O futuro do Espírito Santo é a gente que faz, mas o presente não pode continuar igual
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O futuro do Espírito Santo é a gente que faz, mas o presente não pode continuar igual

Quais interesses precisam deixar de governar o presente para que o Espírito Santo possa mudar de verdade?

Ricardo Nespoli 10 jun 2026, 16:29

Foto: Helder Salomão, candidato do PT ao governo do Espírito Santo. (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

A pesquisa do instituto Real Time Big Data divulgada nesta segunda-feira (9 de Junho) traz um dado que deveria preocupar os setores que apostam na construção de uma alternativa de esquerda para o governo do Espírito Santo.

Enquanto Ricardo Ferraço (MDB) consolida sua posição na disputa e amplia seu reconhecimento junto ao eleitorado, a candidatura de Helder Salomão (PT) segue praticamente estagnada.

Numa pesquisa anterior, em Março, Helder aparecia com 8% das intenções de voto nos cenários estimulados. Na mais recente, divulgada em Junho, chegou a 10%. A variação existe, mas é pequena diante do crescimento dos principais adversários. O dado mais significativo está na pesquisa espontânea. Ricardo Ferraço dobrou sua presença, saindo de 5% para 10%. Lorenzo Pazolini (Republicanos) permanece competitivo. Helder continua em 1%.

E isso revela uma questão política que não pode ser ignorada.

O eleitorado capixaba ainda não enxerga Helder como candidato ao governo e talvez isso não aconteça por acaso.

Para atestar isso podemos observar a comunicação da pré-campanha. Nas últimas semanas, as redes sociais de Helder foram ocupadas por agendas partidárias, atividades de mandato, defesa do governo Lula e críticas ao bolsonarismo. Nada disso é ilegítimo. Pelo contrário. Mas o problema não está no que aparece e sim no que não aparece.

Onde está o debate sobre o modelo de desenvolvimento que organiza o estado há décadas? Onde está a discussão sobre a concentração fundiária? Sobre o peso dos grandes grupos econômicos na definição das políticas públicas? Sobre a influência permanente do Espírito Santo em Ação nas prioridades dos sucessivos governos? Sobre os conflitos ambientais, a crise habitacional, a precarização do trabalho e a ausência de participação popular nas grandes decisões do estado?

São justamente esses temas, e outros, que deveriam diferenciar uma candidatura de esquerda das alternativas apresentadas por Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini.

Existe uma contradição que merece atenção.

O slogan utilizado na pré-campanha afirma que “o futuro do Espírito Santo é a gente que faz”. Mas o próprio Helder tem repetido que sua candidatura representa a continuidade das conquistas dos últimos 24 anos, combinada com mudanças e inovações.

Mas a tentativa de combinar continuidade e mudança produz uma pergunta inevitável.

Se o problema está no futuro, qual é o problema do presente?

Ou, dito de outra forma: se os últimos 24 anos foram tão bem-sucedidos, por que o Espírito Santo precisaria de uma candidatura própria do PT e da esquerda ao governo?

Essa não é uma questão secundária pois toca diretamente o sentido político da candidatura.

O PSOL decidiu apoiar Helder Salomão porque enxergou nele algo diferente da simples continuidade do ciclo político organizado por Paulo Hartung e Renato Casagrande. O apoio também não nasceu da necessidade de construir apenas um palanque para Lula no Espírito Santo. Se fosse esse o objetivo, haveria inúmeros caminhos mais simples.

O apoio nasceu porque a trajetória de Helder está ligada aos movimentos sociais, ao MST, às pastorais sociais, às lutas por moradia, à agricultura familiar e aos setores organizados da classe trabalhadora capixaba. Havia, e ainda existe, a expectativa de que essa história pudesse se transformar em uma candidatura capaz de apresentar outro projeto para o estado.

Pela primeira vez em mais de duas décadas, o Espírito Santo não vive uma eleição pautada pelo tradicional revezamento entre Paulo Hartung e Renato Casagrande. A abertura desse novo cenário criou condições para que a esquerda apresentasse uma alternativa própria ao Palácio Anchieta.

Mas uma alternativa não se constrói apenas pela trajetória de seu candidato. Ela precisa aparecer no discurso, nas prioridades e nos conflitos que escolhe enfrentar.

Recentemente escrevi que Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini parecem representar duas entradas diferentes para o mesmo condomínio. As diferenças existem e são reais, mas ambos orbitam os mesmos limites econômicos e sociais que organizam a política capixaba.

Helder surgiu como a possibilidade de discutir quem construiu os muros desse condomínio.

Mas, até agora, sua campanha parece mais preocupada em explicar como pretende administrar melhor alguns apartamentos e é aí que está uma das principais razões para sua dificuldade de crescer.

Uma candidatura de esquerda não se fortalece apenas por representar um campo político distinto. Ela cresce quando consegue convencer a sociedade de que existem problemas que ninguém mais está disposto a enfrentar.

O Espírito Santo continua sendo um estado marcado por profundas desigualdades regionais, pela concentração econômica, pela influência desproporcional das elites empresariais e agrárias na definição das políticas públicas e pela dificuldade de participação popular nos rumos do desenvolvimento.

Se a esquerda pretende disputar o governo, precisa falar sobre isso porque, no fim das contas, a pergunta mais importante não é quem fará o futuro.

A pergunta é outra.

Quais interesses precisam deixar de governar o presente para que o Espírito Santo possa mudar de verdade?


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