Delação ameaça abalar cúpula do poder no DF
Ex-presidente do BRB promete revelar fluxo de recursos, mensagens cifradas e bastidores de decisões que podem atingir figuras centrais da política do Distrito Federal
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A possibilidade de uma delação premiada do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, acendeu o alerta nos bastidores políticos da capital federal. Preso no âmbito das investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master, Costa sinalizou disposição para colaborar com a Polícia Federal e o Ministério Público, oferecendo o que interlocutores classificam como um verdadeiro “arsenal” de informações capazes de ampliar significativamente o alcance das apurações.
Segundo informações divulgadas pela revista Veja, o ex-dirigente já foi autorizado a permanecer em uma ala isolada do Complexo Penitenciário da Papuda para organizar documentos, provas e os temas que pretende apresentar às autoridades. Emissários de Costa já teriam levado um esboço das informações à Procuradoria-Geral da República (PGR) e à Polícia Federal, numa demonstração de que as negociações para um acordo de colaboração avançaram além das conversas preliminares.
O potencial explosivo da delação estaria justamente na posição ocupada por Paulo Henrique Costa ao longo dos últimos anos. Como presidente do BRB, ele teve acesso privilegiado a operações financeiras, movimentações de fundos de investimento e decisões estratégicas que envolveram bilhões de reais. De acordo com pessoas próximas ao executivo, os documentos em sua posse permitiriam rastrear o caminho do dinheiro que saiu dos cofres do banco em direção a fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, além de identificar beneficiários considerados relevantes para a investigação.
Mas o que mais preocupa setores do poder local são as supostas mensagens cifradas que Costa afirma possuir. Segundo relatos de interlocutores, o material apontaria que decisões consideradas controversas dentro do BRB teriam sido tomadas sob orientação direta do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Caso as alegações sejam confirmadas e acompanhadas de provas robustas, o caso poderá atingir o núcleo político responsável pela condução do banco público nos últimos anos.
As investigações já conhecidas indicam que o Banco Master se tornou alvo de escrutínio após operações consideradas de alto risco envolvendo aquisição de ativos de baixa qualidade e estruturas financeiras complexas. O BRB chegou a anunciar, em 2025, uma controversa operação para aquisição de participação no Master, negócio que despertou questionamentos de órgãos reguladores, especialistas do mercado e integrantes do próprio sistema financeiro. A repercussão foi tamanha que a transação acabou se tornando um dos principais focos das apurações posteriores.
Nos bastidores de Brasília, a expectativa é que uma eventual colaboração de Paulo Henrique Costa possa ajudar investigadores a compreender não apenas as operações financeiras suspeitas, mas também a cadeia de comando que autorizava movimentações bilionárias dentro da instituição. Como a Polícia Federal já dispõe de dados provenientes de quebras de sigilo bancário de Daniel Vorcaro e de pessoas ligadas ao esquema, o diferencial da delação seria justamente a capacidade de contextualizar documentos, identificar codinomes e explicar mecanismos internos que, isoladamente, poderiam passar despercebidos.
A preocupação entre aliados do governo distrital decorre do histórico recente das grandes operações anticorrupção no país. Em diversos casos, delações premiadas serviram como ponto de partida para a abertura de novas frentes de investigação, atingindo agentes públicos, empresários e operadores financeiros que inicialmente não figuravam entre os principais alvos. É justamente esse efeito cascata que faz com que a possível colaboração do ex-presidente do BRB seja vista como uma ameaça potencial à reputação de figuras influentes da política brasiliense.
Por enquanto, as acusações atribuídas a Paulo Henrique Costa permanecem no campo das alegações e dependem de confirmação por meio de provas documentais e da validação das autoridades responsáveis. Ainda assim, a simples perspectiva de que o ex-dirigente possa detalhar os bastidores das operações envolvendo o BRB e o Banco Master já é suficiente para provocar apreensão nos corredores do poder. Se a delação avançar e os elementos apresentados forem corroborados pelas investigações, Brasília poderá assistir a mais um capítulo de grande impacto político e institucional.
Ajuda do FGC
O avanço das investigações ocorre em um momento especialmente delicado para o BRB. Após a exposição das operações envolvendo o Banco Master, a instituição precisou recorrer a uma solução extraordinária para reforçar seu caixa. Em acordo firmado no Supremo Tribunal Federal (STF), o banco foi autorizado a buscar um empréstimo de até R$ 6,5 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), numa medida considerada fundamental para restaurar a confiança do mercado e evitar um agravamento da crise financeira.
O aporte bilionário evidencia a dimensão dos problemas enfrentados pelo banco público do Distrito Federal. Embora autoridades e órgãos de controle ainda investiguem a extensão dos prejuízos decorrentes da relação com o Banco Master, o fato de uma instituição estatal precisar recorrer a um socorro dessa magnitude aumenta a pressão sobre os responsáveis pelas decisões que levaram o BRB a assumir operações consideradas de alto risco. Nesse contexto, uma eventual delação de Paulo Henrique Costa ganha ainda mais relevância, pois poderá esclarecer quem autorizou os negócios, quem se beneficiou deles e quais interesses políticos e econômicos estavam por trás das transações que hoje colocam o banco no centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes de Brasília.