O desafio de interromper a barbárie se mantém
A tarefa política colocada para nosso tempo é transformar a indignação em organização, a resistência em projeto e a esperança em força coletiva de transformação social
Foto: Comemoração da vitória de Lula em Porto Alegre. (Leandro Molina/Reprodução)
A vitória eleitoral de Lula, numa virada histórica, foi comemorada por todas as forças democráticas e de esquerda do mundo. A letra L virou símbolo de luta contra a extrema direita na Espanha, em Portugal, na França, na América Latina e no Caribe. Tal fato histórico pode ter aberto uma nova etapa ou um novo ciclo histórico em que a possibilidade da derrota da extrema direita se concretize em larga escala? Dias depois, o tsunami azul que produziu a derrota de Trump reforçou essa possibilidade. Antes dela, uma guerra no Oriente Médio, provocada pela política imperialista dos EUA, teve um resultado totalmente inesperado pelos mandatários da Casa Branca que tomaram a decisão de bombardear o Irã e derrubar seu governo.
O Irã resistiu e tem vencido a guerra, controlando o Estreito de Ormuz, o que aumentou o preço do petróleo mundial e repercutiu diretamente na derrota de Trump. Antes do Irã, o genocídio palestino mostra até onde o imperialismo norte-americano dirigido pela extrema direita pode chegar. Essa é ainda a catástrofe que nos ameaça. Gaza segue como projeto para uma parcela importante das forças políticas da classe dominante.
A vitória do Irã, a derrota de Flávio Bolsonaro e a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato dos EUA foram fundamentais para alterar a relação politica de forças no mundo.
As mobilizações da juventude Z fortalecem e confirmam essa alteração. Mas pode a extrema direita ser posta no isolamento em que esteve durante os 30 anos posteriores à Segunda Guerra Mundial? Esse horizonte ainda não está à vista. Talvez não esteja mais, exceto se for resultante de uma derrota e de um esmagamento como nunca antes existiu: a derrota do próprio sistema capitalista. Por isso, estamos falando de uma etapa indeterminada, cujo resultado dependerá da construção de uma alternativa capaz de superar o capitalismo. Daí deriva a tremenda dificuldade que deparamos.
Para entender essa necessidade de ruptura revolucionária faz falta entender as razões da ascensão da extrema direita e quais são os freios de emergência para pará-la.
O que estamos enfrentando
A ascensão da extrema direita constitui um dos fenômenos políticos mais importantes e preocupantes do século XXI. Seu crescimento não pode ser compreendido apenas como resultado de disputas eleitorais, do surgimento de lideranças autoritárias ou da força das redes sociais. Trata-se de um processo mais profundo, relacionado às contradições do capitalismo contemporâneo, à crise de representação política, ao enfraquecimento das organizações operárias e populares e à incapacidade das democracias liberais de responder às necessidades concretas da maioria da população.
Seu crescimento, além disso, responde a uma opção de importantes parcelas da classe dominante que resolveram que a democracia – mesmo a limitada democracia liberal – deve ser vista como empecilho para a aceleração da acumulação de capitais.
As empresas do Vale do Silício, o mais moderno que o capitalismo produziu, são linha de frente na promoção da barbárie.
O avanço das forças de extrema direita expressa uma crise que ultrapassa os limites das instituições políticas. É também uma crise econômica, social, cultural e subjetiva. Para compreendê-la, é necessário investigar as condições históricas que permitiram sua expansão, os interesses econômicos que se beneficiam de sua ascensão e os mecanismos ideológicos que transformam a insatisfação social em ressentimento, intolerância e autoritarismo.
A crise do capitalismo e o terreno fértil para o autoritarismo
A crise econômica internacional iniciada em 2008 representou um marco importante na reorganização política mundial. O desemprego, a precarização do trabalho, o endividamento das famílias, a concentração de renda e a redução das perspectivas de futuro produziram um ambiente de insatisfação generalizada. Depois de um período de ascenso das lutas do movimento de massas, desviadas ou derrotadas, o descontentamento foi capitalizado pela extrema direita. Milhões de pessoas passaram a experimentar a sensação de que as instituições políticas tradicionais já não conseguiam oferecer respostas aos seus problemas.
Nesse contexto, a extrema direita encontrou condições favoráveis para crescer. Apresentando-se como alternativa antissistema, passou a explorar a indignação popular, direcionando o descontentamento contra inimigos cuidadosamente escolhidos: imigrantes, movimentos sociais, organizações sindicais, feministas, ambientalistas, minorias e setores identificados com a esquerda.
