O movimento juvenil das “baratas” da Índia força a renúncia do ministro da Educação
A mobilização juvenil se transformou em um movimento amplo contra a corrupção, exigindo responsabilização do governo autoritário de direita
Foto: Protesto estudantil em Nova Déli. (Arun Sankar/GI)
O movimento juvenil conhecido como cockroach (“barata”) conseguiu agora forçar a renúncia do ministro da Educação da Índia. O que começou como uma mobilização de protesto voltada para uma única pauta transformou-se em um dos maiores desafios enfrentados por Narendra Modi desde que chegou ao poder.
Os protestos estudantis na Índia têm origem em uma página satírica nas redes sociais chamada Cockroach Janta Party (CJP). O ativista Abhijeet Dipke criou a página em resposta a um comentário depreciativo do presidente da Suprema Corte da Índia, que comparou jovens ativistas a “baratas” por questionarem o governo.
O que começou como uma campanha online rapidamente evoluiu para um movimento nacional de protesto contra as irregularidades nos exames realizados pela National Testing Agency (NTA), especialmente o vazamento das provas do National Eligibility-cum-Entrance Test (NEET), episódio que levou muitos estudantes aspirantes ao ensino superior a cometer suicídio em todo o país.
A mobilização ganhou grande impulso quando Sonam Wangchuk, veterano educador e ativista social de Ladakh, aderiu à campanha e iniciou uma greve de fome por tempo indeterminado exigindo a renúncia do ministro da Educação da União, Dharmendra Pradhan. No sábado, 25 de julho, a campanha pôde reivindicar o mérito de ter forçado Pradhan a deixar o cargo.
Das redes sociais às ruas
Embora a mobilização inicial tivesse uma pauta única, ela se transformou em um movimento mais amplo contra a corrupção, liderado pela CJP e pela juventude, exigindo responsabilização do governo autoritário de direita do Bharatiya Janata Party (BJP). Com dezenas de milhares de estudantes respondendo ao chamado da CJP para uma marcha ao Parlamento, em Nova Délhi, no dia 20 de julho de 2026, a mobilização tornou-se um dos maiores movimentos sociais da Índia nos últimos anos.
Ela conquistou apoio de um amplo espectro de partidos de oposição, incluindo os partidos de esquerda, além de figuras públicas e celebridades. O movimento também atraiu significativa atenção internacional por meio de campanhas virais nas redes sociais e ampla cobertura da imprensa independente e da mídia estrangeira, em uma escala não vista desde os protestos dos agricultores de 2020–2021.
O BJP e seus apoiadores responderam da forma habitual, com uma campanha de difamação, chamando os manifestantes de “antinacionais”, “financiados por estrangeiros”, “anti-hindus”, “terroristas” e outros rótulos semelhantes. Quando essas tentativas fracassaram, o partido recorreu à violência policial, retirando à força Sonam Wangchuk do local dos protestos, na estrada Jantar Mantar. Wangchuk foi mantido em um hospital estatal, isolado da família e de seus aliados políticos.
Após o chamado da CJP para a marcha ao Parlamento em 20 de julho, o Ministério do Interior, comandado por Amit Shah, mobilizou forças policiais e paramilitares para dispersar violentamente os estudantes reunidos nas proximidades da estrada Jantar Mantar. As autoridades bloquearam o acesso à internet na região, utilizaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes, espancaram estudantes com cassetetes, lançaram pedras contra eles e realizaram detenções arbitrárias.
Diversas estudantes também sofreram violência sexual praticada por policiais. Houve relatos do uso de armas de chumbo (“pellet guns“) pelas tropas de choque; embora a polícia de Déli negue ter utilizado esse armamento, ao menos dois manifestantes foram hospitalizados com ferimentos provocados por projéteis. Dezenas de estudantes ficaram gravemente feridos.
Dissidência na era Modi
A repressão seguiu um roteiro já conhecido, empregado repetidamente pelo governo do BJP contra movimentos de oposição, especialmente durante os protestos contra a Lei de Emenda da Cidadania, entre 2019 e 2020, que buscava excluir uma parcela significativa da população muçulmana da Índia.
Esse padrão envolve a recusa total ao diálogo, campanhas sistemáticas de difamação dos manifestantes (amplificadas pela máquina digital do BJP), uso excessivo da força policial para reprimir manifestações e, posteriormente, prisão de ativistas com base em leis antiterroristas extremamente rígidas, como a Unlawful Activities Prevention Act (UAPA).
