EUA: Neste verão, o DSA entra em uma nova fase
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EUA: Neste verão, o DSA entra em uma nova fase

Há eleições em que nada acontece — o que costuma ser o caso —, mas, de vez em quando, há eleições em que acontecem coisas importantes. As primárias consecutivas em Nova York, em 23 de junho, e no Colorado, em 30 de junho, foram ambas desse último tipo

Neal Meyer 15 jul 2026, 09:07

Foto: Manifestação com Bernie Sanders, Zohran Mamdani, Claire Valdez, Darializa Avila Chevalier e outros candidatos no Brooklyn, no último 18 de junho. (Neal Meyer/The Call)

Via The Call

Há eleições em que nada acontece — esse costuma ser o caso —, mas, de vez em quando, há eleições em que grandes coisas acontecem. As primárias consecutivas em Nova York, em 23 de junho, e no Colorado, em 30 de junho, foram ambas desse último tipo.

O placar

A chapa apoiada pela regional de Nova York dos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America, DSA) triunfou em todas as frentes nas primárias democratas do estado em 23 de junho. Ambos os candidatos ao Congresso endossados pela organização obtiveram vitórias decisivas. A sindicalista e deputada estadual Claire Valdez venceu a eleição para representar o “distrito mais de esquerda do país”, que se estende pela fronteira entre o Brooklyn e o Queens. Ela derrotou o democrata progressista Antonio Reynoso, um político do Brooklyn, por 56% a 36%. A ativista do movimento de solidariedade à Palestina, Darializa Avila Chevalier, obteve uma vitória surpreendente (49% a 46%) contra outro “democrata progressista” e líder de longa data de uma das máquinas políticas democratas da cidade, Adriano Espaillat. A presença da DSA no Congresso foi ainda mais fortalecida no último dia de junho com a vitória de Melat Kiros em Denver, Colorado, que derrotou um candidato democrata que ocupava o cargo há muito tempo por quase 10 pontos percentuais.

O DSA também obteve grande vitória na Assembleia Legislativa do estado de Nova York. Os candidatos do DSA Nova York– Aber Kawas, Christian Celeste Tate, David Orkin, Eon Huntley, Illapa Sairitupac e Samantha Kattan – foram todos eleitos, em quase todos os casos com cerca de 60% ou mais dos votos (a disputa de Sairitupac foi mais acirrada, mas os votos também se dividiram entre seis candidatos). Conrad Blackburn foi a única derrota da seção, embora tenha chegado perto da vitória. Fora de Nova York, Adam Bojak, membro do DSA de Buffalo, também venceu sua eleição para a Assembleia Estadual. Eles se juntarão a um grupo de legisladores socialistas já em exercício — três senadores e cinco deputados estaduais reeleitos —, todos os quais conquistaram a reeleição. Supondo que não haja surpresas antes da eleição geral, isso significa que o DSA passará a ocupar 4 das 63 cadeiras no Senado Estadual e 10 das 150 cadeiras na Assembleia Estadual.

A recente série de vitórias nos âmbitos federal e estadual são apenas as conquistas mais recentes em um ano marcante para o projeto eleitoral do DSA. Candidatos apoiados pelo DSA obtiveram avanços em eleições estaduais e municipais por todo o país — inclusive em Louisville, Kentucky, onde Robert LeVertis Bell, membro do caucus Bread & Roses, venceu a disputa para a Assembleia Estadual.

Grande impacto

As vitórias em Nova York de Valdez e Avila Chevalier foram notícia internacional, ganhando as manchetes da Alemanha ao Brasil, Colômbia, Reino Unido, Espanha, Paquistão, Cingapura e outros países. Elas representam um grande impulso moral para o DSA, e a organização está crescendo rapidamente na esteira dessas vitórias: em nível nacional, o DSA ganhou 4.000 membros nas primeiras 72 horas após a eleição, e a regional de Nova York conta agora com mais de 15.000 membros — dos quais mais de 800 se filiaram na semana seguinte à eleição de terça-feira. Sem dúvida, a vitória de Kiros só vai reforçar esse ímpeto.

As vitórias e a repercussão que geraram também são prova de que a organização realmente “atingiu a maturidade”, quase exatamente dez anos após seu renascimento em novembro de 2016. A esquerda nos Estados Unidos, com o DSA em seu centro, é agora uma força nacional que não pode ser ignorada nem tratada como um ator marginal. No âmbito federal, Valdez, Avila Chevalier, Kiros e Chris Rabb, que venceu as primárias da Filadélfia em maio, se juntarão aos colegas membros do DSA Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, elevando a representação do DSA no Congresso para seis membros. O DSA poderia conquistar mais uma cadeira, dependendo do resultado da eleição disputada por Oliver Larkin na Flórida em 18 de agosto (embora Larkin tenha então que vencer uma eleição geral acirrada). Com seis membros, a presença do DSA na Câmara supera o ponto alto do século XX para uma presença organizada da esquerda, alcançado pelo Partido Camponês-Trabalhista em meados da década de 1930.

