Militantes da extrema direita invadem UFRGS e atacam estudantes
Grupo arrancou cartazes e tentou pichar centros acadêmicos no Campus do Vale; ação se soma a uma ofensiva contra universidades públicas que já passou por UnB, Unicamp, UFMG e USP
Foto: Reprodução
A extrema direita voltou a transformar uma universidade pública em palco de provocação política. Na tarde desta segunda-feira (10), integrantes ligados ao campo bolsonarista invadiram espaços do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no Campus do Vale, em Porto Alegre. Segundo relatos de estudantes e militantes que estavam no local, o grupo arrancou cartazes do movimento estudantil, tentou pintar paredes de centros acadêmicos e protagonizou confrontos com estudantes.

Integrantes do coletivo Juntos participaram da reação e ajudaram a impedir a continuidade dos atos de vandalismo, segundo relatos do próprio movimento. A mobilização estudantil também convocou uma assembleia para discutir uma resposta organizada à presença de grupos de extrema direita nos espaços universitários.
O episódio ocorre em um momento em que universidades públicas brasileiras vêm sendo alvo recorrente de incursões de grupos de direita e extrema direita que buscam provocar estudantes, filmar confrontos e transformar os episódios em conteúdo para as redes sociais.
Em julho, artigo publicado pelo Jornal da USP apontou que os ataques contra instituições públicas de ensino superior integram uma ofensiva política mais ampla da extrema direita contra universidades, especialmente aquelas ligadas às ciências humanas. Segundo os autores, a estratégia procura apresentar as universidades como espaços de “doutrinação” para deslegitimar a produção científica e o pensamento crítico.
“Não passarão”
A deputada estadual Luciana Genro (PSOL-RS) repudiou o episódio e destacou a atuação dos estudantes que reagiram à investida.
“Não passarão! Provando mais uma vez que a extrema direita odeia a universidade pública, provocadores atacaram a UFRGS ontem, arrancando cartazes e tentando pintar as paredes dos centros acadêmicos, mas foram impedidos pelos alunos. Muito orgulho do coletivo Juntos que ajudou a correr com esses canalhas”, afirmou.
Para o vereador de Porto Alegre Roberto Robaina (PSOL), o episódio deve ser compreendido como parte de uma ofensiva política contra a universidade pública e o movimento estudantil.
“Eu soube que essa turma da extrema-direita entrou no campus do Vale, arrancou cartazes, fez pichação. Esse é o método da extrema-direita atacando as universidades públicas do movimento estudantil e eles precisam ser repudiados”, declarou.
Robaina também defendeu a mobilização dos estudantes para impedir que grupos extremistas transformem os campi em espaços de provocação e propaganda política.
“É preciso barrar a extrema direita garantindo mobilização contra eles, porque eles são os que defendem o fascismo, eles não querem o estudo, eles não querem a universidade pública, eles não respeitam os professores, não querem o movimento estudantil porque eles defendem o privilégio de uma minoria”, afirmou.
Ao comentar a reação organizada pelo Juntos, o vereador acrescentou: “O Juntos que atuou pra começar a organizar uma resistência fez muito bem no dia de hoje. Vamos aumentar essa resistência e derrotá-los, nas ruas e nas urnas.”
Não é um caso isolado
O ataque à UFRGS não ocorre no vazio. Nos últimos anos, e com particular intensidade em 2025 e 2026, universidades públicas brasileiras registraram episódios semelhantes envolvendo grupos e políticos de extrema direita.
Na UnB, em março de 2025, o Conselho Universitário repudiou ações de grupos de extrema direita que incluíram gravações não autorizadas, filmagens clandestinas e tentativas de estimular vandalismo contra o patrimônio universitário. Um grupo também havia pintado e pichado a entrada de um centro acadêmico sem autorização.
Na Unicamp, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas denunciou em 2026 uma sequência de ataques atribuídos ao MBL. Em fevereiro, uma invasão durante o início das aulas e da calourada terminou com vandalismo, apagamento de manifestações dos movimentos negro e trans e agressões que deixaram três estudantes feridos. Em maio, outro ataque ocorreu contra estudantes em greve. A direção do instituto classificou os episódios como parte de uma escalada de ações políticas contra a comunidade universitária.
Também na Unicamp, em 2025, manifestações de grupos ligados à direita contra a adoção de cotas para pessoas trans envolveram provocações a estudantes e professores, filmagens de espaços da universidade, retirada de cartazes e ataques a murais.
Na UFMG, dois pré-candidatos de extrema direita, ligados ao União Brasil e ao PL, invadiram em abril de 2026 a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), levando cartazes de Jair Bolsonaro e provocando estudantes. O episódio foi citado por entidade sindical como mais um caso de ataques recentes às universidades federais.
Na USP, episódios semelhantes também se repetiram. Em março deste ano, estudantes ficaram feridos durante uma ação protagonizada pelo vereador paulistano Lucas Pavanato (PL) e pessoas que o acompanhavam na região da FFLCH. Dois meses depois, um grupo de extrema direita invadiu novamente o prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, arrancou faixas e cartazes e hostilizou estudantes e funcionários.
O padrão é revelador: grupos que acusam universidades públicas de serem espaços de “doutrinação” ingressam nos próprios campi para provocar estudantes, retirar manifestações políticas e culturais, filmar as reações e transformar o conflito em propaganda digital.
A universidade pública, entretanto, é justamente um dos poucos espaços da sociedade onde diferentes ideias podem ser confrontadas por meio do debate, da pesquisa e da produção de conhecimento. A liberdade acadêmica não significa ausência de regras – vandalismo e agressões podem e devem ser responsabilizados -, tampouco pode ser confundida com autorização para grupos organizados entrarem nos campi para intimidar estudantes e atacar suas manifestações.
No Campus do Vale, a reação dos estudantes mostrou que a disputa não é apenas sobre cartazes ou paredes. É também sobre o direito de a universidade permanecer um espaço de pensamento crítico, organização política e liberdade de expressão – sem que a extrema direita transforme a provocação e a intimidação em método de atuação.
A assembleia convocada pelos Centros Acadêmicos de História, Filosofia e Ciências Sociais, para esta quinta-feira (13), pretende justamente organizar essa resposta, reunindo estudantes, centros acadêmicos, DCE, técnicos, trabalhadores terceirizados e professores.
Em um cenário de crescente ofensiva contra instituições públicas de ensino superior, a disputa ultrapassa os muros da UFRGS: trata-se de defender a própria ideia de universidade pública como espaço democrático, plural e comprometido com o conhecimento – e não como palco para campanhas de ódio e intimidação.