O mecanismo é politicamente eficiente porque desloca o debate sobre as causas estruturais da desigualdade. Em vez de questionar a concentração da riqueza, o poder econômico e as relações de exploração, constrói-se a ideia de que os problemas sociais decorrem da presença de determinados grupos ou da suposta decadência dos valores tradicionais.
Assim, a extrema direita transforma insegurança econômica em ressentimento político, medo em intolerância e frustração social em mobilização autoritária.
O problema fundamental não está apenas na existência de discursos conservadores, mas na construção de projetos políticos que procuram destruir direitos, enfraquecer organizações coletivas e restringir os mecanismos democráticos de participação popular.
A dimensão subjetiva do fascismo
O fenômeno da extrema direita não pode ser explicado exclusivamente pelas condições econômicas ou pelos interesses das classes dominantes. É necessário compreender também os mecanismos psicológicos, culturais e afetivos que favorecem a adesão a projetos autoritários.
A dimensão subjetiva permite investigar como o medo, o ressentimento, a necessidade de pertencimento, a idealização de lideranças fortes e a construção de inimigos podem alimentar comportamentos políticos autoritários.
Em momentos de crise, quando as pessoas experimentam a perda de segurança e de perspectivas, cresce a procura por respostas simples e por figuras que prometem restaurar uma ordem idealizada. O líder autoritário apresenta-se como alguém capaz de resolver os conflitos, recuperar a grandeza nacional e proteger a sociedade de ameaças internas e externas.
Essa promessa se alimenta de uma contradição: oferece segurança simbólica enquanto estimula a divisão social, a violência política e a perseguição de adversários.
A extrema direita também constrói uma narrativa de pertencimento baseada na oposição entre nós e eles. A sociedade deixa de ser compreendida como espaço de interesses diversos e passa a ser dividida entre aqueles considerados legítimos e aqueles apresentados como responsáveis pela desordem. Com isso, preconceitos históricos, racismo, misoginia, xenofobia e intolerância encontram novas formas de expressão política.
Compreender essa dimensão subjetiva é fundamental. Não basta demonstrar que determinado discurso é economicamente irracional ou politicamente contraditório. É preciso disputar valores, sentimentos, identidades e expectativas de futuro.
O Brasil e a experiência do bolsonarismo
No Brasil, a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018 expressou a combinação entre uma crise econômica e social, o desgaste das instituições políticas, a polarização ideológica e a reorganização de setores conservadores e autoritários.
O bolsonarismo não surgiu do nada. Suas raízes encontram-se em problemas históricos da formação brasileira: desigualdade social, racismo estrutural, autoritarismo, militarismo, concentração de riqueza e fragilidade da cultura democrática.
A experiência brasileira demonstra como uma liderança de extrema direita pode utilizar os mecanismos da democracia eleitoral para chegar ao governo e, posteriormente, atuar contra os próprios fundamentos do sistema democrático.
Os ataques às instituições, a desqualificação do conhecimento científico, a disseminação de teorias conspiratórias, a hostilidade aos movimentos sociais e a tentativa de transformar adversários políticos em inimigos da nação são componentes dessa dinâmica.
O 8 de janeiro de 2023 representou uma demonstração concreta dos riscos envolvidos. A invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes revelaram que o autoritarismo não era apenas retórica eleitoral. Existia uma disposição de setores mobilizados para romper a ordem constitucional quando o resultado político não correspondia aos seus interesses.
A virada eleitoral
A derrota eleitoral deste ano do clã bolsonarista foi um feito histórico. Os fatores da virada foram muitos, mas é evidente que a campanha do segundo turno foi totalmente diferente da campanha do primeiro. E o fator determinante foi a entrada em cena do movimento de massas que, impulsionado pelo medo da possibilidade do governo Bolsonaro (e pela chamada esperança como “última que morre”), tomou as ruas. Foram centenas de milhares de pessoas, com os jovens na linha frente. Foram esses centenas de milhares que adquiriram experiência e deram um salto em consciência.
Desta vez, diferentemente da experiência de 2013, quando também uma irrupção juvenil entrou na arena da luta política, o balanço não tem nenhuma confusão: todos sabem que suas ações produziram um resultado positivo e uma vitória histórica contra a extrema direita. A consequência é que teremos centenas de milhares de jovens incorporados à ideologia de esquerda dando bases para um processo de reorganização, cujo marco inicial é esta última eleição e o chamado pós-Lula.
Este novo ciclo histórico se abre tendo ainda como tarefa estratégica a luta contra a extrema direita. A situação não está resolvida, não apenas porque a direita tem a maioria do Congresso Nacional, mas porque as condições de surgimento e fortalecimento da extrema direita ainda se fazem presentes.
