A conta não fecha
O bolsonarismo conserva apoio popular e é o predileto de Trump, na contramão dos ensaios de parcelas centrais da burguesia brasileira
Foto: Flávio Bolsonaro. (Vittor Sales/Reprodução)
Flávio Bolsonaro não consegue unir os setores da burguesia que querem desalojar Lula. Esse desacerto é hoje, contraditoriamente, a vantagem comparativa mais sólida de Lula, expressa na modesta distância que mantém em todas as pesquisas.
E o editorial recente da Folha de SP (08/agosto) é certeiro: “Impor um candidato só pelo sobrenome expõe a fraqueza política dos Bolsonaros, cujo autoritarismo afasta aliados. Sem conseguir indicar uma mulher, restou-lhes como Alfredo Gaspar(PL-AL), um vice polêmico”.
Para entender por que ainda Flávio não consegue- pairam dúvidas se em algum momento conseguirá – arrancar com todo apoio da ala mais dura da burguesia e do aparato da extrema direita, precisamos ver como se movem as classes e frações de classe, num momento de contínua crise entre representantes e representados.
Em cada estado, uma crise
As convenções estaduais mostram um cenário complexo. O alinhamento nacional ainda não está consolidado, com alianças que migram e se alternam. Exemplo é o do PSD de Kassab, que sustenta Tarcísio agora de forma menos entusiasmada, mas nacionalmente embarcou de malas e bagagens no projeto Caiado. O governador de SP segue presente nas atividades de campanha de Flávio.
O nordeste opõe disputas como a do Ceará, onde Elmano enfrenta um Ciro Gomes redivivo e reacionário, apoiado pelo bolsonarismo, sendo inclusive o pivô inicial da crise que se desdobraria com Michelle.
Na Bahia, a vitrine exposta de Jaques Wagner e suas relações não explicadas com Vorcaro expõem Lula e fragiliza a reeleição de Jerônimo. A campanha do PSOL no estado terá um papel importante para defender o palanque contra a extrema direita em terras baianas, mantendo uma posição independente com candidatura própria ao governo, Ronaldo Mansur.
A maior crise, entretanto, reside em Minas. Num dos maiores colégios eleitorais, com muita tradição política, o candidato favorito, Cleitinho, se encontra numa linha errática. Depois de “desistir de desistir”, Marcos Pereira, presidente do Republicanos, tentou impor que o senador não seria candidato. Uma crise que incomoda Flávio, onde Zema é nome forte. E ao custo da “neutralidade” dos Republicanos na disputa nacional. Já na “prorrogação”, Cleitinho finalmente se lançou candidato ao governo. Ao menos por enquanto.
A outra rota fechada foi a do “agro”, com Tereza Cristina se postulando como candidata a vice, como caminho para estabelecer uma aliança mais direta. A resposta do PP foi similar à dos Republicanos no caso mineiro. Tereza não será candidata, a legenda ficará neutra, não tomando parte na coalizão do clã.
Ainda no âmbito da fração agrária, Lula se esforça para manter pontes. Kátia Abreu, convertida em dirigente petista e no lugar de coordenadora de campanha de Lula em Tocantins, busca costurar a unidade com o PSD local. O mesmo vale para a ex-candidata a presidente, senadora em busca da reeleição, Soraya Thronicke, no Mato Grosso do Sul. Filiada ao PSB, aliada ao PT, molda um palanque para Lula no coração do agro, a um só tempo defendendo o programa dessa fração da elite e buscando diminuir a vantagem histórica dos Bolsonaros sobre Lula no Centro-Oeste brasileiro.
Blairo Maggi, por sua parte, escolheu depositar suas fichas em Renan Santos. O candidato da “direita da direita” também recebeu afagos de Garotinho, agora convertido na novidade da disputa pelo governo do Rio.
