômica e política. Em contrapartida, aqueles que têm a tua formação ideológica pensam que a solução para nossos males está em nos libertarmos do nocivo domínio ‘ianque’ por meio do não menos nocivo domínio ‘soviético’.

Pelas costas de Fidel

Pouco depois, a liderança do Movimento 26 de Julho passou das mãos da resistência urbana — da qual Guevara desconfiava, convencido de que representava a ala direita e burguesa do movimento — para as do Exército Rebelde. Este último, afirmava ele, “já era ideologicamente proletário”, embora jamais tenha explicado como isso havia acontecido enquanto operava na Sierra Maestra, limitando-se a afirmar vagamente que era resultado “do processo de proletarização de nosso pensamento, da revolução que se operava em nossos hábitos, em nossas mentes”.

Após a vitória, Fidel, consciente de que Guevara agia em conluio com Raúl pelas suas costas e de que ambos colocavam comunistas em numerosos postos dentro do aparelho de poder, afastou temporariamente Guevara, enviando-o, como representante das novas autoridades cubanas, para uma longa viagem a países do Terceiro Mundo e à Iugoslávia.

No final de outubro de 1960, quando em Cuba a derrubada do capitalismo já havia chegado a um ponto sem retorno — não apenas com o pleno apoio de Castro, mas inclusive sob sua liderança direta —, parecia que ele, Guevara e Raúl seguiam agora o mesmo caminho. Como sabemos hoje, após a abertura dos arquivos pós-soviéticos, isso era uma ilusão.

Na versão oficial soviética dessas conversas, pode-se ler algo até então inimaginável para a historiografia da revolução cubana e para os biógrafos de Guevara:

O camarada Escalante pede à parte soviética que leve em conta que pode negociar com o camarada E. Guevara para além das prerrogativas da missão comercial e econômica, porque recentemente o camarada Guevara e o camarada Raúl Castro foram promovidos a postos de direção no PSP, embora muito pouca gente saiba disso e isso seja ocultado de Fidel Castro.

E continua:

Embora este último ignore que seu irmão Raúl e Guevara são comunistas, sabe muito bem que trabalham estreitamente com o partido, e inclusive às vezes brinca dizendo que são os representantes do PSP dentro do governo revolucionário.

Ao mesmo tempo, o embaixador soviético em Havana informou ao Kremlin, com preocupação, que as relações com Guevara estavam muito tensas, porque este criticava violentamente os partidos comunistas latino-americanos; afirmava que “não estavam aproveitando a situação revolucionária, comportavam-se como covardes, não iam para as montanhas e não iniciavam uma luta aberta” — armada, evidentemente, ao estilo cubano.

Moscou vê isso com desconfiança

Em abril de 1961, Castro consagrou oficialmente a derrubada do capitalismo ao proclamar o caráter socialista da revolução. Fez isso literalmente às vésperas do desembarque, na Playa Girón, de uma brigada armada de refugiados cubanos apoiada pelos Estados Unidos, que deveria marchar sobre Havana. Após o desembarque, os invasores não conseguiram sair da praia, pois foram primeiro detidos por milícias operárias, estudantis e camponesas e, depois, esmagados pelo pequeno Exército Rebelde.

Antes que isso acontecesse, a revolução, cercada e desesperada, recorreu ao único aliado que realmente podia encontrar: a União Soviética. A segunda superpotência mundial estava muito distante, em outro hemisfério, e Castro acreditava, portanto, que poderia construir uma aliança preservando a independência de seu país; sem transformá-lo em satélite, sem submetê-lo a uma assimilação estrutural, em outras palavras: sem sovietizá-lo.

Por um lado, a imprensa de Moscou insinuava que Cuba devia parte de sua vitória na Playa Girón aos soviéticos; por outro, mantinha silêncio sobre a declaração do caráter socialista da revolução, pois isso havia provocado uma reação claramente negativa no Kremlin. Cuba ousava considerar-se igual aos soviéticos! Segundo a doutrina soviética, não poderia haver revolução socialista — nem mesmo uma revolução popular democrática — a menos que fosse integralmente liderada por um partido comunista reconhecido por Moscou como seu próprio.

Assim como a revolução de Nasser no Egito, a revolução cubana, aos olhos dos soviéticos, merecia apenas o título — mais modesto na hierarquia — de revolução nacional-democrática. Mas a revolução cubana havia derrubado o capitalismo, argumentava Castro.

