A semana antes da eleição
Campanha eleitoral começa com polarização e a ameaça permanente de ingerência externa operada pelos EUA
Foto: Carlos Moura/Agência Senado
A eleição de 2026 passou a organizar toda a agenda política brasileira. A semana que terminou nesta sexta-feira (14) foi marcada pelo registro da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), pela divulgação de um programa de governo que promete reduzir o espaço do Supremo Tribunal Federal (STF), pela reação brasileira ao tarifaço de Donald Trump, por novas disputas entre Lula e o Congresso e pela ofensiva da extrema direita contra universidades públicas. Ao mesmo tempo, partidos de esquerda travam suas próprias batalhas nos estados.
Flávio no Missão
No campo bolsonarista, Flávio conseguiu registrar sua candidatura depois de um episódio onde sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a registrar o senador como filiado ao Missão, partido ligado ao MBL, e não ao PL. O erro atrasou o registro da candidatura e levou o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, a determinar a correção do cadastro e a abertura de investigação sobre o episódio.
A confusão foi imediatamente incorporada à guerra política em torno das instituições eleitorais, em um ambiente no qual o bolsonarismo historicamente procura lançar suspeitas sobre a segurança das urnas e do processo eleitoral.
Flávio Bolsonaro disse que a filiação ao Missão foi uma fraude e negou ter autorizado o cadastro. Ele afirmou que recebeu e-mails relacionados à filiação, mas que sua equipe inicialmente os tratou como spam. Também relatou que, no mesmo dia, teria havido uma tentativa de filiá-lo ao PT, o que usou para reforçar a tese de sabotagem.
A versão de Flávio, porém, entrou em choque com informações divulgadas posteriormente pelo próprio Missão. O presidente da legenda, Renan Santos, afirmou que o cadastro foi feito com o e-mail oficial de Flávio no Senado e que os registros do sistema indicariam que mensagens de confirmação foram abertas e tiveram links acessados.
Flávio chegou a atribuir o episódio a um “ataque hacker” ao sistema do TSE, mas essa hipótese foi afastada pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral. Segundo o TSE, não houve invasão de seus sistemas: a alteração foi realizada por alguém que utilizou credenciais legítimas do Missão. A Corte determinou investigação policial sobre o caso.
Há, portanto, duas questões diferentes: a filiação de Flávio ao Missão foi considerada irregular e acabou anulada, mas ainda não está esclarecido publicamente quem realizou o cadastro e com qual finalidade.O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou o restabelecimento da filiação de Flávio ao PL, permitindo que o registro da candidatura presidencial prosseguisse.
Um detalhe curioso é que o cadastro continha dados claramente falsos e ofensivos, inclusive um endereço fictício na “Rua dos Bandidos”. O episódio está sendo investigado pela Polícia Federal e pela Justiça Eleitoral.
O programa da governo extrema direita
Com a candidatura formalizada, Flávio apresentou também seu programa de governo. O documento propõe limitar decisões individuais de ministros do STF, alterar regras de acesso à Corte e acabar com o foro especial, além de defender a redução de ministérios e uma nova regra fiscal baseada na dívida pública, ampliando a austeridade.
Outra proposta é a redução do Bolsa Família, criando um prazo para permanência no programa sob a falaciosa justificativa da “porta de saída”. A redução ou mesmo o fim de projetos de transferência de renda já havia sido levantada no governo de Bolsonaro pai, mas foi derrubada no contexto da pandemia
Na segurança pública, o programa propõe que adolescentes a partir dos 14 anos possam ser responsabilizados por crimes graves e prevê a construção de cinco presídios federais. Também aparece uma proposta de “carteira verde-amarela” para estimular o trabalho juvenil.
O conjunto revela uma candidatura que tenta combinar agenda econômica ultraliberal, encarceramento e ataque à democracia, preservando a identidade política construída pelo bolsonarismo nos últimos anos.
Não por acaso, a proposta de mexer no funcionamento do STF ganha centralidade. Para a extrema direita, a Corte tornou-se um dos principais alvos desde que passou a investigar e responsabilizar integrantes do núcleo político bolsonarista envolvidos na tentativa de golpe e nos ataques às instituições.
O campo reacionário
Além de Flávio e Renan Santos, Ronaldo Caiado (Missão) e Romeu Zema (Novo) completam as candidaturas contra Lula. O cenário fragmentado, que se combina à “neutralidade” do Centrão no primeiro turno, atrapalha o bolsonarismo, mas está longe de ser um elemento definidor da campanha. A certa unidade desse campo na segunda volta é um perigo indicado não só numericamente pelas pesquisas, como politicamente no contexto de eleições com grandes possibilidades de ingerência externa dos EUA e a amplificação de investigações contra elementos ligados ao governo.
Caiado se posiciona no mesmo lugar de sempre como representante do setor majoritário agronegócio, defendendo uma agenda conservadora ligada ao fisiologismo e ao entreguismo, como se evidenciou no tema da venda das terras raras em Goiás. Sem o apoio nacional do próprio partido, marca a posição do Centrão na disputa nacional e busca crescer para melhorar suas chances de negociação num eventual governo bolsonarista.
