A realidade é o capitalismo e o capitalismo é a realidade, não é assim?
A ideia de que “o mundo tem de ser assim” tornou-se quase instintiva sob o senso comum, funcionando quase como o fim do pensamento coletivo. É precisamente esse “fim da história” que Mark Fisher denomina de “realismo capitalista”
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Via Esquerda.net
Não há alternativa! Assim se apresenta a realidade material sob o domínio capitalista, a ideia de que “o mundo tem de ser assim” tornou-se quase instintiva sob o senso comum, funcionando quase como o fim do pensamento coletivo. É precisamente esse “fim da história” que Mark Fisher denomina de “realismo capitalista”; a crença de que o capitalismo não é apenas dominante mas também inevitável, o único horizonte imaginável. A hegemónica ideologia do inamovível não se impõe apenas pela esfera económica e judicial como advertem os demais teóricos marxistas. Ela captura o livre arbítrio intelectual e transforma-o em imediatismo cultural.
O realismo capitalista como ideologia do inamovível
O realismo capitalista não deve ser apenas lido como uma doutrina política explicita. A sua eficácia encontra-se precisamente no facto de operar de forma difusa, quotidiana e quase invisível. Ele manifesta-se quando a exploração é apresentada como mérito, quando a precariedade é tratada como flexibilidade e quando a competição capitalista generalizada é descrita como liberdade individual.
A força desta ideologia reside na sua capacidade de transformar uma ordem histórica e contingente numa aparência de natureza. O capitalismo deixa de ser visto como uma organização social especifica, com origem, contradições e crises sistemáticas, e passa a ser encarada como o único modo possível de organizar a vida, assim a própria crítica é frequentemente absorvida pelo sistema. É nesse sentido que Fisher remete-nos ao “fim da história” de Fukuyama vivido nos espaços culturais. Não porque os antagonismos tenham desaparecido, mas porque o campo do possível e do imaginável foi drasticamente estreitado. O futuro deixa de aparecer como abertura e passa a surgir como arte pastiche em que ilusoriamente abraçamos esta repetição desagrada do presente com maior ternura e carinho. O problema já não é apenas a dominação material, é a incapacidade produzida de imaginar uma saída.
Colonização do desejo
No centro de tudo isto está a colonização do desejo. O que Fisher propõe é reabrir o espaço de um desejo coletivo que não seja imediatamente capturado pelo mercado: voltar a imaginar futuros, reorganizar necessidades, reconstruir laços e projetos comuns. Isso exige regressar à consciência de classe: entender como o capital nos prende não só pelo salário, mas pela cultura, pelas emoções e pelas interpretações que fazemos do mundo.
A tarefa urgente, portanto, não é apenas a de propor novos programas económicos, mas a de travar uma batalha no plano do simbólico e do afeto. Trata-se de desbloquear o futuro, de reabrir o horizonte do pensável. Isto exige um “rearmamento ideológico” que passe por uma crítica implacável aos mecanismos culturais do realismo capitalista e pela tentativa de construir, como Fisher propunha, “novas formas de desejo” coletivo. É necessário resgatar a consciência de classe não como um dado sociológico, mas como uma conquista psíquica e política contra a alienação, um processo de reconhecer no sofrimento individual uma condição estrutural partilhada. A utopia deixa de ser um mapa detalhado de um futuro idealizado e torna-se uma função crítica no presente: a capacidade de negar radicalmente o que é, em nome do que poderia ser. Sem esta dimensão utópica, que o realismo capitalista sistematicamente extingue, a esquerda continuará a gerir a miséria, incapaz de a superar. A luta é, em última análise, pela reapropriação do tempo, da imaginação e do desejo, uma luta pela própria possibilidade de um futuro pós-capitalista.
Ainda assim, o capital põe em marcha uma estrutura de repressão absoluta e sem precedentes, que submete o trabalhador por todos os lados e que tem como objetivo minar a possível consciencialização e a subsequente organização política. Qual é a chave para lidar com este contexto, segundo Fisher? Atacar o realismo capitalista.
O pessimismo é normalizado e o imobilismo é justificado por pura lógica: qual é o sentido de tentar mudar as coisas se, no fim, nem sequer conseguimos propor alternativas políticas para o futuro? Perante este cenário, é “lógico” que a ansiedade e a depressão se instalem sobre nós em abundância. Não é por acaso que esta é a doença do nosso tempo: um sintoma coletivo do que a alienação pode provocar. Um sintoma que, além disso, é difícil de reconhecer como social, porque o realismo capitalista atomiza a nossa capacidade de análise, fazendo-nos ver tudo através de uma individualidade exacerbada, uma espécie de prisão ilusória que nos dificulta a compreensão das estruturas sociais que nos subjugam.
