A demissão de Fedorov e o futuro da resistência ucraniana
Opor-se ao neoliberalismo do governo Zelensky não pode significar o apoio à crescente influência política do comando militar no país.
Foto: Mykhailo Fedorov, ex-ministro ucraniano da Defesa. (Redes sociais/Reprodução)
A reforma ministerial no governo ucraniano gerou debates acalorados. Muitos discutem as personalidades envolvidas: se Mykhailo Fedorov foi um ministro eficaz, se ele se tornou influente demais ou se o presidente Zelenskyy busca eliminar possíveis rivais.
Essas questões podem ser politicamente relevantes. Mas elas deixam de lado a questão mais profunda.
A verdadeira questão é que tipo de Estado a Ucrânia está se tornando sob a pressão de uma longa guerra.
O Sotsialnyi Rukh* tem criticado consistentemente a agenda neoliberal de Fedorov. Sua visão do “Estado digital” tem significado, com demasiada frequência, desregulamentação, terceirização e enfraquecimento das proteções trabalhistas, ao mesmo tempo em que celebra o empreendedorismo ao estilo do Vale do Silício. Os trabalhadores têm todos os motivos para continuar críticos em relação a esse modelo.
No entanto, opor-se ao neoliberalismo não significa apoiar a crescente influência política do comando militar.
Relatos sugerindo que o Comandante-em-Chefe desempenhou um papel decisivo na determinação da composição do governo civil devem preocupar todos os que se comprometem com a democracia. Os líderes militares são responsáveis pelas operações militares. Os governos civis devem permanecer responsáveis perante a sociedade.
O debate estratégico vai muito além de um único ministro.
A Ucrânia enfrenta duas abordagens concorrentes para uma guerra prolongada.
Uma abordagem busca compensar a superioridade numérica da Rússia por meio de uma mobilização cada vez maior, centralização mais rígida e aquisições concentradas entre um número limitado de grandes fabricantes de equipamentos de defesa.
A outra busca compensar a desvantagem demográfica da Ucrânia por meio da inovação tecnológica, produção distribuída, concorrência entre desenvolvedores, rápida adaptação e uso extensivo de drones, robótica e sistemas digitais.
Para a Ucrânia, isso não é simplesmente uma questão de doutrina militar.
A Rússia pode arcar com enormes perdas humanas. A Ucrânia, não.
Todo soldado experiente é também um trabalhador, engenheiro, professor, médico ou pai cujo conhecimento será indispensável para a reconstrução do país após a guerra. Uma estratégia de defesa bem-sucedida deve, portanto, maximizar as vantagens tecnológicas da Ucrânia e, ao mesmo tempo, minimizar perdas humanas desnecessárias.
Isso não é apenas uma necessidade militar. É uma necessidade social.
Ao mesmo tempo, a modernização tecnológica não pode se tornar mais uma desculpa para a reestruturação neoliberal. O setor de defesa deve servir à sociedade, e não a monopólios privados. A inovação deve fortalecer a capacidade pública, condições de trabalho dignas e a prestação de contas democrática — e não enriquecer uma nova geração de oligarcas ou investidores estrangeiros.
A Ucrânia precisa tanto de democracia quanto de inovação.
Precisa de controle civil sobre as forças armadas.
Precisa de modernização tecnológica sem o dogma neoliberal.
E precisa de uma estratégia que defenda não apenas as fronteiras do Estado, mas também as pessoas que terão de reconstruir o país assim que a guerra terminar.
O futuro da Ucrânia não será decidido pela escolha entre facções rivais da elite política. Será decidido pela capacidade do país de se defender, ao mesmo tempo em que preserva os alicerces democráticos e sociais que valem a pena defender.
* O Sotsialnyi Rukh (Movimento Social) é a principal organização socialista ucraniana.