Já Zema surge como o mais apagado dos reacionários, sem avançar nas pesquisas e perdendo diretamente espaço para Renan, que se consolida como a candidatura da extrema direita descolada do bolsonarismo. Levando o perfil do MBL renovado no Missão, partido com inúmeras referências fascistas e um programa do estilo motosserra de Milei, Renan cresce através do trabalho nas redes, mas continua praticamente desconhecido em boa parte do país.
Santa Catarina: racha na direita
Em Santa Catarina, a eleição para o governo estadual expõe uma disputa pelo comando da direita e do bolsonarismo. O governador Jorginho Mello (PL), favorito à reeleição, perdeu aliados importantes que ajudaram a construir sua vitória em 2022. O MDB rompeu após o governador escolher Adriano Silva (Novo) para vice, enquanto o PP de Esperidião Amin também acabou afastado depois que Jorginho abriu espaço para Carlos Bolsonaro disputar uma das vagas ao Senado. O movimento permitiu ao adversário João Rodrigues (PSD) reunir MDB, União Brasil e PP em torno de sua candidatura.
Rodrigues tenta aproveitar as fissuras para se apresentar como o verdadeiro representante da direita catarinense. “O jogo se mexeu, mas eu permaneço onde estou”, afirmou, lembrando que Jorginho, no passado, havia apoiado Dilma Rousseff antes de se tornar um aliado de Jair Bolsonaro. A própria composição das chapas evidencia a disputa: Jorginho conta com PL, Podemos, Republicanos, Novo e outros partidos, além do apoio de Flávio Bolsonaro, enquanto Rodrigues reuniu as forças políticas que se afastaram do governador.
No campo progressista, Gelson Merísio (PSB) tenta construir uma frente ampla capaz de enfrentar a hegemonia da direita, embora tenha uma trajetória política anterior ligada ao centro e à centro-direita. A chapa reúne PDT, PT e PSOL, com Ângela Albino na vice e Décio Lima e Afrânio Boppré nas candidaturas ao Senado. Merísio afirma que hoje vê nas políticas de Lula “as que mais contribuem para reduzir as desigualdades e fazer o país crescer”.
Lula e Alcolumbre se aproximam
Enquanto a extrema direita começa suas campanhas, Lula busca melhorar a relação com Centrão. O presidente e o senador Davi Alcolumbre (União-AP) tiveram nesta semana uma nova reunião no Palácio da Alvorada, em movimento de reaproximação entre Executivo e Senado.
Na mesa estiveram temas como o projeto sobre o fim da jornada 6×1, medidas provisórias e outras propostas que dependem de negociação com o Legislativo. Tal encontro resultou no despacho da PEC do fim da 6×1 para as comissões do Senado, o próximo passo para a aprovação da proposta que era barrada pelo senador.
A relação entre Planalto e Congresso continua atravessada, porém, pela disputa em torno das emendas parlamentares, mecanismo que ampliou enormemente o poder dos deputados e senadores sobre a execução do orçamento público. O problema é estrutural, com parcela crescente dos recursos públicos submetida à lógica de negociação do Centrão e aos interesses eleitorais de deputados e senadores.
Uma eleição sob ameaça internacional
Em meio a esse cenário, a Organização dos Estados Americanos (OEA) anunciou nesta semana que enviará uma missão de observação para acompanhar as eleições brasileiras. O grupo será chefiado pelo ex-ministro chileno José Miguel Insulza, que também comandou a própria OEA entre 2005 e 2015.
A presença da missão internacional ganha peso em uma eleição que promete ser marcada por intensa disputa digital, desinformação e ataques às instituições eleitorais. O recente vídeo divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA, afirmando que o controle do país sobre o continente “nunca mais será questionado”.
E a campanha já começou também nas redes. O julgamento sobre o uso da IA nas eleições, motivado pela criação de vídeo de Jair na convenção do PL, foi adiado no STF para a próxima semana e seus resultados serão determinantes. Enquanto isso, levantamento publicado nesta semana apontou que PT e PL vêm patrocinando conteúdos para promover o governo Lula ou atacar adversários, em uma prática que pode contrariar as regras do Tribunal Superior Eleitoral sobre propaganda antecipada.
Começa a campanha
Amanhã (16), Lula lança sua campanha em São Bernardo do Campo, no histórico estádio da Vila Euclides, em uma indicação simbólica de uma campanha mais avançada que outras, levantando a pauta da soberania e de certos direitos sociais. Ao mesmo tempo, busca ampliar sua base de apoio enquanto administra conflitos com um Congresso fortalecido e enfrenta o acosso da guerra comercial com Trump.
Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como sucessor do pai e aposta em uma agenda pró-Trump e contra as instituições do regime brasileiro. E o bolsonarismo apresenta grande resiliência, mesmo perante forte rejeição e sucessivas denúncias de corrupção envolvendo o candidato e seu círculo prómico. Nos estados, o campo anti-bolsonarista discute até onde deve avançar na política de alianças. Nas universidades, a extrema direita tenta criar fatos políticos e é rechaçada firmemente.
A campanha de 2026 começa amanhã, mas a eleição já começou há tempo, está sendo disputada nas instituições, no orçamento público, na política externa, nas universidades e no ambiente digital. Não será uma eleição morna e tendência é que se aqueça cada vez mais à medida que outubro se aproxima.