Vila Euclides, Copacabana e o editorial da Folha
A campanha eleitoral começa com uma multidão por Lula em São Bernardo, iniciando a batalha contra a extrema direita
Foto: Comício de largada da campanha eleitoral de Lula em São Bernardo. (Bruno Magalhães/Esquerda em Movimento)
Dada a largada na campanha eleitoral, as fotografias e postagens do primeiro dia atestam a polarização. Lula e Flávio Bolsonaro fizeram escolhas parecidas para inaugurar aquela que promete ser a “maior batalha eleitoral” da política moderna brasileira, dentro dos marcos do regime da Nova República.
Lula e Flávio escolheram suas fortalezas para indicar como será a campanha. O acerto da campanha Lula em escolher o cenário do estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, foi enorme. Fortaleza do jovem e concentrado proletariado brasileiro, em Vila Euclides se desenvolveram as greves que alterariam para sempre à rota da história, entre o final dos anos 70 e começo dos anos 80. A derrubada da ditadura dos generais, sustentada pelos patrões, teve um impulso decisivo naquelas greves. A construção do partido mais importante da história recente e de seu líder inequívoco, Lula, foi fruto direto desse processo. Lula estava em casa.
Flávio, numa busca de identidade, escolheu a Copacabana dos comícios pró-golpismo da última fase do bolsonarismo. Uma atividade menor que a de Lula, mas amparada no setores da classe média reacionária carioca, turbinados pela chamada “família militar”, além da notória proximidade com o condomínio da Barra da Tijuca, relembrado pelo chiste do hacker que escreveu que o domicílio eleitoral de Flávio estava sito numa eventual “Rua dos Milicianos”. Talvez tenha sido a parte mais crível do chiste.
Vale observar a astuta escolha de Renan Santos, que segue correndo por fora, mas com energia e moral para se projetar como alternativa neofascista, numa “vibe californiana”, para fazermos referência ao estilo deslocado dos dirigentes do tecnofascismo do Vale do Silício. Ao escolher o Largo São Francisco, indica que vai seguir disputando parcelas da juventude, não apenas para um apoio pontual, mas para se alistarem de corpo e mente, no projeto da extrema direita que o partido Missão encarna.
Onde tudo começou
A estética e o chamado de Lula foram o grande acerto para o primeiro dia de campanha. Colocando dezenas de milhares no estádio da Vila Euclides, que foi tomado por apoiadores, a largada da campanha recorreu ao “simbólico” para chamar atenção de algo real. Lula tem sua fortaleza na disposição da classe trabalhadora brasileira, ainda que nas suas camadas menos jovens. Uma classe que está dividida, fraturada, onde parte abandonou, por frustração, engano e desengano, o apoio à Lula. O que se viu na Vila Euclides refletia mais a militância organizada dos partidos, das diretorias dos sindicatos, de ativistas que estão engajados diretamente nas campanhas, parte deles remunerada de alguma ou outra forma. Mas tinha rosto de classe, cara de classe, suor de classe.
Lula fez um discurso contido. O ponto alto foi o sentimento de pertencimento ao “povo”, recordando sua trajetória e falando das grandes greves. Nesse ponto, Lula foi sincero, se apresentou como um sindicalista negociador, longe das tendências mais combativas do movimento operário brasileiro e raiz da estratégia de conciliação de classes do PT. Falou de soberania e buscou alimentar com discurso a multidão ali presente. A estratégia era usar a força do simbolismo para negociar a moderação do real. Não se armou para a luta contra a jornada de trabalho, pouco peso para a questão climática. A melhor parte foi mesmo a soberania, presente em centenas de cartazes onde se lia “O Brasil não se entrega”.
Flávio destacou a ausência do pai, a quem chamou de honesto e prometeu defender o seu legado. Orador medíocre, oscilou entre a radicalização contra Lula e a busca por mostrar-se amigo de Trump. O fato novo, incorporado das visitas de Milei, foi a defesa do “tesouraço” , versão brasileira do “plano motossera” do presidente argentino. Um desmonte do estado e um ultraliberalismo de combate para construir um novo modelo econômico. Uma outra forma de “guerra civil” contra os pobres.
Na hora zero da campanha eleitoral, também Pablo Marçal criando um factóide para buscar concorrer à presidência, militâncias e apoiadores das campanhas proporcionais deram a largada em suas esferas, os principais jornais do país colocaram sua visão de longo prazo.
A opinião da Folha
A Folha de São Paulo usou a capa para seu editorial. Medida pouco usual, grifou a importância do editorial como um “manifesto para todo um período”. O título foi “É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos”. Essa escolha é tão reveladora quanto a escolha dos palcos da Vila Euclides e de Copacabana.
Ao afirmar que não há assunto mais urgente que o de conter gastos público e equilibrar as contas, a Folha, expressão importante dos setores mais lúcidos da burguesia brasileira em geral e da nucleada em SP em particular, joga suas cartas. Não escolhe a brutal violência contra a soberania brasileira nem qualquer menção que proteja a industrial nacional. Apesar de reconhecer que o candidato da oposição é contrário ao regime democrático consagrado na Constituição de 1988, aponta que é um tema menor diante da necessidade de um compromisso fiscalista, evocando o teto de gastos de Temer como modelo.
De um só golpe, o recado do editorial da Folha chega a diversos destinatários: em primeiro lugar, tutelar por completo um próximo governo Lula; reforçar a agenda da campanha, se separando de questões como soberania, 6×1 e defesa dos direitos das mulheres para a agenda da dita responsabilidade fiscal; flerta com o ‘tesouraço’ que Flávio anunciou em Copacabana; acena para Caiado, Zena e Renan no que diz respeito ao programa econômico.
A Folha traça três planos de rota. Seguir tensionando Lula e seus economistas, mantendo pontes via Alckmin, Dario e Gallipolo para controlar a orientação econômica, caso Lula siga a tendência (apertada)d e vitória no voto popular e apostando numa carta de negociação diante das atrocidades tarifárias de Trump. O segundo caminho, talvez o preferencial, mas igualmente o mais difícil, é apostar no crescimento de outra figura da burguesia que suplante os Bolsonaros, tarefa difícil em 2026, mas mais segura com a aposta em Tarcísio, pavimentando o “pós Lula” pela direita. A terceira é manter “portas abertas” com todos os candidatos e setores da burguesia, sendo Flávio uma opção rejeitada, por amplos setores, sendo a Folha um dos jornais que mais expressou a burguesia que não aceitara os trogloditas no poder, ainda que pudesse negociar pontualmente. É um alerta.
Será que a Folha conseguirá pautar sua agenda, num país que caminha para polarização, com muita desconexão, certa apatia das lutas organizadas, mas com um potencial enorme de agitação, como vimos no rastilho de apoio à luta para acabar com a 6×1?
Foi dada a largada
A Vila Euclides se organiza. Por vezes, o simbólico escapa, as pautas se impõem, o imprevisto atua. Flávio se inspira em Milei. A agenda da soberania e a liberação por parte do Senado para avançar na luta contra a 6×1 são vetores em movimento. A existência de uma esquerda independente e anticapitalista, com suas figuras ganhando um reconhecimento importante em todas as ruas, a partir do PSOL, pode ativar os elementos mais dinâmicos para um batalha que recém começa.