Argentina: “a unidade das esquerdas é necessária para pensar e atuar na realidade”
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Argentina: “a unidade das esquerdas é necessária para pensar e atuar na realidade”

Uma entrevista inédita com o economista marxista argentino Eduardo Lucita sobre a situação política do país e as tarefas da esquerda

Eduardo Lucita e Israel Dutra 2 jun 2026, 11:26

Há mais de um mês circula na Argentina uma Carta Aberta dirigida aos partidos do FIT-U, intitulada “A esquerda diante de um grande desafio”, agora reforçada por uma segunda carta, ambas assinadas por reconhecidos militantes de esquerda1.

Como consideramos importante divulgar aqui no Brasil e também internacionalmente o que está acontecendo na Argentina, entrevistamos Eduardo Lucita, um dos signatários de ambas as cartas.


Israel Dutra: Eduardo, a Carta Aberta dirigida por vocês aos partidos do FIT-U2 teve ampla repercussão nos círculos e espaços da esquerda, e creio que também além deles, tendo chegado até mesmo ao Brasil. Você poderia nos dar uma visão geral dos objetivos que se propuseram e explicar por que neste momento?

Eduardo Lucita: Bem, vou me ater apenas aos pontos principais das cartas. Para começar, diria que há um contexto a ser levado em conta. Agudização da crise social e sensação de falta de futuro para os jovens, queda da imagem presidencial e forte rejeição à sua gestão de governo, sérias dificuldades do peronismo para resolver sua crise interna e ascensão da esquerda anticapitalista encarnada na figura de Myriam Bregman (MB).

Esse contexto geral nos pareceu um ponto de inflexão na situação política e uma oportunidade e um desafio para a esquerda. Portanto, o primeiro objetivo era gerar um debate sobre essa conjuntura que, acredito, é excepcional. A julgar pelos comentários, críticas e sugestões recebidas – inclusive tanto o PTS quanto o MST e a IS3 publicaram a primeira carta em seus respectivos sites –, podemos considerar que esse primeiro objetivo está sendo cumprido. Além das análises e caracterizações abordadas na Carta, ela também avança em propostas concretas, como a de criar “Comitês de luta e apoio a MB”, e até mesmo a possibilidade de formar grupos técnicos para desenvolver com maior precisão o programa da esquerda, o que, acreditamos, consolidaria sua ascensão. Quanto à questão “por que agora?” Em todo o texto circula a ideia de que, pela primeira vez, nestes mais de 40 anos, é possível convocar setores das massas na perspectiva de um governo dos trabalhadores e da possibilidade de disputar o poder real em nossa sociedade, em uma perspectiva de maior alcance. Para nós, e assim o dizemos na Carta, os Comitês desempenhariam aqui um papel importante. Parece-me uma situação inédita que devemos nos empenhar em aproveitar.

Tanto as pesquisas quantitativas quanto as qualitativas mostram um crescimento da deputada nacional pelo FIT-U, Myriam Bregman, tanto em sua imagem quanto na intenção de voto. Esse crescimento te pegou de surpresa?

Bem, a figura de Bregman vem em ascensão há vários anos. Ela é uma militante de esquerda que já tem uma longa trajetória na área dos direitos humanos, no apoio às lutas sindicais e sociais, e também é uma voz muito forte no Congresso Nacional. Mas não seria sincero se negasse que esse salto dos últimos dois meses não me surpreendeu. Ela é a única figura política do país com imagem positiva e tem uma intenção de voto média de 10%. Estou agradavelmente surpreso.

A que você acha que se deve esse crescimento explosivo? Às suas características pessoais, às políticas gerais que ela expressa ou propõe, ou ao fato de que a situação político-social está exigindo uma figura tão disruptiva quanto Milei foi em seu momento?

Acho que é a combinação de vários fatores. Por um lado, é inegável que a situação socioeconômica, que se reflete na queda da imagem de Milei — a mais baixa do ciclo — e, sobretudo, no fato de que 60% dos entrevistados desaprovam a gestão do governo, pesa muito. A guinada do peronismo para a direita também. Uma guinada da superestrutura partidária muito distante de sua base histórica, que está fragmentada, sem liderança e sem rumo. Em uma conversa recente com colegas da região metropolitana de Buenos Aires, eles me disseram que percebiam que, dentro do peronismo, a intenção de voto estava se deslocando das figuras tradicionais para Juan Grabois4, mas que agora, sem saber por quê, a ascensão de Grabois foi interrompida e a intenção de voto está indo diretamente para Bregman. Não sei se é bem assim, mas é um comentário a ser levado em conta. Grabois é líder de um setor progressista do peronismo muito ligado a setores da Igreja Católica.

