Sobre a recente pesquisa eleitoral de SP: Tarcísio não é um Júpiter
Em São Paulo, o governador mantém índices altos de avaliação, porém não é um “Júpiter”, como os próprios resultados da pesquisa indicam
Foto: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Saiu a primeira pesquisa de intenção de votos para a disputa do governo de São Paulo. Pouco menos de cem dias nos separam da eleição do começo de outubro e o cenário nacional polarizado também incide na disputa paulista. Contudo, é preciso buscar a dinâmica mais própria da disputa, onde Tarcísio larga na frente.
Favorito para vencer, garantindo sua reeleição, Tarcísio navega entre duas dimensões: é uma aposta de um setor da burguesia para um projeto de extrema direita sem o clã Bolsonaro; e de outra parte, é o desaguadouro da crise que explodiu rapidamente o PSDB e o chamado tucanato em SP.
São Paulo, já definimos em outras ocasiões, é portanto um laboratório da extrema direita. Sendo também a mais importante disputa estadual da federação brasileira, algo parecido ao que na Argentina se confere à província de Buenos Aires, tida como a “mãe de todas as batalhas”, no sentido político e eleitoral. Aqui se concentram quase 35 milhões de eleitores, quase 22% do padrão nacional.
Alguns anos atrás, Macron usou o termo “Júpiter” para se referir como um governante forte, acima das disputas menores, como imagem que ele mesmo se autorreferenciava. A analogia era ao mais importante deus da mitologia romana, como acima do bem e do mal. O resto da história sabemos, Macron se mostra um governo débil numa França fraturada.
Em termos de São Paulo, Tarcísio mantem índices altos de avaliação, porém não é um “Júpiter”, como os próprios resultados da pesquisa indicam.
O que dizem os números
Com a saída de candidatos como Kim Kataguiri e Paulo Serra, Tarcísio navega sozinho no canto direito da conjuntura. Ele mantém 45% da aprovação positiva, que replica 46% nas intenções de voto. Se as eleições fossem hoje, venceria “raspando” no primeiro turno, com 52% dos votos válidos.
Haddad tem 30% dos votos. Conta ele pesa uma alta rejeição com 47%, quando Tarcísio tem 29%.
Chama atenção para a intenção de votos à esquerda do PT, quando a soma dos candidatos chega a 13%, nas candidaturas do PSTU, UP e PCB.
A pesquisa mostra a força de Tarcísio, mas também aponta os limites. Se somados os votos da oposição e do governo, a diferença não é tão grande assim. Ou seja, o cenário está em aberto: Tarcísio pode ampliar sua vantagem, mas a luta política pode levar a um segundo turno, fato que seria central para a disputa política mais geral.
A questão fundamental é construir o espaço da oposição para barrar Bolsonaro e travar Tarcísio, levando a disputa para o segundo turno no maior colégio eleitoral do país.
É improvável que as candidaturas situadas à esquerda de Haddad mantenham na campanha à intenção de voto apresentadas nessa primeira pesquisas pelos seguintes elementos: [a] polarização nacional vai entrar cada vez com mais força no cenário estadual; [b] as draconianas e injustas leis eleitorais cada vez mais tiram espaço dos partidos da extrema esquerda, seja de tempo de TV, participação em debate ou em condições materiais; [c] a incapacidade política dessas três forças em se colocar de acordo, bancando uma única candidatura e um programa, tema que joga a favor da dispersão e da fragmentação, mostrando a impotência na tarefa de construir um polo.
O PSOL poderia ter cumprido esse papel, visto que tem expressado uma força capaz de arrastar setores importantes do ativismo. A condição da maioria do PSOL em SP, que veremos mais adiante, é “sui generis”, onde a direção partidária não expressa mais a relação de forças – que está em movimento. Agora o desafio é construir dentro das condições que estão dadas.
De toda forma, com essas considerações, os números mostram que existe espaço para ideias de esquerda, renovadas, combativas.
Tarcísio pode, mas não pode tudo
Tarcísio testa os limites de seu programa: privatizações, destruição ambiental, brutalidade policial.
Mas cresce sua rejeição, também fruto das lutas moleculares que tivemos nos últimos meses. A principal foi a greve das universidades estaduais paulistas, colocando a pauta da educação na ordem do dia, tendo como ápice a marcha estadual que levou milhares às ruas e chegou ao Palácio dos Bandeirantes.
Tarcisio não é o “Júpiter” todo-poderoso, apresentando recuos e não tendo a vitória dada que gostaria, já num primeiro turno. Vejamos o quanto se esforçou para apresentar inaugurações “midiáticas”. Prova disso, foi entregar a linha Laranja do metrô sem que esteja pronta, com apenas algumas estações funcionando, em horários limitados. Ou a inauguração do hospital veterinário da Zona Leste, no mesmo estilo, seguindo o roteiro de “entregar” obras inacabadas.