Este tipo de colonização do desejo é aquilo que Fisher quer atacar, promovendo um desejo coletivo para além do capitalismo. Isso exige uma transformação na forma como pensamos e sentimos, bem como nas estruturas sociais e económicas que nos rodeiam. Para essa tarefa, é necessário um regresso à consciência de classe: compreender como funciona o nosso desejo; perceber de que modo a classe trabalhadora está presa dentro do capital; entender como o prazer e até o sofrimento nos ligam inconscientemente a este sistema; ver como o ressentimento é usado contra nós, estruturando uma consciência anti classe em que uma identidade rígida, nacionalista e racial é mobilizada pelo neoliberalismo para que percebamos o nosso sofrimento de forma atomizada, colocando o rótulo de inimigo ou concorrente ao lado de quem partilha os mesmos traços nas relações sociais. Fisher retrata assim, cirurgicamente todas aquelas pequenas metástases que destroem a nossa consciência e que, por sua vez, abrem uma estrada acessível para a reação, a luta interna, a desorientação e o fascismo.
Ansiedade, depressão e sofrimento social
O realismo capitalista produz uma forma específica de sofrimento psíquico. A ansiedade e a depressão não podem ser compreendidas apenas como problemas individuais desligados das condições sociais. Embora tenham dimensões clínicas reais e devam ser tratadas com seriedade, elas são também sintomas de uma organização social que atomiza, precariza e isola.
O capitalismo tardio transforma contradições estruturais em falhas pessoais. Se alguém está exausto, é porque não gere bem o tempo. Se está desempregado, é porque não se adaptou. Se está deprimido, é porque não trabalhou suficientemente em si mesmo. Se está ansioso, é porque não desenvolveu as competências emocionais certas.
Esta individualização do sofrimento é uma das operações ideológicas mais eficazes do realismo capitalista. Ela impede que o sujeito relacione a sua dor com estruturas sociais mais amplas: trabalho alienado, endividamento, precariedade, isolamento, competição, crise habitacional, destruição ecológica e ausência de futuro.
A patologização da miséria e da infelicidade torna-se, assim, funcional ao sistema. O sofrimento é tratado como problema privado, quando muitas vezes revela uma contradição social: o conflito entre o potencial emancipatório existente e a clausura subjetiva imposta pelo realismo capitalista.
Esfera pública, opinião pública e manipulação afetiva
A esfera pública, que poderia ser um espaço de debate racional e formação de vontade coletiva, é progressivamente capturada pela lógica mercantil e espetacular. A opinião pública deixa de funcionar como construção democrática e passa a ser organizada como um conjunto de afetos manipuláveis: medo, ressentimento, nostalgia, indignação e insegurança.
Neste contexto, os meios de comunicação, as redes sociais, a publicidade e a indústria cultural não transmitem apenas conteúdos. Produzem disposições emocionais. Um anúncio promete segurança se comprarmos o dispositivo certo. Um programa televisivo transforma a imigração num problema permanente. Uma campanha política sugere que a ameaça principal não é material, mas identitária: “está em jogo quem nós somos”.
O efeito é previsível. Em vez de organizar a classe trabalhadora em torno dos seus interesses comuns, o capitalismo empurra-a para um estado contínuo de vigilância, medo e competição em prol do lucro do grande capital. A esfera pública deixa de ser o espaço onde se torna visível a estrutura da exploração e passa a ser o espaço onde se multiplicam culpados substitutivos.
Assim, a “opinião pública” torna-se cada vez menos uma opinião formada por deliberação coletiva e cada vez mais uma massa de reações afetivas produzidas, orientadas e exploradas por aparelhos mediáticos e mercantis.
No capitalismo tardio, estes mecanismos são sistematicamente mobilizados contra a própria classe trabalhadora. O ressentimento social, produzido pela precariedade, pela exploração, pela perda de tempo, pela insegurança e pela ausência de futuro, é desviado para figuras substitutivas: o trabalhador imigrante, o movimento feminista, o movimento antirracista, os beneficiários de apoios sociais ou as minorias historicamente oprimidas.
Deste modo, o neoliberalismo alimenta uma falsa consciência de classe. Em vez de reforçar a perceção dos interesses comuns dos trabalhadores, substitui-a por identidades defensivas, rígidas e reacionárias. A identidade de classe é trocada por uma identidade nacionalista, racializada, patriarcal ou chauvinista. A solidariedade é substituída pela suspeita. O conflito vertical entre classes é convertido em conflito horizontal entre explorados.