Voltando à primeira Carta Aberta. Em que vocês discordam das afirmações de Myriam Bregman e de Christian Castillo de que não há condições para um governo de esquerda, nem para disputar o poder, porque não há um movimento social poderoso nem organismos de duplo poder?

Na minha opinião, essas definições foram infelizes. Não é que sejam totalmente erradas, mas não levaram em conta o contexto e soaram defensivas, quando nós acreditamos, e a Carta assim o aponta, que há condições para uma atitude mais ativa e propositiva, que supere as resistências necessárias. Felizmente, os companheiros não reiteraram essas afirmações; creio que houve um processo de reflexão e, recentemente, em uma entrevista, MB dizia: “é claro que queremos ser governo, é claro que queremos ter poder para transformar essa situação de raiz”.

Vocês também fazem uma caracterização polêmica do momento em que consideram “que é mais provável um salto eleitoral do que um salto insurrecional” e, em seguida, propõem “Comitês de luta e apoio a MB”. Essas definições não encerram uma deriva eleitoralista? Como se conjugam com a proposta do PTS de um Partido dos Trabalhadores? A Carta não é excessivamente otimista?

Bem, diante de tanta resignação e desesperança que querem impor, optamos pelo otimismo da vontade, mas não no abstrato, e sim sobre uma situação que está mudando. No que diz respeito a um PT argentino, não posso responder com certezas, não tenho clareza sobre suas definições. Porque, em sua intervenção no estádio de Ferro, no dia 1º de maio, MB falou de um partido dos trabalhadores, depois de uma ferramenta dos trabalhadores, depois de um partido da nova classe trabalhadora e, finalmente, de um novo movimento histórico. Suponho que, com o passar dos dias, essas definições se tornarão mais precisas e acredito que serão discutidas na FIT-U, cuja mesa coordenadora, pelo que sei, se reunirá nos próximos dias.

Quanto ao eleitoralismo. Ninguém duvida que a ofensiva do capital, liderada pelo presidente Milei, se estende sobre as condições de vida do povo trabalhador, sobre as proteções ambientais, sobre os direitos do movimento das mulheres e das diversidades, bem como sobre as diversas minorias existentes no país que alimentam as múltiplas resistências. Mas também é um lugar-comum que essas lutas, que tudo indica se aprofundarão no futuro, são dispersas, fragmentadas e muitas vezes atravessadas por critérios identitários que condicionam ou obstaculizam toda tentativa de unificá-las e centralizá-las. Para piorar, as direções como a CGT privilegiam a negociação em detrimento do confronto, ou simplesmente fingem não ver. Ninguém pensa hoje que se aproxima uma explosão social, embora, claro, a luta de classes seja imprevisível. Caso contrário, todos teríamos previsto 2001; já tenho meus anos e me lembro do conflito no Frigorífico Lisandro de La Torre em 1959, que resultou em uma greve geral decretada por telefone sem fio… É um dado da realidade: as pesquisas mostram que o avanço eleitoral tem muito mais chances de se concretizar.

Na segunda carta, “Algumas reflexões sobre as tarefas que temos pela frente”, vocês dão muita ênfase aos Comitês de Base, que se apresentam sob o lema “Por um governo dos trabalhadores: Myriam Bregman presidente”.

É isso mesmo. A proposta dos Comitês — que, é preciso reconhecer, MB retomou em seu discurso de 1º de maio ao falar em “organizar a simpatia” — visa ser uma ferramenta na qual convergirão não apenas os militantes dos partidos que compõem a FIT-U ou de outras organizações e movimentos, juntamente com personalidades do mundo intelectual ou artístico, mas, sobretudo, aqueles que protagonizam essas lutas hoje dispersas e fragmentadas. Trata-se de convocar a mais ampla unidade para que, em conjunto, possam discutir um programa mínimo que atenda à emergência e abra possibilidades para uma perspectiva de profunda transformação de nossa sociedade. Nestes dias, o PTS já lançou a convocação pública “Você faz falta”; nós aderimos a essa convocação porque é um passo à frente que convida a participar e a se organizar em torno da ideia de um governo dos trabalhadores. Também levanta a ideia de um Partido dos Trabalhadores e/ou de um novo movimento histórico, mas, como te disse antes, isso precisa de uma discussão mais profunda.