Desta vez, porém, a estratégia do BJP produziu o efeito contrário. As multidões continuaram crescendo após a repressão de 20 de julho, e a direção da CJP passou a exigir a renúncia do primeiro-ministro Narendra Modi.
A dificuldade do BJP em controlar a narrativa decorre, em parte, do fato de que o movimento estudantil conseguiu mobilizar preocupações compartilhadas pela juventude indiana, atravessando divisões de classe, casta e religião. Uma parcela significativa dos manifestantes provém de famílias hindus de classe média que apoiaram com entusiasmo a política nacionalista hindu (Hindutva) de Modi.
Ao mesmo tempo, seria um erro interpretar a mobilização apenas como um fenômeno passageiro da chamada “Geração Z” ou como um movimento impulsionado exclusivamente por ansiedades da classe média. Embora compartilhe algumas características com recentes mobilizações juvenis em países vizinhos, como Nepal e Bangladesh, o movimento está profundamente enraizado na oposição às amplas reformas neoliberais promovidas pelo governo do BJP no sistema educacional.
O desmonte da educação pública
Embora a direção da CJP tenha limitado suas reivindicações à responsabilização das autoridades pela crise educacional, as causas do descontentamento estão ligadas ao conjunto mais amplo de políticas neoliberais implementadas pelo BJP.
A Política Nacional de Educação (National Education Policy – NEP), lançada em 2020, acelerou tanto a comercialização quanto a centralização da educação. A política representa um importante recuo do Estado em relação ao compromisso com a educação pública, permitindo que grandes corporações e empresas de tecnologia reorganizem o sistema educacional.
A crescente dependência de provas computadorizadas e a expansão dos exames de múltipla escolha — inclusive em áreas das humanidades e das ciências sociais, tradicionalmente baseadas no pensamento crítico e na redação analítica — exemplificam uma tendência mais ampla de padronização e digitalização da avaliação educacional.
A NEP 2020 também fortaleceu o controle do governo central sobre as instituições de ensino e seus órgãos reguladores, reduzindo sua autonomia institucional e ampliando a influência política sobre nomeações e tomadas de decisão.
Essas mudanças facilitaram as tentativas do BJP de reformular os currículos escolares para difundir sua ideologia de supremacia hindu. De forma geral, a política aprofundou desigualdades de classe e de casta, tornando o acesso à educação de qualidade cada vez mais dependente de recursos privados e enfraquecendo seu papel histórico como instrumento de mobilidade social para os setores de baixa e média renda.
O governo central publicou recentemente, após grande atraso — algo que se tornou comum sob a administração do BJP — um relatório baseado na Pesquisa Nacional sobre Educação Superior (AISHE). Segundo o documento, a Índia registrou uma forte queda nas matrículas de graduação entre 2022 e 2024, especialmente nas áreas de artes, ciências e comércio. Isso é particularmente significativo porque os cursos de graduação representam cerca de 75% de todas as matrículas no ensino superior.
Nesse mesmo período, aumentou significativamente o número de instituições participantes da pesquisa, indicando uma expansão das universidades privadas. Paralelamente, houve um desmonte sistemático das instituições públicas que ofereciam educação subsidiada às camadas pobres e à classe média, além de serem constitucionalmente obrigadas a reservar vagas para os grupos historicamente oprimidos, como os dalits e outras castas marginalizadas.
Somado ao aumento do desemprego, esse processo revela uma profunda crise da economia indiana, alimentando o ressentimento popular contra o governo.
Economia indiana em crise
A taxa de desemprego é particularmente elevada entre pessoas com ensino superior e pós-graduação. Em 2025, aproximadamente 12 milhões de candidatos disputaram apenas 8.868 vagas na empresa estatal Indian Railways. Um aspecto revelador é que muitos dos candidatos possuíam qualificação muito superior à exigida para os cargos. Entre os 2,5 milhões de inscritos para 53 mil vagas de contínuo (trabalhador braçal) em Jaipur, havia inúmeros graduados e até doutores.
A crise do desemprego é agravada pelo alto custo de vida, pelo aumento dos preços do gás e da gasolina e por condições climáticas extremas, como ondas de calor e poluição atmosférica, que tornaram a vida especialmente difícil para a classe trabalhadora. Muitos trabalhadores aderiram aos protestos da CJP exigindo um futuro melhor para seus filhos, para que não precisem enfrentar as mesmas dificuldades vividas pelas gerações anteriores.
