Debates estaduais escancaram disputas na reta final
Em São Paulo, Haddad e Tarcísio travaram embate sobre segurança, privatizações e serviços públicos; no RS, candidatos discutiram reconstrução, educação e saúde
Foto: TV Globo/Reprodução
A reta final da campanha para os governos estaduais foi marcada por debates acirrados na noite de terça-feira (29), a cinco dias do primeiro turno. Em São Paulo, o confronto entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) concentrou a atenção ao colocar frente a frente dois projetos distintos para o estado e, ao mesmo tempo, reproduzir a polarização da disputa nacional.
Segurança pública, saúde, educação, privatizações e situação fiscal estiveram entre os principais temas do encontro. O debate também foi atravessado por acusações envolvendo aliados políticos e pelo embate em torno da relação entre os governos estadual e federal.
Logo no início, Haddad questionou Tarcísio sobre sua participação em eventos ao lado de integrantes da família de Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo preso em investigação que apura suspeitas de ligação com um esquema envolvendo o PCC e o transporte coletivo.
O petista questionou o governador sobre ter pedido votos para os filhos de Leite antes da prisão do ex-vereador.
“Ninguém te informou que você não deveria subir no palanque para pedir voto para uma pessoa que 15 dias depois seria presa?”, questionou Haddad.
Tarcísio respondeu afirmando que a família Leite não tem participação no governo paulista e defendeu sua atuação no combate ao crime organizado. Segundo o governador, sua gestão realizou cerca de 500 operações contra o PCC.
O tema da segurança permaneceu como um dos principais pontos do debate, com Haddad defendendo maior integração entre as forças de segurança estaduais e federais e Tarcísio destacando operações realizadas durante sua gestão.
Privatizações e serviços públicos
Outro eixo importante do confronto foi o modelo de gestão adotado pelo governo paulista. Haddad criticou privatizações e concessões realizadas durante a gestão Tarcísio, incluindo a da Sabesp, e questionou os efeitos dessas medidas sobre serviços públicos.
O governador, por sua vez, defendeu o modelo de concessões e privatizações como forma de ampliar investimentos.
A discussão refletiu uma diferença central entre as candidaturas: enquanto Haddad apresentou um discurso de fortalecimento da participação do Estado e de ampliação da atuação do governo federal em áreas como infraestrutura e saúde, Tarcísio defendeu a continuidade das políticas de desestatização.
Saúde e educação também viram campo de disputa
Na saúde, os candidatos trocaram críticas sobre recursos, atendimento e filas. Haddad associou parte dos avanços apresentados pelo governador à transferência de recursos federais e criticou a situação da saúde pública no estado. Tarcísio rebateu citando investimentos e resultados de sua administração.
Na educação, Haddad questionou os resultados da alfabetização em São Paulo. Segundo o UOL, o estado registra 61% das crianças alfabetizadas na idade certa, enquanto o índice nacional é de 66%.
Tarcísio respondeu citando o reconhecimento concedido pelo Ministério da Educação:
“Se não está funcionando, porque a gente ganhou o selo ouro do MEC? O selo ouro não vale nada?”
Haddad também questionou a meta de matrículas em tempo integral. Tarcísio respondeu com uma provocação:
“De não entregar, você tem bastante experiência, né?”
O petista encerrou o embate afirmando:
“Bom, portanto, não entregou.”
Debate paulista foi nacionalizado
Embora a disputa seja pelo governo de São Paulo, Lula, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e a política econômica federal apareceram diversas vezes no confronto.
Tarcísio criticou a política econômica do governo Lula e questionou Haddad, que foi ministro da Fazenda:
“Você acha que o Brasil precisa de ajuste fiscal?”
Haddad respondeu defendendo sua atuação no governo federal e criticando a gestão Bolsonaro. Em outro momento, o petista afirmou que o grupo político de Tarcísio estaria seguindo uma agenda semelhante à do presidente argentino Javier Milei e defendeu a reforma tributária.
Nas considerações finais, Haddad voltou a nacionalizar o confronto ao classificar a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma “ameaça”. Tarcísio, por sua vez, mencionou Flávio apenas no encerramento e reafirmou sua defesa do governo Jair Bolsonaro.
No RS, reconstrução das enchentes domina o debate
No Rio Grande do Sul, o debate da RBS TV reuniu Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB). O confronto foi marcado por discussões sobre reconstrução após as enchentes de 2024, saúde, educação, segurança e situação fiscal.
A reconstrução voltou a provocar divergências. Gabriel Souza defendeu as obras realizadas pelo governo estadual e alertou para o risco de atrasos caso haja mudança na administração.
Juliana Brizola contestou a condução dos recursos federais destinados à reconstrução e afirmou:
“O que eu sei é que temos R$ 6 bilhões numa conta que o governo federal mandou para o Rio Grande do Sul em 2024, mas esse dinheiro está parado. Não tem um projeto. Há 15 dias apareceu o primeiro projeto, para um dique em Eldorado do Sul. Essa demora é além da conta.”
Na saúde, Gabriel Souza defendeu a continuidade do programa SUS Gaúcho e prometeu zerar as filas no primeiro ano de governo:
“O tempo não é do Estado, o tempo é do paciente. Nós vamos manter o SUS Gaúcho, vamos fazer mutirões, mas vamos fomentar os postos de saúde. A saúde será prioridade.”
Polarização nacional também chega aos estados
O debate gaúcho mostrou ainda como a polarização nacional atravessa as eleições estaduais. Juliana Brizola e Zucco trocaram críticas sobre educação e segurança, enquanto Gabriel Souza tentou se apresentar como alternativa à polarização entre os dois.
Ao criticar a proximidade política entre Juliana e Zucco, Marcelo Maranata afirmou:
“Eu vivo um Brasil que está cansado dessa política. O Zucco parece que é vice da Juliana, a Juliana vice do Zucco. Tá difícil ser gaúcho e fica essa polarização dividindo as pessoas.”
Juliana também criticou o tom adotado pelo adversário e cobrou que o debate se concentrasse em propostas para o estado:
“Aqui é um debate para o governo do Estado. Tu quer ficar fazendo ‘memezinho’ de internet, lacrando. Vamos falar sério.”
Com o primeiro turno marcado para domingo (4), os debates realizados nesta semana funcionam como uma das últimas oportunidades para os candidatos apresentarem propostas e confrontarem seus adversários diante do eleitorado. Em São Paulo, a disputa expôs com clareza a dimensão nacional da eleição; no Rio Grande do Sul, a reconstrução das áreas atingidas pelas enchentes e a capacidade de resposta do Estado permaneceram entre os principais temas do confronto.