É lógico que esses Comitês convocados por, e alinhados atrás de, MB também tenham um papel eleitoral. Olha, o mais provável é que agora entremos em um impasse por causa da Copa do Mundo, mas depois as eleições já estarão entre nós. Não só porque muita gente acha que isso não vai mais adiante, mas porque, dentro das classes dominantes, já existe um setor que duvida se Milei será reeleito, inclusive se lhes convém que ele seja reeleito; e por isso não faltam aqueles que pensam em “soltar a mão dele para salvar o projeto” e já estão procurando um substituto.

Então, para mim, isso não é eleitoralismo. É aproveitar uma conjuntura inédita. Mas se você revisar as duas cartas, verá que se insiste em não abandonar as lutas nem as ruas. O eleitoral também é um campo de luta. Como se dizia antigamente, não se deve desprezar a disputa no terreno onde dominam os dominadores.

Vocês também falam em passar da defensiva para a ofensiva. Essa ideia me parece interessante, e não apenas para a esquerda argentina. Você pode nos explicar como seria essa transição?

Bem, é evidente que essa simpatia de que nos fala MB, ou a mudança no estado de espírito que descrevemos — e não apenas nós —, não se transformam mecanicamente em força organizada, nem em votos. Conseguir isso, que se situa claramente no plano político, vai exigir uma espécie de mudança cultural da esquerda, aqui e no mundo, deixando para trás as políticas meramente autoconstrutivas ou autorreferenciais e priorizando o interesse geral do movimento operário e popular. Ou seja, menos vanguardismo e mais política de massas para alcançar amplos setores atingidos pela crise, inclusive aqueles que não se definem pelo anticapitalismo ou pelo socialismo. No nosso caso, é necessário chegar aos múltiplos grupos e setores do peronismo — que vagam sem projeto, sem programa, sem liderança clara e que manifestam repetidamente sua intenção de votar “à la Bregman” — e convidá-los a participar dos comitês.

E isso nos leva à necessária unidade da esquerda, não pela simples soma de que juntos somos mais, mas pela unidade que permite pensar e agir em conjunto diante da realidade. Uma unidade não declarativa que deixe de lado as discussões estéreis e dê espaço a Comitês de Base independentes, democráticos e autônomos, que ofereçam um espaço comum à energia militante hoje dispersa em múltiplos espaços, muitas vezes ineficazes.

Se conseguirmos avançar nesse sentido, e para isso precisamos da compreensão de uma mudança de atitude da militância dos partidos, poderemos deixar para trás a fase defensiva em que estamos há muito tempo e passar para a ofensiva que permita pensar em horizontes não apenas de resistência, mas de transformação desta realidade intolerável. O problema do poder e as necessárias articulações ou alianças para torná-lo possível.

Estamos diante de uma janela de oportunidade inédita que, ao mesmo tempo, representa um grande desafio para a esquerda. Essa oportunidade não é indefinida no tempo. Como sabemos, a política não suporta o vácuo e, se a esquerda não ocupar esse espaço, outros o ocuparão. Acho que não há muito tempo a perder.

Eduardo, estamos fazendo esta entrevista com uma perspectiva internacionalista; nesse sentido, como você entende o que está acontecendo no seu país, e também na Bolívia, em um mundo marcado por tensões geopolíticas, a ascensão da direita e uma figura como a de Donald Trump?

Bem, a Argentina é, em certa medida, um caso excepcional. Somos governados por um presidente que se define como anarcocapitalista e que está na vanguarda ideológica da ascensão da direita no mundo; e, como se não bastasse, subordinou a política internacional do país aos Estados Unidos de Trump e ao Israel de Netanyahu. Em contrapartida, temos uma esquerda anticapitalista como, creio eu, não existe outra no mundo neste momento, liderada por uma aliança eleitoral (a FIT-U) de quatro partidos trotskistas há já 15 anos, algo também inédito.