O anúncio do desconhecido deputado alagoano Alfredo Gaspar para vice de Flávio, resolvendo finalmente a novela, indica esse “isolamento relativo”. O único predicado a favor de Gaspar é ser o relator da CPMI do INSS, servindo de artilharia contra o governo. Seu “telhado de vidro” envolve denúncias pesadas e que apenas começam a aparecer no noticiário.
Desencontros e distintas velocidades
A conta que não fecha é que o clã Bolsonaro conserva apoio popular e é o predileto de Trump, na contramão dos ensaios de parcelas centrais da burguesia brasileira.
Como escreveu, em seu blog, Luiz Felipe Miguel:
Todo o Centrão vai ficar “neutro” na eleição presidencial, permitindo que seus candidatos apoiem quem quiser, de acordo com as conveniências locais. Esta é uma grande vitória de Lula, algo que no começo do ano era considerado muito difícil de alcançar. O resultado, é justo reconhecer, foi obtido não tanto pela genialidade política do presidente, mas pelo acúmulo de barbeiragens da campanha do filho de Jair.
Esses desencontros tornam o cenário imprevisível. O favoritismo de um segundo turno entre Lula e Flávio causa desconforto nos pesos pesados da burguesia brasileira. A Faria Lima estuda cenários, acenando para Caiado, sem muita certeza.
O que vai se impor? A premência de Trump sobre a América Latina, aos moldes da eleição colombiana? Isso vai ocorrer, mas dentro de qual impacto, da manutenção de Flávio como nome central para abater Lula?
O problema do tarifaço, da disputa com os investimentos oriundos da China e da União Europeia, vai impactar entre os principais articuladores do ramo industrial.
Terão espaços as figuras de Caiado e Renan, vez que nos parece que Zema corre bem mais atrás, em que pese o “fator mineiro”?
As denúncias acerca de Lulinha serão capazes de verter-se numa agenda poderosa da campanha, levando o governo ao desgaste e reduzindo os danos do desgaste do caso Bolsomaster?
Os elementos da própria campanha, a saber, denúncias de corrupção, o movimento das bigtechs, a emergência climática que assola o pais via os primeiros sinais do Super ElNiño, vão contar bastante diante de um cenário imprevisível.
Questões que ainda estão em aberto, mas que serão as que vão diretamente influenciar no aspecto “estritamente” político da retórica e do debate eleitoral. A pesquisa Quest da última quarta-feira (05), onde a tendência de crescimento de Lula sobre Flávio retrocede é um sinal amarelo. Também aí a “conta não fecha”.
Uma eleição perigosa, um segundo turno arriscado
Estamos diante de uma eleição perigosíssima. Um segundo turno arriscado onde não existe jogo ganho para Lula. A interferência dos Estados Unidos está nas portas do processo, vide a crise diplomática que assistimos nos últimos dias. Coroada com a infeliz declaração do ministro Múcio, de “abrir o portão” para o imperialismo.
A classe trabalhadora está fraturada. Apenas isso explica o fato de que a burguesia tenha enormes dificuldades para ungir alguém de sua confiança, garantindo-lhe estabilidade em tempos de guerra social e turbulências no horizonte.
Concluindo com o mesmo editorial citado da Folha: “O histórico dos Bolsonaros e a postura ambígua de Flávio sustentam seu isolamento e geram desconfiança na oposição. Em suma, sua força eleitoral vem do antilulismo, e não de virtudes políticas ou de uma agenda sólida”.
A força das mulheres e dos setores mais conscientes da classe é onde reside a esperança, quando Lula, a frente de um governo fraco e sem tantos resultados para apresentar, parece estar aquém das batalhas do presente. Lutas como a vitoriosa greve dos ferroviários de SP, a entrada da juventude com a bandeira contra a 6×1, a disputa do sentimento da soberania nacional, e, uma vez mais, a centralidade da luta feminina e feminista são fatores dinâmicos que podem decidir essa durissima batalha. Páreo duro, hora do combate.