Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada
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Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada

Para enfrentar a catástrofe climática, acelerada pelo negacionismo neofascista, o freio de emergência está na luta e na mobilização de maioria social

Israel Dutra 16 jul 2026, 19:11

Foto: Centro de Porto Alegre durante as grandes inundações de 2024. (Wikimedia Commons/Reprodução)

O Brasil deverá enfrentar um fenômeno climático sem precedentes com a chegada, no segundo semestre, do que os meteorologistas apelidaram de “Super” El Niño.

Tomando dados do Centro de Previsão Climática (CPC), do órgão responsável pela previsão oceânica e atmosférica do Estados Unidos (NOAA), a probabilidade do El Niño se enquadrar na categoria “muito forte” é de 81%. Ou seja, cientificamente, estão dadas as condições para um dos maiores eventos climáticos do século, com fortes desdobramentos no Brasil.

Parece estranho que, num cenário onde o debate pré-eleitoral já domina a situação, pouco ou nada se discute em relação ao que fazer diante desse cenário.

Estamos diante de gravíssimos eventos climáticos ao redor do Planeta. Cabe um debate mais sério sobre a centralidade da pauta ambiental em geral, e dentro da esquerda, sobre uma saída Ecossocialista tendo em vista o debate programático e eleitoral programado.

Alertas e freio de emergência

Chamou atenção a capa da Folha de São Paulo do domingo, 12 de julho. A manchete alertava para uma grande dificuldade na pecuária, um provável atraso no plantio de grãos, atrapalhando e reduzindo a safra. A ameaça combinaria as chuvas excessivas na região sul, condenando o plantio de trigo, com as ondas de calor no Centro-Oeste, debilitando a soja, que tem o plantio previsto para o intervalo entre setembro e dezembro.

O alerta de setores importantes da imprensa, dos governos e da esfera da ciência, não pode ser minimizado. Os efeitos sobre a Europa são devastadores. A maior onda de calor da história recente do continente europeu traz mortes e desastres, como o que ocorreu no incêndio que gerou 13 mortes no sul do Estado Espanhol. O Brasil conheceu o desastre climático que assolou o Rio Grande do Sul em 2024. Apenas dois anos nos separam do verdadeiro trauma vivenciado pelo povo gaúcho, com centenas de vítimas fatais, dezenas de milhares atingidos, cidades inteiras destruídas.

O que é traz mais preocupação é que a extrema direita segue defendendo um programa negacionista, o que não só evita uma perspectiva de previsão e adaptação aos eventos, como acaba sendo um multiplicador de impactos, sobretudo em relação aos mais pobres. Esse debate será incontornável na eleição de outubro, pelo peso de massas que tem o bolsonarismo e seus diversos candidatos Brasil afora.

O super El niño e as eleições

A grande questão é o papel que o agronegócio tem na economia nacional. A um só tempo, ele é um dos principais responsáveis pela devastação que causa o profundo desequilíbrio ambiental e diante do El Niño buscará reparação com pesados investimentos públicos.

Como base de apoio para os setores mais reacionários da política, o agro se reproduz às expensas do meio ambiente e dos interesses da maioria da população. Portanto, não há outra saída senão romper com o modelo agroexportador que nos levou ao atual beco sem saída.

Nas eleições, tanto o negacionismo bolsonarista quanto a linha auxiliar do “centrão”, convocados pela coalizão da bancada BBB- Boi, Bíblia e Bala- vão defender fielmente os interesses do agro. De outra parte, o PT e partidos que são parte do governo cedem e rebaixam suas agendas para buscar supostamente mais dividendos eleitorais.

É necessário mudar a matriz da produção alimentar e construir outro paradigma como modelo econômico que garanta a soberania alimentar do conjunto da população brasileira. A melhor forma de encarar o El Niño é combinar uma linha de adaptação, tanto nos meios rurais, mas sobretudo nas cidades, com a luta pela mudança geral de modelo.

A defesa da água, por exemplo. Enquanto são instalados dezenas de Datacenters, consumidos pela lógica da mineração e do “extrativismo de dados”, o estado de São Paulo, para ficarmos apenas em um exemplo, corre o risco de enfrentar um novo racionamento diante os eventos climáticos previstos para o segundo semestre.

Um programa para o presente e para o futuro

O PSOL tem um enorme desafio. É visto, junto com sua federação com a Rede Sustentabilidade, por centenas de milhares de pessoas como o Partido capaz de encarar sem medo a discussão ambiental, levando para o centro da agenda política a necessidade de uma profunda mudança. Esse desafio terá lugar nas próximas eleições.

Uma mudança que suporte o questionamento do modelo de “desenvolvimento”, bancando a necessidade de retomar a reforma agrária, revertendo o sentido da atual produção alimentar. Assim é, que o programa do PSOL, atualizado no ano passado, incorporou parte do programa do MST em relação à agenda de transição para um modelo agroecológico.

Além disso, a reestatização de empresas como a SABESP, a necessidade de um plano de emergência climática nacional e a defesa intransigente dos rios é parte fundamental do discurso imediato de nossas candidaturas e lideranças.

A recente discussão entre as Fundações do PSOL (Fundação Lauro Campos e Marielle Franco) e a da Rede sobre um programa ecossocialista para o Brasil foi um grande passo nessa direção. Para enfrentar a catástrofe climática, acelerada pelo negacionismo neofascista, o freio de emergência está na luta e na mobilização de maioria social.


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