Nicarágua: A ditadura Ortega-Murillo não nasceu da revolução
No aniversário da revolução sandinista, publicamos a opinião de uma revolucionária que diz que reconhecer que existe uma responsabilidade partilhada no surgimento da ditadura Ortega-Murillo não diminui a responsabilidade do orteguismo
Foto: Daniel Ortega, ditador nicaraguense. (Euronews/Reprodução)
Via Esquerda.Net
A cada 19 de julho regressa a mesma discussão. A ditadura Ortega-Murillo insiste em apresentar-se como herdeira da Revolução Popular Sandinista. Ao mesmo tempo, parte da oposição aceita esse relato e acaba por reforçá-lo ao afirmar que o regime atual não é mais do que a consequência lógica da revolução de 1979.
Ambas as versões estão profundamente erradas.
A ditadura que hoje oprime a Nicarágua não nasceu da Revolução. Nasceu da progressiva concentração de poder, do abandono dos princípios democráticos e da degradação ética de uma parte da direção que acabou por trair os ideais que dizia representar. A Revolução não gerou esta ditadura. Geraram-na os sete pecados capitais da política.
A memória também pode ser sequestrada.
A insurreição que culminou a 19 de julho de 1979 não foi obra exclusiva de uma vanguarda, e muito menos de um pequeno grupo de dirigentes. Foi uma rebelião nacional contra um regime que tinha esgotado toda a legitimidade. Participaram camponeses, estudantes, operários, empresários, crentes, intelectuais e cidadãos sem militância política. Milhares de jovens entregaram até a vida para a tornar possível. Como acontece com os grandes acontecimentos históricos, a Revolução só foi possível quando se tornou inevitável.
Reduzir isso à figura de Daniel Ortega constitui uma das maiores falsificações da história recente da Nicarágua. Basta observar quem protagonizou realmente a Revolução e onde está hoje. Muitos dos seus dirigentes históricos romperam com Ortega muito antes de abril de 2018. Foram perseguidos, presos, perderam a nacionalidade ou foram forçados ao exílio. Outros morreram na prisão sob a perseguição do mesmo regime que agora pretende apropriar-se do seu legado.
Rosario Murillo compreendeu há anos que a memória é também um espaço de poder. Por isso, deslocou sistematicamente os protagonistas históricos e construiu um aparelho político integrado, em muitos casos, por pessoas que nunca participaram na luta contra Somoza e até por antigos colaboradores do regime derrubado. A ironia é devastadora: quem combateu uma ditadura acabou por ser perseguido por outra que fala em seu nome.
As revoluções podem derrotar uma ditadura sem terem ainda construído uma democracia.
A Revolução de 1979 nasceu de um amplo consenso nacional e de uma participação popular extraordinária, expressa na Cruzada Nacional de Alfabetização, na saúde comunitária, na reforma agrária e num florescimento excecional da cultura, da educação, da música e da poesia. Semeou também uma cidadania muito mais ativa, que, após a derrota eleitoral de 1990, encontraria novas expressões nos movimentos feministas, ambientalistas, municipalistas e de direitos cívicos.
Nada disto significa transformar a Revolução num processo perfeito. Seria tão falso como o relato oficial. Toda a revolução tem claroscuros. Também a nicaraguense.
A sua história não pode ser analisada ignorando a guerra promovida pela administração Reagan, a agressão armada da contrarrevolução, nem as enormes tensões que o novo governo enfrentou. Mas também não podem ocultar-se os erros próprios: as violações dos direitos humanos, a repressão contra comunidades indígenas e camponesas, as restrições às liberdades públicas e, sobretudo, a crescente concentração de poder num reduzido grupo de comandantes. Talvez ai tenha começado a incubar-se uma das lições mais importantes que a história deixou por aprender.
A responsabilidade, no entanto, também não termina aí.
Depois da derrota eleitoral de 1990, a Nicarágua teve a oportunidade de construir uma democracia republicana sólida. Mas as políticas económicas que aprofundaram as desigualdades, a incapacidade de sarar as feridas da guerra e a ausência de uma verdadeira reconciliação nacional alimentaram o ressurgimento do caudilhismo sob as figuras populistas de Arnoldo Alemán e Daniel Ortega. Deve reconhecer-se, ao mesmo tempo, a vocação democrática de governos como os de Violeta Barrios de Chamorro e Enrique Bolaños, que nunca prenderam nem perseguiram os seus adversários por razões políticas.