Mais importante do que os números é o programa com base no qual os candidatos do DSA foram eleitos. Todos venceram, não apesar de, mas por terem apoiado uma plataforma clara: Medicare para Todos, sindicatos fortes, tributação dos ricos, abolição do ICE, fim da Guerra de Trump contra o Irã e um embargo de armas a Israel.

Como a vitória foi conquistada em Nova York

Três fatores foram decisivos para a vitória do DSA na Big Apple (outros terão mais a dizer sobre os resultados no Colorado e no interior do estado de Nova York).

Primeiro, o crescente sentimento de repulsa entre a base dos Democratas em relação à liderança do partido atingiu um novo pico. O partido é atualmente liderado pelo senador Chuck Schumer e pelo líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, ambos do Brooklyn. Sua timidez diante do ataque implacável de Trump às liberdades civis e de suas guerras no exterior, aliada ao apoio à campanha genocida de Israel em Gaza e no Líbano e à incapacidade de oferecer um programa positivo, fez com que perdessem o apoio de sua base. A grande maioria dos políticos Democratas do establishment que os seguem também caiu em desgraça junto aos eleitores do partido, basicamente pela mesma razão. O DSA tem conseguido convencer um número crescente de ativistas e eleitores de que é necessário um rumo muito mais ousado. Fundamentalmente, a base para um novo tipo de política — embora ainda limitada, em grande parte, às grandes cidades — tem incluído tanto eleitores da classe média quanto da classe trabalhadora de todas as origens raciais.

Em segundo lugar, Zohran Mamdani utilizou com sucesso seu cargo de prefeito da cidade de Nova York para provar que um programa e uma estratégia política alternativos não são apenas desejáveis, mas também podem funcionar na prática. Nos primeiros seis meses de seu governo, Mamdani cumpriu duas de suas três principais promessas de campanha: ampliou o programa de creches da cidade e congelou o aluguel para quase metade dos locatários da cidade.

Ele também não teve receio de divulgar essas conquistas e usou sua influência para enfrentar a classe dos proprietários imobiliários da cidade e os empregadores mais exploradores. Como resultado, o apoio de Mamdani a Valdez e Avila Chevalier foi um grande impulso para as campanhas delas. Mamdani arriscou alto, se empenhando ao máximo para apoiar ambos os candidatos e colocando sua reputação em jogo. Essa aposta valeu a pena.

Por fim, a própria contribuição do DSA Nova York — combinada com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (United Auto Workers) e de uma série de sindicatos reformistas menores e grupos comunitários — merece grande reconhecimento. O exército de voluntários do DSA superou a oposição por toda a cidade. Como Alex Pellitteri descreveu na The Callrecentemente, se você tivesse caminhado por alguns bairros no dia da eleição, teria visto um ativista do DSA em quase todos os cruzamentos principais. O DSA Nova York também construiu uma forte identidade socialista para nossos candidatos, o que se mostrou um grande trunfo para nossa capacidade de unir todas essas diferentes disputas eleitorais.

Reação da liderança Democrata

A vitória da esquerda também significou derrota para a liderança do Partido Democrata. Desta vez, eles não aceitaram isso de bom grado. Líderes Democratas indignados denunciaram a ascensão do DSA. Muitos, é claro, também temem por suas próprias carreiras: Schumer e Jeffries, para começar, podem enfrentar sérios desafios nas primárias daqui a dois anos. Outros líderes que representam grandes cidades enfrentarão — se tudo correr bem — desafios semelhantes.

Já se foram os dias em que os líderes Democratas podiam ignorar a força crescente da DSA. O que isso significará para o futuro ainda não está claro. Mas parece razoável pensar que os líderes Democratas não adotarão mais uma abordagem de “silêncio estratégico” diante de um movimento socialista democrático em expansão.

Alguns líderes Democratas — atuais (veja Neera Tanden, presidente do principal think tank do partido, o Center for American Progress) e antigos (veja Jamie Harrison, ex-presidente do Comitê Nacional Democrata) — começaram a sugerir que o DSA mantém uma relação “parasitária” com os Democratas. O DSA critica ferozmente o partido, e com razão, mas aproveita a oportunidade que as primárias Democratas oferecem para vencer eleições.

um sentido em que a acusação de “parasitismo” é correta, embora a solução fosse os líderes Democratas apoiarem reformas como a representação proporcional para as eleições para a Câmara dos Deputados e o voto por ordem de preferência para as eleições presidenciais e para o Senado. Os socialistas deveriam acolher reformas nas regras eleitorais que nos permitissem “divorciar-nos” dos Democratas centristas e de seus apoiadores da classe empresarial. É por isso que Rashida Tlaib está certa em apoiar a Lei da Representação Justa, que transformaria as eleições nos EUA. Esperamos que os novos congressistas do DSA sigam o exemplo. Mas, enquanto os políticos Democratas apoiarem um sistema eleitoral que 1) dificulta a formação de um partido independente e 2) deixa o caminho aberto para que os socialistas obtenham avanços eleitorais significativos nas primárias, não há motivo para o DSA abandonar essa tática. Apresentar candidatos independentes e experimentar chapas de fusão também fazem sentido como táticas eleitorais, dependendo de qual dos seis diferentes sistemas partidários nos EUA o DSA esteja trabalhando, mas — dada a situação em que nos encontramos — seria um erro abandonar o trabalho dentro das primárias Democratas.