A Bolívia está passando por uma forte crise política impulsionada por uma insurreição operária, indígena e camponesa que bloqueou as principais artérias e centros do país, exigindo a renúncia do governo Paz, eleito há pouco mais de seis meses. Se isso acontecesse — o que não se pode descartar que ocorra no meu país, dada a gravidade da situação social —, teria um impacto internacional muito forte. Mesmo que tirássemos Milei do poder político nas eleições presidenciais de 2027, isso também seria impactante. Seria uma demonstração concreta de que, seja pela via insurrecional ou pela eleitoral, a extrema direita pode ser derrotada. E se, nesses movimentos, a esquerda anticapitalista desempenhar um papel decisivo, isso será um exemplo para as esquerdas em todo o mundo.

Quanto a Trump, é evidente que ele é o chefe de um império em decadência que se protege por meio do “bloco ocidental” e que, nessa decadência, se torna mais agressivo e explorador. Ele demonstrou isso com a invasão militar da Venezuela e o sequestro de seu presidente, com as ameaças e o cerco a Cuba, com suas declarações sobre anexar o Canadá e a Groenlândia. Deixou-se arrastar por Israel para a guerra no Oriente Médio, enquanto permite que o país continue agindo em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Envolveu-se na guerra sem estratégia de entrada nem de saída, e é evidente que sairá enfraquecido desse caos provocado. O que pode ter consequências nas eleições de meio de mandato em novembro próximo nos EUA.

A contrapartida é a ascensão da China, hoje o ponto de referência no tabuleiro mundial, como define um politólogo espanhol. Em pouco menos de uma semana, Xi Jinping recebeu em visitas de Estado em Pequim Donald Trump e Vladimir Putin; com ambos, assinou diferentes tipos de acordos comerciais e políticos, mas não concedeu nada de importante a nenhum dos dois. Obrigou Trump a recuar na venda de armas a Taiwan e deixou claro a Putin que a China é mais importante para a Rússia do que a Rússia para a China. Trata-se de uma ordem mundial em transformação e tudo parece indicar que caminhamos para uma divisão por zonas de influência que podem estabilizar a situação por um período, mas depois as tensões podem retornar, sobretudo se levarmos em conta que, por trás de tudo isso, está a crise não resolvida do sistema capitalista mundial.

Por fim, aqui em Porto Alegre, tivemos no final de março a 1ª Conferência Antifascista e pela Soberania dos Povos, da qual participou uma importante delegação do seu país. Qual é a sua opinião e como você vê a continuidade dela?

Bem, não sei se você sabe que, daqui, colaborei com Eric Toussaint, um dos principais organizadores, na organização da Conferência. Eu já não viajo, mas, pelos relatos recebidos e comentários de vários companheiros, a Conferência foi um sucesso, tanto pela quantidade de participantes quanto pela diversidade de temas debatidos em múltiplas comissões e em atividades autogestionadas. É indubitável que esse sucesso é resultado de termos estabelecido como objetivo comum forjar uma convergência internacional que enfrente as extremas direitas que pululam pelo mundo. Objetivo compartilhado por diferentes partidos e movimentos sociais do Brasil e organizações internacionais como o CDTM, a IV Internacional, o Jubileu Sul e a Fundação Rosa Luxemburgo do Brasil.

De fato, do meu país participou uma numerosa delegação composta por membros de organizações anticapitalistas e outras de centro-esquerda e/ou progressistas, além de algumas personalidades de destaque do mundo intelectual.

Obviamente, acredito que é preciso dar continuidade à Conferência; assim também entendeu o Comitê Internacional, que decidiu promover duas atividades, uma no México e outra na Argentina; veremos em que momentos elas poderão ser realizadas. A decisão está tomada e é uma obrigação realizá-las.

Notas

  1. São signatários destas Cartas Abertas o intelectual Ariel Petruccelli, o conhecido dirigente docente rosarino Juan Pablo Casiello e os já veteranos lutadores pela revolução e pelo socialismo Aldo Casas e Eduardo Lucita. ↩︎
  2. A FIT-U (Frente de Izquierda y de los Trabajadores – Unidad) é uma coalizão eleitoral da esquerda radical argentina. ↩︎
  3. O PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas), o MST (Movimiento Socialista de los Trabajadores) e a IS (Izquierda Socialista) são organizações políticas da FIT-U.  ↩︎
  4. Grabois é líder de um campo progressista do peronismo muito ligado a setores da Igreja Católica. ↩︎

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