Em Moscou, porém, isso não era o que importava. É significativo que, quando o antigo comandante guerrilheiro Faure Chomón, na condição de embaixador de Cuba na URSS, declarou publicamente: “nós, os comunistas”, isso tenha provocado indignação por lá.

Castro restabelece a ordem

Durante o verão de 1961, Castro fundiu o Movimento 26 de Julho, o Diretório Revolucionário 13 de Março e o Partido Socialista Popular para formar as Organizações Revolucionárias Integradas (ORI), com o objetivo de construir um partido único. No final daquele ano, buscando pôr ordem nessa desorganização, de acordo com as normas predominantes no mundo comunista, anunciou que era marxista-leninista. Essa integração organizativa e padronização ideológica rapidamente desencadearam uma grave crise.

Sob a liderança do já mencionado Aníbal Escalante, os comunistas aproveitaram imediatamente sua experiência na criação de estruturas partidárias para assumir o controle das ORI. Por meio delas, conseguiram colocar seus aliados nas instituições do Estado, eliminar aqueles que haviam liderado a revolução e preparar-se para a tomada do poder. Se a revolução era socialista, como o próprio Castro havia proclamado, então o poder agora pertencia aos comunistas, enquanto a ele deveria ser reservado o papel de Kerensky [líder da ala direita do Partido Socialista Revolucionário, ministro da Justiça, depois da Guerra e, finalmente, chefe do Governo Provisório após a Revolução de Fevereiro de 1917].

Enrique Oltuski [vice-presidente da Junta Central de Planejamento, sob autoridade de Guevara] recordaria:

Em pleno sectarismo e na presença [do Che], um extremista atacou o [Movimento] 26 de Julho e, depois de pensar duas vezes, me atrevi a responder: é verdade que não sabíamos nada de marxismo e que não pertencíamos ao partido [comunista], mas talvez tenha sido justamente graças a isso que derrubamos Batista. E [o Che] me deu razão.

A tensão agora era muito alta, não apenas entre Guevara e os partidos comunistas da América Latina, mas também entre ele e os comunistas cubanos.

As ORI existiram por pouco menos de oito meses. Em março de 1962, Castro, sem atacar os comunistas enquanto tais, declarou que as ORI haviam sido dominadas pelo sectarismo sob a liderança de Escalante, desmontou os aparatos recém-estabelecidos, exigiu a retirada do embaixador soviético — que considerava cúmplice ou instigador desse sectarismo — e ordenou a criação de um novo Partido Unido da Revolução Socialista (PURS).

Colocou à frente do partido pessoas de sua confiança, provenientes da guerrilha e da clandestinidade, assim como comunistas cuidadosamente selecionados e considerados leais. Escalante foi exilado em Moscou.

Nesse mesmo ano, o conflito entre Castro, os antigos guerrilheiros e os próprios comunistas cubanos rapidamente se estendeu às relações com seu aliado estratégico. Isso ocorreu durante a crise conhecida por diversos nomes: crise de outubro, crise dos mísseis ou crise do Caribe.

Os mísseis em Cuba

A crise de 1962 teve origem na derrota da brigada contrarrevolucionária na Playa Girón, dezoito meses antes. Paradoxalmente, a vitória ali havia reforçado a sensação de ameaça entre os cubanos, desta vez diante da perspectiva de uma intervenção militar direta dos Estados Unidos. Em Havana, o governo Kennedy era visto como abertamente hostil à revolução. A aliança com a União Soviética era considerada então a única garantia real de segurança, situação que Moscou aproveitou para dar um passo extraordinário: ofereceu instalar armas nucleares soviéticas na ilha de Cuba.

Hoje se sabe que não se tratou de uma iniciativa cubana, mas do resultado de cálculos geopolíticos estratégicos de Moscou no contexto da rivalidade entre as superpotências. Os cubanos deram seu consentimento, mas pediram que a operação fosse realizada abertamente, acreditando que assim seria mais segura. Nikita Khruschov, porém, impôs que a operação ocorresse com o máximo de discrição. Cuba tinha razão: quando a verdade veio à tona, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear.

