Dupla jornada pesa no bolso das mulheres
Pesquisa da Serasa mostra que trabalho remunerado somado às responsabilidades domésticas dificulta o planejamento financeiro feminino e amplia a vulnerabilidade ao endividamento
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
A desigualdade de gênero também se reflete nas finanças. Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, revela que a combinação entre jornada de trabalho remunerada, responsabilidade pela administração da casa e renda insuficiente torna muito mais difícil para as mulheres organizar o orçamento e construir uma reserva financeira.
O levantamento mostra que 81% das brasileiras não possuem reserva de emergência para enfrentar imprevistos. Apenas 19% afirmam ter algum dinheiro guardado, percentual bem inferior aos 32% registrados entre os homens. A diferença também aparece na capacidade de equilibrar as contas: somente 17% das mulheres conseguem pagar todas as despesas do mês e ainda economizar, contra 29% dos homens.
Embora homens e mulheres demonstrem preocupação semelhante com as finanças, as dificuldades enfrentadas por elas são maiores. Para 45% das entrevistadas, quitar dívidas atrasadas é a principal preocupação financeira, índice ligeiramente superior ao dos homens (43%). O cenário acompanha o crescimento da inadimplência feminina. Segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa, referente a maio de 2026, as mulheres já representam 50,5% dos consumidores inadimplentes no país. Em um ano, a inadimplência entre elas aumentou 9,2%, acima dos 7,8% registrados entre os homens.
Para a especialista da Serasa em educação financeira, Aline Vieira, a sobrecarga de responsabilidades ajuda a explicar essa diferença. “Os dados mostram que muitas mulheres ainda concentram seus esforços em conseguir fechar o orçamento do mês, o que faz com que o planejamento financeiro de longo prazo fique em segundo plano”, afirma. Segundo ela, muitas brasileiras acumulam a gestão das despesas da casa com a jornada de trabalho, tornando ainda mais difícil dedicar tempo e recursos à organização financeira.
A pesquisa também mostra que a dificuldade não decorre da falta de controle sobre os gastos. Mais da metade das mulheres (55%) afirma acompanhar todas ou a maior parte das despesas do dia a dia, percentual relativamente próximo ao dos homens (65%). O problema central está na insuficiência da renda: 30,3% das entrevistadas apontam que o dinheiro simplesmente não é suficiente para cobrir as despesas mensais, enquanto entre os homens esse percentual é de 21,5%.
O estudo evidencia como desigualdades estruturais do mercado de trabalho e a divisão desigual das tarefas domésticas afetam diretamente a autonomia financeira feminina. Com menor capacidade de poupança, muitas mulheres ficam mais expostas à necessidade de recorrer ao crédito para enfrentar despesas inesperadas, aprofundando o ciclo do endividamento.
O contexto econômico agrava esse quadro. Em abril de 2026, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 80,9%, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cartão de crédito permanece como a principal modalidade de endividamento, presente em mais de 83% dos casos monitorados, enquanto o número de inadimplentes no país já supera 74 milhões de pessoas, segundo dados da CNDL e do SPC Brasil.
Realizada entre os dias 5 e 18 de maio com 1.050 entrevistas online em todo o país, a pesquisa reforça que a educação financeira, embora importante, não elimina os obstáculos enfrentados pelas mulheres. Sem renda suficiente e sobrecarregadas pela dupla jornada, elas encontram mais barreiras para construir segurança financeira e enfrentar imprevistos sem recorrer ao endividamento.