O enfraquecimento de programas de proteção social, como o Mahatma Gandhi National Rural Employment Guarantee Act (MGNREGA), juntamente com a implementação de novos códigos trabalhistas altamente excludentes pelo BJP, deixou milhões de trabalhadores — especialmente os do setor informal — em situação de extrema precariedade e vulneráveis à exploração.
O governo respondeu às recentes greves em polos industriais do norte da Índia com repressão semelhante à aplicada contra os protestos da CJP, prendendo diversos jovens ativistas e estudantes que apoiavam os trabalhadores em luta.
Outro fator importante que alimenta a indignação popular é o fato de muitos integrantes da elite governista terem filhos estudando e vivendo no exterior. A filha da então ministra da Educação estuda atualmente na Universidade Tufts, enquanto seu pai supervisionava um sistema educacional em colapso dentro do país. A elite indiana permanece protegida das duras condições enfrentadas pela população trabalhadora.
Isso também reflete uma tendência mais ampla de “saída” das elites da economia indiana, seja pela migração para outros países, seja pelo consumo intensivo de bens de luxo importados, que pouco contribuem para o crescimento econômico ou para a geração de empregos. O próprio governo incentiva essa dinâmica ao reduzir tarifas sobre produtos importados.
Por exemplo, o proposto acordo comercial entre Índia e Estados Unidos poderá reduzir ainda mais as tarifas de importação sobre produtos americanos, atualmente em torno de 14,6%. Essa medida poderá prejudicar milhares de pequenos agricultores e pequenos empresários, levando organizações camponesas a intensificar seus protestos e aumentando ainda mais a pressão sobre o governo.
Muito além de um protesto por uma única pauta
Os protestos da CJP conquistaram enorme repercussão nacional porque conseguiram canalizar o descontentamento crescente contra o BJP entre jovens, agricultores, trabalhadores e comunidades indígenas afetadas pela destruição de seus territórios em decorrência das políticas extrativistas do governo.
Tudo indica que esta seja a primeira vez em que um movimento centrado em uma única reivindicação se transforma em uma ampla mobilização contra o BJP e contra Narendra Modi. Movimentos anteriores, como os protestos nacionais contra a Lei de Emenda da Cidadania, espalharam-se amplamente pelo país, mas nunca chegaram a se converter em um movimento de oposição geral ao BJP.
A maior mobilização recente havia sido o movimento dos agricultores contra as leis agrícolas propostas em 2020. Embora os agricultores tenham conseguido incorporar reivindicações de mulheres e trabalhadores dalits, o movimento não evoluiu para uma oposição direta ao governo, algo que a CJP parece ter conseguido realizar.
O enorme peso da crise econômica, sem perspectiva de melhora, parece ter reunido amplos setores da população cujas preocupações vão muito além da educação. Isso transformou o protesto da CJP em uma mobilização contra Modi e o BJP, abalando significativamente o culto à personalidade do primeiro-ministro. Um aspecto particularmente importante é que muitos dos jovens participantes defendem explicitamente o secularismo, rejeitando de forma firme a política anti-muçulmana e divisiva promovida pelo BJP.
O governo Modi vem utilizando todos os instrumentos à sua disposição para esmagar o movimento estudantil. Entre eles estão a autorização para o uso de sistemas de vigilância baseados em inteligência artificial com reconhecimento facial, além da ameaça de cancelar passaportes de ativistas identificados e submetê-los a longos períodos de detenção arbitrária.
Cabe à esquerda indiana unificar suas forças e mobilizar seus militantes e sindicatos para participar massivamente da mobilização. Vale destacar que as organizações estudantis ligadas aos principais partidos comunistas da Índia participam do movimento desde seu início.
Somente a esquerda poderá conduzir o movimento estudantil para além de sua pauta inicial, ajudando-o a realizar seu potencial transformador e radical. Ainda é incerto se esses protestos produzirão resultados eleitorais concretos, como demonstraram anteriormente as mobilizações dos agricultores em 2020. Ainda assim, eles oferecem à esquerda uma oportunidade de aprofundar sua inserção nesses movimentos e ampliar seu alcance, conectando a luta contra a reestruturação neoliberal da educação a um horizonte político anticapitalista.