A história demonstra que os populismos autoritários, sejam de direita ou de esquerda, prosperam quando as democracias falham em responder às necessidades da população. Foi nesse terreno fértil que Ortega reapareceu. E, uma vez iniciado esse processo, demasiados atores optaram por se acomodar.
Dezasseis anos depois, regressou à Presidência. Mas o regime que construiu já não representava a continuidade de uma revolução, mas antes o triunfo dos verdadeiros pecados que tornaram possível a nova ditadura: o caudilhismo, a corrupção, a soberba do poder absoluto, a cobiça por se perpetuar no governo, o culto da personalidade, a mentira transformada em política de Estado e a impunidade como sistema.
Nenhum desses males nasceu em 1979. Foram crescendo ao longo de décadas até desembocar no regime que hoje oprime a Nicarágua.
Os liberais e setores social-cristãos, conservadores e “contras” pactuaram. O grande capital privilegiou a estabilidade dos seus negócios. Setores importantes das hierarquias religiosas legitimaram o novo caudilho. Organismos internacionais minimizaram os sinais de deterioração institucional, e parte da comunidade internacional chegou mesmo a apresentar o modelo nicaraguense como um exemplo de governação.
Entretanto, Ortega desmontava, uma a uma, as garantias democráticas, capturava o sistema eleitoral, subordinava os restantes poderes do Estado e preparava a instauração de um regime familiar.
Por isso, é intelectualmente insuficiente afirmar que a ditadura atual é simplesmente uma consequência da Revolução.
Não.
É também consequência do pacto com Arnoldo Alemán; da fraude institucionalizada; do silêncio empresarial; das cumplicidades religiosas; da indiferença internacional; dos erros do próprio sandinismo democrático e da incapacidade coletiva de defender, a tempo, as instituições republicanas.
Reconhecer essa responsabilidade partilhada não diminui a responsabilidade do orteguismo. Explica-a. Permite compreender como uma sociedade pode perder as suas liberdades de forma gradual, até que um dia descobre que quase todas desapareceram.
A Rebelião de Abril de 2018 demonstrou, porém, que a memória democrática continuava viva. As barricadas, as marchas, a organização territorial e até antigas palavras de ordem reapareceram como expressão de uma cidadania que voltou a dizer basta. Nelas participaram jovens que não tinham nascido em 1979 e antigos sandinistas que voltaram a enfrentar outra ditadura. A luta deixou de pertencer a uma ideologia para voltar a pertencer à nação.
Talvez seja essa a maior lição da nossa história recente.
As ditaduras nem sempre surgem através de um golpe de Estado. Muitas constroem-se lentamente: concentram o poder, destroem os contrapesos institucionais, normalizam a corrupção e alimentam-se das cumplicidades e dos silêncios. É uma verdade incómoda, mas indispensável, se quisermos oferecer às novas gerações uma explicação honesta da nossa história.
A Revolução de 1979 poderá ser recordada, como disse Ernesto Cardenal, como uma revolução perdida. Outros consideram-na uma revolução traída. Talvez ambas as afirmações contenham parte da verdade. O que a história não pode aceitar é que a ditadura Ortega-Murillo seja apresentada como o seu desfecho inevitável.
As revoluções não produzem inevitavelmente ditaduras. O que as produz é a ausência de limites ao poder; a renúncia das instituições a cumprir o seu papel; o medo transformado em forma de governo; e a decisão de demasiados de se acomodarem em vez de resistirem.
Essa foi a verdadeira semente do orteguismo.
A lição para as novas gerações não consiste em renunciar aos ideais de justiça social e liberdade que mobilizaram milhares de nicaraguenses em 1979. Consiste em compreender que nenhuma causa, por mais nobre que seja, justifica a concentração do poder num só homem ou numa só família.
Porque a democracia raramente desaparece de um dia para o outro. Perde-se lentamente, cada vez que uma sociedade tolera que alguém se coloque acima da lei.
E também se recupera lentamente, quando um povo decide que o medo deixará de governar o seu destino.
No exílio, julho de 2026.