Kennedy recebeu provas irrefutáveis da instalação de mísseis soviéticos em Cuba, contradizendo as repetidas negativas de Moscou. Khruschov sustentava que sua função era puramente defensiva, ao mesmo tempo em que instava os norte-americanos a agir com moderação. No entanto, os serviços de inteligência dos Estados Unidos dispunham de pouca informação — fato que o então secretário de Defesa, Robert McNamara, só descobriria trinta anos depois, em Havana, durante uma conferência organizada por Castro sobre a crise. Os norte-americanos acreditavam que as ogivas nucleares ainda estavam a caminho de Cuba, quando na realidade 162 delas já estavam instaladas na ilha, operadas por 42 mil soldados soviéticos. Sem saber disso, pretendiam atacar Cuba.

No auge da crise, Khruschov propôs uma solução: a retirada dos mísseis em troca de uma garantia de não agressão contra Cuba e da retirada dos mísseis norte-americanos da Turquia. As negociações ocorreram sem a participação de Castro, não apenas excluindo-o do processo de decisão e reduzindo a crise a um conflito bilateral entre as superpotências, mas também ocultando completamente dele que negociações estavam acontecendo.

As exigências de Castro buscavam resolver a crise obtendo dos Estados Unidos uma garantia de suspensão do bloqueio contra Cuba, o fim da sabotagem e das operações militares contra o país, além do fechamento da base militar norte-americana em Guantánamo. Essas demandas foram ignoradas.

Além disso, após chegar a um acordo com Kennedy, Khruschov ordenou a retirada dos mísseis e das tropas de Cuba, novamente sem consultar nem informar Castro. Os cubanos viram de repente os soviéticos desmontando os lançadores e abandonando a ilha, o que lhes causou enorme choque.

Anos depois, comentando os acontecimentos de outubro de 1962, Castro declarou: “Nem sequer passou pela nossa cabeça que a União Soviética pudesse retirar os mísseis”, de modo que, após a crise, a revolução cubana se viu “diante de um aliado em plena retirada e quase mais do que em retirada, em plena fuga”, o que tornou sua segurança ainda mais precária do que antes da eclosão da crise.

Embora não o tenha mencionado publicamente, hoje se sabe que ele havia perdido irrevogavelmente a confiança na União Soviética como aliada.

Um aviso aos velhos comunistas

Na Tchecoslováquia, os serviços secretos cubanos prenderam Marcos Rodríguez, que estudava ali e que, em 1957, havia denunciado à polícia de Batista quatro combatentes que participaram do ataque ao palácio presidencial. Chomón, ex-dirigente do Diretório Revolucionário 13 de Março, revelou que, após a denúncia, Rodríguez — que havia fugido para o México — foi protegido por dois militantes de alto escalão do antigo partido comunista, agora ocupando cargos ainda mais importantes. Ele os acusou de saber que Rodríguez havia revelado o esconderijo dos combatentes.

O casal era formado por Edith García Buchaca, ministra da Cultura de fato, e Joaquín Ordoqui, primeiro vice-ministro das Forças Armadas. Castro interveio durante o julgamento de Rodríguez, buscando conter a ameaça de uma onda de hostilidade contra os velhos comunistas, que corria o risco de se espalhar por toda a sociedade em decorrência desse caso.

Ao mesmo tempo, aproveitou o episódio para destituir García e Ordoqui de seus cargos, com o objetivo de conter o influxo de comunistas para os aparelhos de poder e reduzir sua presença nesses aparatos a proporções consideradas aceitáveis.

Com base em denúncias cuidadosamente orquestradas pelos serviços de inteligência norte-americanos aos serviços secretos cubanos, suspeitava-se que Ordoqui colaborasse com a CIA. Mas Castro também guardava ressentimento contra ele por ter se alinhado com Khruschov, e não com ele, durante a crise dos mísseis. Considerava-o — provavelmente com razão — o homem mais importante e perigoso de Moscou em Havana.

Acusando-o de ser ou ter sido agente da CIA, Castro quis levá-lo a julgamento, mas, sob intensa pressão soviética, abandonou a ideia. Ainda assim, ordenou que Ordoqui e sua esposa fossem colocados em prisão domiciliar, onde Ordoqui morreu nove anos após o julgamento de Rodríguez.

O isolamento de Ordoqui e, ao mesmo tempo, o de García, constituiu um sério aviso a todos aqueles velhos comunistas que não haviam abandonado a ideia de que, cedo ou tarde, Castro sofreria o mesmo destino de Kerensky e que eles desempenhariam o papel dos bolcheviques.