O debate acerca da privatização que começou com a SABESP e CPTM, chegando ao Metrô, toca o conjunto da sociedade. E podemos e devemos intensificar esse debate, no terreno eleitoral e para além dele. Outro tema será a questão do financiamento da educação, com as universidades estaduais sob constante ataque. A militarização das escolas, a precarização e os ataques à educação básica também foram parte do itinerário. Assim como a crítica à repressão policial, que também estará representada na campanha conservadora de Derriti para o Senado.
O editorial da Folha, de 06 de Julho, indica o desafio:
A pesquisa traz um cenário complexo para Haddad. O ex-ministro foi novamente chamado a cumprir uma missão para seu líder, Lula (PT)- no caso a repetição de um desempenho que leve a disputa para o segundo turno.
Tarcísio tem contra si a resistência de amplos setores – como visto nas greves do primeiro semestre. Terá que explicar a crise de legitimidade do discurso a favor das privatizações, que começa a ser exposta, com acidentes como o da SABESP, com a precariedade dos serviços públicos; e enfrentará condições ambientais adversas, como se está prevendo com o “super El Niño”, que levará a questão climática ao centro do debate.
Um segundo turno é necessário e possível
O cenário para a disputa está em aberto. A existência de um segundo turno é crucial. Por um debate tático, onde uma eventual vitória de Tarcísio em primeiro turno pode pesar para a disputa na campanha presidencial de um segundo turno, onde é possível que Flávio e Lula tenham uma disputa renhida. Uma vitória em primeiro turno faria do Palácio dos Bandeirantes um bunker contra Lula nas três semanas mais importantes do processo eleitoral.
Do ponto de vista estratégico, Tarcísio vencendo com larga vantagem se gabarita para ir “além” na relação de forças; tendo um segundo turno, Tarcísio terá uma maior “trava”, colocando em questão a “hegemonia profunda” do seu projeto. As batalhas sobre privatização, repressão policial e mesmo sobre o papel das Universidades e da educação como um todo serão dadas para além das urnas.
Portanto, faz toda a diferença chegarmos a um segundo turno no estado. E isso significa investir energia e política para fazer valer o peso que a oposição tem em relação a Tarcísio. Uma campanha à quente, se valendo das últimas lutas em curso é o caminho para evitar que Tarcísio dispare e faça do favoritismo uma espécie de “já ganhou” que desmobilize a possibilidade de disputa da oposição.
A favor do PSOL
O PSOL passa por importantes metamorfoses, a partir das posições que Boulos e sua corrente tiveram no último período. Começou com a entrada de Boulos no governo, na contramão da resolução votada por ampla maioria no começo de 2023, chegando no ápice da “crise” durante o debate sobre a federação partidária, que terminou com o rechaço da federação com PT. A tendência é que uma parte desse setor saia do PSOL após as eleições, mudando o cenário interno, especialmente em São Paulo, onde concentra um peso importante em termos de influência e posições na direção estadual partidária.
Contudo, mesmo diante dessas turbulências, o PSOL se fortaleceu com a chegada de novas lideranças em todo país, com seu destaque nas agendas centrais do país, como a luta contra a escala 6×1 e com o primeira linha do enfrentamento à direita.
No estado de São Paulo, figuras e referências do PSOL, se colocaram a frente das principais lutas, como foi o caso de Samia na USP, o mandato de Monica da Pretas na Alesp, Mariana Conti na Unicamp, para falarmos das lutas mais importantes do último período.
É destacada a presença de lideranças do PSOL nas diversas regiões, tendo as vereadoras mais votadas do ABC, como Bruna Biondi, da região de Sorocaba, como Fernanda Garcia, ou de Santos, como Debora Camilo, além de Jéssica em São José dos Campos, coração do Vale do Paraíba; a oposição vigorosa que o PSOL faz a Ricardo Nunes na capital, onde uma importante greve teve lugar no primeiro semestre, com parte do ativismo referenciada por militantes do PSOL na categoria dos professores do município e o destaque da combativa bancada do PSOL, esse ano liderada por Luana Alves.
O PSOL está presente na cabeça de sindicatos centrais, como o de Metroviários e dos Professores, além de ser uma força viva dentro do movimento estudantil, sendo a força mais importante do DCE da principal universidade do país, a USP, há mais de duas décadas, com altos e baixos.
O espaço à esquerda deve ser ocupado com o PSOL, mantendo seu perfil programático próprio, com suas bandeiras centrais, votando de forma crítica por Haddad, aproveitando o espaço da campanha de Marina ao Senado. Marina, com suas conhecidas contradições, vai aparecer como a representante da Federação PSOL-Rede para o movimento de massas, com sua trajetória e agenda dando relevância à pauta ambiental, onde nós que somos ecossocialistas devemos estar para abrir diálogo com milhares de simpatizantes de suas propostas, mesmo difusas.
Dessa forma, vocalizando essas lutas o PSOL estará habilitado para ajudar a empurrar a eleição para o segundo turno, politizar a necessidade de Lula como contenção dos Bolsonaro e ampliar nossa bancada federal e estadual, com centralidade na defesa da mobilização e de um programa alternativo.