Flávio Bolsonaro e a pós-graduação que nunca existiu
Presidenciável atribuiu a si curso na UFRJ que não frequentou; “equívoco” se soma a uma trajetória marcada por controvérsias e explicações convenientes
Foto: Beto Barata/Agência Senado
O presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) descobriu, às vésperas da eleição, uma nova especialidade acadêmica: cursar uma pós-graduação sem jamais ter passado pela universidade. O problema é que a façanha não ocorreu apenas em uma biografia informal da internet. A informação constava de páginas oficiais do Senado e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), além de material de campanha.
Segundo levantamento do g1, os perfis oficiais informavam que Flávio havia feito uma pós-graduação em Ciências Políticas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Consultada, a universidade informou que não encontrou qualquer registro acadêmico do senador. A suposta formação também não aparece entre os diplomas que Flávio resolveu publicar nas redes sociais depois que o caso veio a público.
Na tentativa de encerrar a polêmica, o senador divulgou fotografias de seus diplomas e escreveu:
“Para que não restem dúvidas sobre minha formação acadêmica, conquistada à base de vários anos de muito estudo e dedicação, seguem meus diplomas.”
A lista apresentada por Flávio inclui bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, especialização em Políticas Públicas pelo Iuperj-UCAM e MBA em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Novos Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Nada de UFRJ.
A campanha atribuiu a informação falsa a “equívocos”, levantando a possibilidade de que o dado tenha sido reproduzido de páginas como a Wikipédia. A Alerj, por sua vez, afirmou que as informações dos perfis dos deputados eram fornecidas pelos próprios parlamentares.
Ou seja: a pós-graduação apareceu no currículo oficial, foi repetida em diferentes espaços e só desapareceu depois que uma reportagem resolveu conferir se o candidato realmente havia estudado onde dizia ter estudado.
Uma “especialização” conveniente
O episódio seria apenas uma trapalhada curricular se não envolvesse um candidato que pretende administrar o país. Afinal, um currículo não é uma peça de ficção: serve justamente para apresentar ao eleitor informações verificáveis sobre a trajetória de quem disputa um cargo público.
Flávio tem, de fato, formação em Direito, especialização em Políticas Públicas e MBA. O problema é ter acrescentado ao currículo uma credencial que não possui – e, diante da descoberta, atribuir o erro a terceiros.
O caso ganhou ainda mais repercussão porque a informação não era exatamente nova: segundo a apuração, a referência à suposta formação em “Ciências Políticas” já circulava em materiais sobre Flávio desde 2011.
Para um político que pretende vender ao eleitor a imagem de experiência e preparo para a Presidência, a história é, no mínimo, constrangedora. E tem uma ironia adicional: Flávio não precisou fazer quatro anos de Ciência Política para descobrir como funciona uma velha regra da política brasileira – negar responsabilidade quando o problema aparece.
O currículo que encontra a “rachadinha”
A falsa pós-graduação também se encaixa em uma trajetória política marcada por controvérsias que acompanharam Flávio desde seus tempos de deputado estadual no Rio.
O caso mais conhecido é a investigação das chamadas “rachadinhas”, que teve como personagem central Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Alerj. Relatórios do Coaf identificaram movimentações consideradas suspeitas na conta de Queiroz, incluindo cerca de R$ 1,2 milhão em saques e depósitos entre 2016 e 2017. Parte das provas da investigação, entretanto, foi posteriormente invalidada por decisões judiciais, e o caso não resultou em condenação criminal de Flávio.
A investigação também identificou pagamentos em dinheiro de despesas pessoais da família de Flávio. Segundo levantamento baseado nos dados bancários da investigação, Queiroz quitou pelo menos uma mensalidade escolar das filhas do senador e outros boletos relacionados à família.
Nada disso autoriza afirmar que Flávio tenha sido condenado pelas acusações. Mas os episódios fazem parte da trajetória pública do senador e ajudam a compreender por que o novo caso curricular não é recebido simplesmente como um erro burocrático.
Agora, o “filme do papai”
Mais recentemente, Flávio também apareceu no centro de outra controvérsia envolvendo dinheiro e poder.
Em maio, reportagem do Intercept Brasil revelou mensagens, áudios e documentos que indicam que o senador negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro recursos para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O valor previsto no contrato chegava a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época.
Flávio confirmou que procurou Vorcaro, mas tentou apresentar a operação como algo muito mais singelo:
“No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai.”
O episódio ganhou peso adicional porque Vorcaro era alvo de investigações relacionadas ao Banco Master. E as mensagens reveladas mostraram que Flávio mantinha contato direto com o banqueiro enquanto negociava o financiamento do filme.
Agora, entre diplomas verdadeiros e uma pós-graduação imaginária, o candidato tenta explicar mais uma informação inconveniente como “equívoco”.
A questão que fica para o eleitor é menos acadêmica do que parece: se até o currículo oficial precisa ser corrigido depois que a imprensa confere os fatos, que tipo de rigor o candidato pretende aplicar quando estiver diante de decisões que envolvem toda a população?
Por enquanto, a única pós-graduação comprovada pelo episódio é em “Ciência do Desvio de Responsabilidade” – essa, ao contrário da suposta formação na UFRJ, parece ter sido concluída com louvor.