O camarada Che critica os soviéticos

Guevara já havia rompido com sua anterior orientação pró-soviética, e não apenas porque a URSS descumpriu muitos de seus compromissos econômicos ou forneceu produtos industriais de qualidade medíocre. Em novembro de 1964, enquanto exercia o cargo de ministro da Indústria, viajou à URSS para as comemorações do aniversário da Revolução de Outubro. Seu biógrafo mexicano, Paco Ignacio Taibo II, relata:

o Che não consegue abandonar seu espírito crítico, que se torna cada vez mais afiado. Visita uma fábrica soviética apresentada a ele como modelo e diz, segundo um de seus companheiros de delegação, que aquilo era ‘uma fábrica capitalista como as de Cuba antes da nacionalização’, isto é, nas condições do subdesenvolvimento capitalista. ‘Observa aberrações dentro do planejamento, fraudes na emulação porque planejavam para ultrapassar artificialmente as metas. Diz a seus companheiros de delegação que os soviéticos caminham para um beco sem saída na ordem econômica, dominada pelo burocratismo’.

Ao retornar, declarou aos funcionários de seu ministério:

Apesar do que se diga, o bloco ocidental de países europeus está avançando em ritmos superiores ao bloco das democracias populares. Por quê?

Explicava que, na URSS, a bíblia era o manual (stalinista) Economia Política, e não O Capital de Marx, e que ele próprio, Guevara, era considerado trotskista. Embora não fosse trotskista, convidou o economista marxista belga e figura destacada da Quarta Internacional, Ernest Mandel, para participar do debate econômico que ele mesmo havia iniciado; um debate que constituía uma polêmica apenas disfarçada entre defensores e críticos do modelo econômico soviético. Mandel era conhecido por suas críticas mordazes ao planejamento e à gestão econômica soviéticos.

Fidel Castro discursa para a multidão em Santiago de Cuba em junho de 1964. Abaixo, à esquerda, usando uma boina preta, está Ernesto “Che” Guevara.

Guevara rompeu completamente com a ideia de que “a solução dos problemas do mundo estava atrás da chamada cortina de ferro” e passou a considerar que ela residia nas revoluções do Terceiro Mundo. Ele próprio, acompanhado de mais de cem militares cubanos, foi apoiar a insurreição lumumbista no Congo.

Após o fracasso dessa expedição, durante uma estadia clandestina na Tchecoslováquia, criticou o sistema soviético em seus hoje famosos “Cadernos de Praga”, prevendo seu colapso.

Ao mesmo tempo, o apoio de Cuba aos movimentos guerrilheiros na América Latina gerou uma tensão prolongada — que durou mais de três anos — nas relações com Moscou, talvez ainda mais grave do que durante a crise dos mísseis.

Castro contra a microfração

Tudo começou em 1966 com o editorial publicado no órgão do partido cubano por ocasião do aniversário da Revolução de Outubro. Nesse artigo, fazia-se um chamado aos “verdadeiros” comunistas latino-americanos “para que seguissem o exemplo do comandante guerrilheiro venezuelano Douglas Bravo e seus companheiros”. Estes haviam sido anteriormente expulsos de seu partido comunista por se recusarem a encerrar a luta armada, mas Castro imediatamente lhes enviou como reforço uma dúzia de experientes oficiais cubanos.

Em julho de 1967, o primeiro-ministro soviético Kossíguin, regressando de Washington, viajou a Cuba, onde disse a Castro que os norte-americanos possuíam provas de que Cuba apoiava guerrilhas em pelo menos sete países do subcontinente, e exigiu que esse apoio cessasse ou a aliança seria rompida. Castro respondeu com um discurso — o segundo desse tipo — no qual criticou duramente o Partido Comunista Venezuelano por abandonar o movimento guerrilheiro que ele próprio havia criado e em cujo apoio Cuba havia se comprometido.

No interior do movimento comunista latino-americano ligado a Moscou, assim como na própria Moscou, esses discursos foram vistos como prova de que Castro estava rompendo com o comunismo. Em Cuba, com apoio do bloco soviético e sob a liderança de Escalante, que havia retornado do exílio, uma facção dos velhos comunistas — a microfração — entrou em ação.

Eles acusaram o regime castrista de ser pequeno-burguês, nacionalista, antimarxista, antissoviético e, em geral, anticomunista; de não reconhecer a liderança e a hegemonia da URSS; de tentar substituir a aliança com a União Soviética por uma aliança com a França; de buscar associar-se às economias ocidentais em vez de integrar-se economicamente ao bloco soviético; e, contrariando a política dos partidos comunistas e de acordo com a suposta “linha trotskista de exportação da revolução”, de defender a luta armada na América Latina.

