Greve ferroviária contra Tarcísio de Freitas e sua repressão
É preciso ampliar a mobilização e a solidariedade aos ferroviários da CPTM, denunciando a repressão do governo paulista
Foto: Trem da CPTM. (Diário dos Trilhos/Reprodução)
A greve deflagrada pelos ferroviários de três linhas principais do sistema de transporte metropolitano de São Paulo foi um êxito. Foi o principal fato político do começo da semana no estado.
Cerca de 1 milhão de pessoas foram impactadas pela paralisação das linhas 11-Jade, 12- Safira, 13- Jade. As linhas cortam diversos ramais da região metropolitana, como toda zona leste de São Paulo, a chegada ao aeroporto de Guarulhos, região de cidades como Poá, Mogi e Suzano.
A assembleia que deflagrou a greve, na sede do sindicato batizada com o nome do histórico ferroviário marxista Rafael Martinelli, mostrou uma vanguarda disposta a lutar, apesar da dificuldade organizativa e política da direção do sindicato. O governo fez uma proposta insuficiente e sem determinar critérios, numa reunião com a direção do sindicato, para tentar evitar a greve. A categoria rejeitou a proposta do governo por 85% e topou deflagar a greve a partir das 00:01 do dia 04 de agosto.
Houve importante apoio externo, com participação da vanguarda lutadora na assembleia, dirigentes do sindicato dos metroviários, as deputadas Sâmia Bomfim e Mônica Seixas, o comitê pela reestatização da CPTM e o DCE da USP.
Uma vez colocada a greve na rua, a mobilização da categoria se impôs. Numa greve com todas as dificuldades, como o caso de muitas linhas e sindicatos diferentes, o acerto da vanguarda em transformar em luta a bronca com o desastre da privatização teve eco.
A greve que chegou em 1 milhão
Com piquetes constituídos na operação em Suzano, Guaianases e em frente a estação Brás, entre outros, a greve arrancou forte balizada por dois pontos centrais: a fortaleza da adesão dos maquinistas, epicentro da mobilização, onde apenas 3 de 126 trabalhadores desse setor aderiu ao plano de contingência que o governo e os supervisores improvisaram para tentar furar a greve; a consciência popular difusa que as privatizações sucateiam o serviço público e podem levar a tragédias.
Nesse sentido, a greve estabeleceu a ponte como desastre do incêndio nos trens, que obrigou a ARTESP a intervir para a CPTM retomar o controle público, mesmo que provisoriamente. Isso explica por que Tarcísio, mesmo querendo organizar o contra-ataque, ficou na defensiva e teve que assumir que a greve foi forte.
A reinvindicação em defesa dos empregos engaja junto com o slogan “Volta, CPTM!”, que é o que traduz a demanda da reestatização para além dos 90 dias, pura demagogia eleitoral.
As linhas 11 e 12 operaram muito parcialmente durante toda manhã, sendo que a linha 13 teve que apelar ao sistema PAESE de ônibus. Filas lotadas, o rodízio foi cancelado, levando a um engarrafamento que há muito não se via na cidade.
Uma nota relevante, para termos ideia do alcance qualitativo da medida de força, foi a do comércio do Brás. O Sindicato dos Lojistas do Brás (Alobrás) afirmando que “a recorrência desses episódios, sejam de falhas operacionais ou greve, estão afetando diretamente o comércio da região do Brás, uma vez que mais de 70% de sua mão de obra vem da Zona Leste de São Paulo ou região metropolitana.”
Tatcher no Largo da Concórdia
Tarcísio quer se postular como Milei, mas soa como Margareth Tatcher, a mais importante dos quadros políticos da burguesia inglesa, responsável por derrotar a estrutura clássica da resistência dos sindicatos no Reino Unido.
Não conseguindo esconder o êxito da greve, apelou para a linha de ataque: chamou de “baderna”, ameaçando com mais repressão. Disse que não iria se intimidar. Existem rumores de que a empresa iria refazer uma nova proposta, por agora, não confirmada.
A estratégia do governo é quebrar a espinha dorsal dos movimentos, abrir caminho para privatizar tudo, mesmo com esse recuo pontual, fruto da opinião pública refratária ao plano do governo.
O ultraliberalismo precisa derrotar a classe trabalhadora e seus métodos. O piquete constituído pelos ferroviários, com apoio dos metroviários, juventude, organizações de esquerda como a ICR, MES, UP, MPR MRT, entre outras, é um acinte para os que querem passar por cima do movimento de massas. É um ponto de coordenação ativa, que multiplica a força central dos setores ferroviários em luta e estende uma ponte com a população que sente a precariedade do serviço público privatizado.
Dobrar a aposta para vencer
A esquerda precisa se engajar nessa batalha política, a mais importante da situação política em São Paulo. Sendo a mais importante batalha paulista, tem incidência na conjuntura nacional, onde se disputa palmo a palmo, para derrotar a extrema direita.
Os próximos dias estão em aberto. Uma nova assembleia deve discutir as propostas e o plano de lutas. A defesa da greve pode enfrentar uma repressão mais aberta por parte do governo. Reiteramos o que vínhamos afirmando: as lutas são cada vez mais duras, pela ausência de grandes sindicatos ou movimentos que sirvam de ponto de apoio, bem como certos cortes na tradição luta, pela incorporação pelo estado das principais organizações dos trabalhadores. O imobilismo cobra um preço alto.
Aos céticos que apontam o caminho da passividade, a greve foi um baque em sua estratégia. Aos milhões que olham com simpatia para o PSOL e as ideias de esquerda, colocamos os postos parlamentares de Sâmia e Mônica, presentes na assembleia e nas lutas, a serviço dessa batalha.
Duas tarefas imediatas cabem à vanguarda: ampliar a mobilização e a solidariedade aos ferroviários, denunciando a repressão; e convocar aos candidatos da oposição a se posicionarem diretamente em favor da greve e da reestatização, da defesa dos empregos. E cercar a greve de solidariedade com os outros setores da classe e da juventude.