A neutralização das alternativas culturais
Outro mecanismo decisivo do capitalismo é a sua capacidade de absorver e neutralizar expressões culturais alternativas. Movimentos artísticos, estéticos ou políticos que nascem para imaginar outros mundos são frequentemente capturados pela lógica do mercado, transformados em estilo, tendência, mercadoria ou performance individual.
A maquinaria neoliberal age como um parasita: apropria-se da superfície da crítica, esvazia o seu conteúdo transformador e devolve-a ao público como consumo. Mantém-se a aparência da novidade, mas elimina-se a sua força negativa. O que antes era contestação torna-se moda. O que antes era insurgência torna-se nicho de mercado. O que antes era comunidade torna-se identidade comercializável.
Esta apropriação cultural contribui para a derrota do imaginário emancipatório. O capitalismo demonstra uma enorme plasticidade: não precisa destruir frontalmente todas as alternativas; muitas vezes basta integrá-las. Ao absorvê-las, retira-lhes a capacidade de romper com a ordem existente.
É por isso que a derrota da esquerda diagnosticada por Fisher não é apenas uma derrota política ou eleitoral. É uma derrota no plano do desejo, da linguagem, da cultura e da imaginação. O capitalismo não venceu apenas porque controlou fábricas, bancos ou parlamentos; venceu também porque reorganizou aquilo que as pessoas consideram desejável, realista e possível.
Escassez artificial, tempo e repressão no capitalismo tardio
Uma das contradições mais profundas do capitalismo tardio está na coexistência entre potencial abundância tecnológica e escassez socialmente produzida. O desenvolvimento técnico permitiria, em muitos domínios, trabalhar menos, distribuir melhor os recursos e libertar tempo para a vida coletiva, o cuidado, a criação e o descanso. No entanto, o capitalismo produz uma escassez artificial de tempo, energia e futuro.
O trabalhador contemporâneo vive frequentemente submetido a uma pressão permanente: falta tempo, falta descanso, falta estabilidade, falta imaginação para o futuro. Mesmo quando a produtividade aumenta, a vida não se torna necessariamente mais livre. Pelo contrário, a intensificação do trabalho, a precariedade, a conectividade permanente e a competição generalizada prolongam a lógica laboral para quase todos os momentos da existência.
Fisher chama atenção para este paradoxo: a repressão no capitalismo tardio já não precisa de uma grande justificação moral ou material. Noutras épocas, a renúncia era justificada pela escassez. Hoje, mesmo perante capacidades tecnológicas sem precedentes, a repressão mantém-se e intensifica-se. Ela torna-se, em certo sentido, repressão pela repressão: uma organização social que limita o tempo, a imaginação e a ação coletiva para impedir que a possibilidade de outro mundo se torne politicamente concreta.
A escassez de tempo é, assim, uma das formas centrais de dominação. Um sujeito exausto, ansioso e permanentemente ocupado tem menos condições para pensar, organizar-se e agir coletivamente.
Rearmamento ideológico e reconstrução da consciência de classe
A tarefa central, segundo Fisher, é atacar o realismo capitalista. Isto exige mais do que programas económicos, embora estes sejam indispensáveis. Exige uma batalha no plano simbólico, cultural e afetivo. É necessário reconstruir formas de desejo coletivo que escapem à captura mercantil e permitam imaginar vidas para além da competição, do consumo e da precariedade.
A consciência de classe não deve ser entendida como um dado automático. Não basta pertencer objetivamente à classe trabalhadora para possuir consciência dos seus interesses históricos. A consciência de classe é uma conquista política, psíquica e cultural contra a alienação.
Reconstruí-la implica ligar experiências pessoais a estruturas sociais. Implica perceber que o sofrimento individual pode ter causas coletivas. Implica compreender que o imigrante, a feminista, o trabalhador racializado, a pessoa pobre ou a minoria oprimida não são inimigos da classe trabalhadora, mas frequentemente expressões diferentes da mesma estrutura de exploração e exclusão.
O rearmamento ideológico passa, portanto, por desmontar a engenharia do ressentimento. O neoliberalismo oferece identidades rígidas para explicar dores produzidas socialmente. Oferece culpados próximos para esconder causas estruturais. Oferece competição entre iguais para impedir solidariedade entre explorados.
Contra isso, é preciso reconstruir laços, organizações, linguagens e práticas capazes de transformar a frustração em consciência e a consciência em ação coletiva.