No final daquele ano, Castro ordenou a prisão de numerosos militantes da microfração, seguida de seu julgamento em janeiro de 1968. O detalhado relatório de Raúl Castro sobre a investigação foi tornado público, incluindo os nomes de altos funcionários dos partidos da Alemanha Oriental e da Tchecoslováquia envolvidos no apoio à microfração, assim como de funcionários soviéticos presentes em Cuba que haviam assegurado à microfração que contava com o respaldo de Moscou.

Em uma reunião do Comitê Central do partido cubano, Castro pronunciou um discurso secreto de dez horas, hoje parcialmente desclassificado, no qual apresentou e documentou a história das relações cubano-soviéticas e, em particular, os bastidores da crise dos mísseis e suas consequências para essas relações.

Derrotados pela cana-de-açúcar

As relações com a superpotência aliada pareciam estar por um fio quando, seis meses depois, para surpresa até mesmo de seus companheiros mais próximos, Castro apoiou a intervenção militar do Pacto de Varsóvia na Tchecoslováquia. No entanto, fez isso de maneira tão ambígua que o Kremlin não considerou aquilo um verdadeiro apoio. O fato de que isso não contribuiu em nada para melhorar as relações entre os dois países ficou demonstrado pela recusa de Cuba, quase um ano depois, em participar da conferência internacional dos partidos comunistas pró-soviéticos em Moscou.

Foi somente em 1970 que o fracasso da safra de cana-de-açúcar — que, segundo os planos voluntaristas, deveria bater recordes e abrir caminho para o desenvolvimento econômico independente de Cuba —, com consequências traumáticas tanto para o governo quanto para a sociedade, obrigou Castro a reconciliar-se com a URSS.

Moscou deixou clara sua posição: ou Cuba adotava o modelo soviético de gestão econômica, ou a URSS — e, na prática, todo o bloco soviético — deixariam de fornecer ajuda significativa ao país.

Desta vez, Castro cedeu: em 1971, Cuba ingressou no Conselho de Assistência Econômica Mútua (COMECON). Com a participação de 10 mil especialistas e assessores soviéticos, a economia cubana começou a integrar-se forçosamente ao bloco. Essa sovietização econômica trouxe consigo uma sovietização cultural, ideológica e política.

A primeira vítima dessa sovietização no campo político foi o escritor Heberto Padilla, forçado a realizar uma autocrítica pública — medida contra a qual protestaram numerosos intelectuais de todo o mundo que até então simpatizavam com a revolução cubana.

A revista mensal Pensamiento Crítico foi a vítima seguinte. Editada por jovens filósofos, a publicação defendia uma alternativa ao marxismo-leninismo soviético: um marxismo aberto — amplamente receptivo ao marxismo ocidental e ao pensamento revolucionário do Terceiro Mundo —, além de crítico e criativo. Raúl Castro acusou os editores da revista de “diversionismo ideológico”.

O tristemente célebre “quinquênio cinzento” (1971-1975) lançou uma longa e sombria sombra sobre a vida literária e artística. A intelectualidade cubana só se vingaria em 2007, quando organizou espontaneamente um debate público massivo e radicalmente crítico sobre esse período e, de maneira geral, sobre a sovietização cultural. Nem mesmo Castro foi poupado das duras críticas.

Contra todas as expectativas, as concessões ao processo de sovietização foram apenas parciais, e Cuba continuou mantendo uma política internacional fundamentalmente independente. Isso ficou particularmente evidente em 1975, quando se decidia o destino de Angola, então em processo de independência.

Tropas da racista República da África do Sul marchavam em direção à capital da antiga colônia portuguesa. Cuba rapidamente acorreu em auxílio do movimento de libertação. Para surpresa das grandes potências, lançou uma operação militar intercontinental sem precedentes para um pequeno país. Fez isso por iniciativa própria, colocando a União Soviética, pega de surpresa, diante de um fato consumado.

Este artigo foi publicado em polonês no jornal Gazeta Wyborcza, no suplemento semanal “Que História!”, em 15 de maio de 2026.

Nota

  1. Estar “entre Cila e Caríbdis” é uma expressão idiomática derivada da mitologia grega, associado ao conselho proverbial de “escolher o menor de dois males”. ↩︎

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