Um novo período na história do DSA

As eleições não foram apenas uma derrota para os líderes do Partido Democrata. Elas também representaram um golpe para a ala progressista do partido, que ocupa o espaço intermediário entre os líderes partidários, por um lado, e a esquerda socialista democrática, por outro. Valdez, Avila Chevalier e Kiros concorreram contra Democratas progressistas que contavam com o apoio de muitos líderes e organizações dessa ala do partido. No distrito de Valdez, o progressista Partido das Famílias Trabalhadoras ajudou a liderar a campanha de Reynoso. Sua derrota impressionante revelou o quão pequena é, na verdade, sua base social na cidade. O grupo líder da esquerda, por enquanto e pelo menos na cidade de Nova York, é o DSA.

Essas vitórias inovadoras ocorreram enquanto muitos especulam que a deputada Alexandria Ocasio-Cortez lançará uma campanha presidencial no ano que vem. Mas, comparado a todos os avanços positivos até agora neste ano, o papel de AOC nas eleições primárias foi uma grande decepção. Apesar de ser, sem dúvida, a integrante de maior destaque do DSA, AOC manteve estrita neutralidade em todas as disputas para o Congresso nas quais o DSA concorreu. Em contrapartida, tanto Mamdani quanto Bernie Sanders apoiaram diferentes combinações de candidatos socialistas. A própria AOC apoiou dois outros candidatos ao Congresso este ano que estavam à direita dos candidatos do DSA e saiu em defesa de Hakeem Jeffries dias após a eleição em Nova York, justamente quando mais pessoas começavam a questionar se ele deveria ou não ser o líder dos Democratas na Câmara.

AOC tem demonstrado repetidamente um conservadorismo tático e uma relutância em balançar o barco Democrata, qualidades que são um grande empecilho em um partido ainda dominado por sua ala pró-empresarial. Foi esse conservadorismo tático e o desejo de “unificar” o partido que também a levaram a defender o apoio imperdoável de Joe Biden e Kamala Harris ao genocídio em Gaza. AOC decidirá se concorrerá ou não à presidência independentemente do DSA. Se ela concorrer, o DSA terá que decidir se a apoiará ou não. Mas sua abordagem excessivamente cautelosa em relação à política interna do partido levanta sérias dúvidas sobre sua capacidade de liderar um movimento insurgente na eleição presidencial, sem falar em sua capacidade de liderar o partido e o governo federal caso venha a vencer.

A relação agora mais conflituosa do DSA com a ala progressista do Partido Democrata e o desafio emergente de como lidar com a campanha presidencial são apenas uma amostra dos desafios que aguardam o DSA neste novo período. Desde seu renascimento em 2016, o DSA vem lentamente construindo uma presença no movimento sindical, em campanhas de movimentos sociais e nos governos estaduais e municipais. Mas tem permanecido relativamente distante da política nacional porque seu peso no Congresso tem sido mínimo. Por mais importantes que Tlaib e AOC tenham sido para a esquerda, elas também mantiveram uma maior independência em relação ao DSA, em grande parte porque podiam alegar, com credibilidade, ter uma base de poder independente.

Mas o envolvimento d0 DSA nas disputas políticas nacionais terá que aumentar significativamente agora que entram no Congresso candidatos que são muito mais “da” organização. Valdez, em especial, é uma ativista séria e de longa data do DSA, que já foi membro eleito da liderança da regional do DSA Nova York. Para se adaptar a essa nova situação, os membros e grupos do DSA terão que demonstrar um novo nível de maturidade. Também teremos que levar os debates nacionais muito mais a sério. O Comitê Político Nacional terá que debater e se posicionar sobre questões políticas emergentes com muito mais regularidade, e precisaremos de uma estratégia de comunicação mais forte para promover nossas ideias e aproveitar nossos recentes avanços para fortalecer nossa organização.

Tudo isso é duplamente importante porque o DSA também tem um novo nível de responsabilidade na luta contra Donald Trump e o MAGA. A vitória de Mamdani em 2025 e a nova série de vitórias deste ano comprovam que há uma base crescente de eleitores tanto da classe trabalhadora quanto da classe média que estão prontos para apoiar a política socialista democrática. O DSA não pode se limitar a ser uma força crítica à margem; temos que levar a sério nosso papel como força nacional. Por exemplo, a posição do DSA nas eleições presidenciais de 2028 terá muito mais importância do que jamais teve antes. Isso significa que não será mais possível para a organização se abster de escolher um lado nas eleições gerais, a menos que realmente considere os candidatos Democrata e Republicano como “dois lados da mesma moeda” — algo que é difícil imaginar que venha a acontecer.

Isso, em resumo, é o que transforma um ciclo eleitoral rotineiro em algo completamente diferente. Um novo período para os socialistas democráticos nos EUA chegou.


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