O bolsonarismo sofreu um golpe que talvez seja definitivo. Mas reduzir a extrema direita à figura de Bolsonaro seria um erro. Outros setores vão atuar e disputar. E se as condições que permitiram a ascensão de Bolsonaro não forem alteradas, a extrema direita vai se recuperar. Sabemos que existe intacta uma direita mais dura. E todos estes se apoiarão no que já conquistaram: bases de apoio, redes de comunicação, vínculos religiosos, articulações parlamentares e relações com setores econômicos.
O desafio da esquerda e os limites da conciliação
A resposta à extrema direita exige uma reflexão crítica sobre a própria trajetória da esquerda. O crescimento das forças autoritárias também está relacionado às dificuldades dos projetos progressistas em produzir transformações estruturais e construir uma relação permanente com os setores populares.
A experiência de governos que chegaram ao poder com expectativas de mudança, mas mantiveram compromissos com estruturas econômicas concentradoras, contribuiu para alimentar frustrações. Quando a política institucional se distancia das necessidades concretas dos trabalhadores, abre-se espaço para discursos que exploram o sentimento de abandono.
Isso não significa estabelecer equivalência entre projetos políticos distintos, mas reconhecer que a defesa da democracia precisa estar acompanhada da capacidade de melhorar efetivamente as condições de vida da população.
A esquerda não pode limitar sua atuação à defesa das instituições, embora essa defesa seja indispensável. Precisa também apresentar um projeto de transformação social capaz de enfrentar a desigualdade, ampliar direitos, fortalecer os serviços públicos e devolver aos trabalhadores a perspectiva de que podem decidir os rumos da sociedade. Eis os problemas que já começam a ser postos no governo Lula 4.
Diante das ameaças autoritárias, a construção de frentes democráticas é necessária. Entretanto, a unidade para defender a democracia não pode significar abandono da independência política nem renúncia à crítica do capitalismo. A construção de uma alternativa anticapitalista precisa ser parte da resposta ao autoritarismo. Na busca por uma saída anticapitalista, será necessário um programa de transição que parta da mobilização pelas demandas imediatas e mais sentidas pelas classes trabalhadoras e as demandas por direitos civis, impulsionando a mobilização e deixando claro que é preciso um poder sem a participação das forças da burguesia.
Essas demandas são conhecidas. Muitas foram os compromissos eleitorais de Lula: tarifa zero pelo menos nos finais de semana, melhoria dos benefícios sociais, fim da escala 6 X 1. Existem as demandas ligadas ao salário e as lutas contra os ajustes e cortes de gastos, que, por sinal, já começaram a ser adotados no governo atual, como a incorporação dos recursos do programa Pé de Meia no orçamento da Educação. Para acumular na direção de um novo plano econômico e social, também é preciso dialogar e se apoiar em propostas econômicas apresentadas por economistas liberais mas que questionam a completa dominância do sistema financeiro no Brasil. É o caso da proposta de redução dos juros e de conselho monetário e fiscal de André Lara Resende, formulador do Plano Real.
O freio de emergência: interromper o caminho para a barbárie
A imagem do freio de emergência, associada ao pensamento de Walter Benjamin, oferece uma boa metáfora para compreender o momento histórico: diante de uma sociedade que caminha em direção à barbárie, não basta administrar a velocidade do processo. É necessário interromper sua trajetória.
Essa imagem ganha ainda mais importância quando observamos a relação entre extrema direita, devastação ambiental, guerras, militarização e ataques aos direitos sociais.
A defesa irrestrita de interesses econômicos imediatos, especialmente daqueles setores comprometidos com a exploração predatória dos recursos naturais, coloca em risco as condições de existência das futuras gerações.
O negacionismo climático, a destruição de áreas de proteção ambiental e a resistência às políticas de preservação não são questões isoladas. Expressam uma visão de mundo que subordina a vida aos interesses econômicos e transforma a natureza em mercadoria. Por isso, o enfrentamento da extrema direita também precisa incorporar a dimensão ecológica e a defesa de um projeto ecossocialista.
O freio de emergência representa, portanto, a necessidade de uma ruptura com a lógica política e econômica que alimenta a desigualdade, a violência e a destruição ambiental.
A reconstrução de uma alternativa coletiva
A extrema direita não será derrotada apenas por argumentos racionais, decisões judiciais ou resultados eleitorais. Esses instrumentos são importantes, mas insuficientes quando não estão acompanhados de mobilização social e de uma alternativa política capaz de disputar a consciência da população.
Conscientes da dificuldade de estruturar um plano global alternativo, em particular pela fragmentação da classe trabalhadora, é necessário redobrar esforços para fortalecer sindicatos, unir celetistas com informais, estatuários e terceirizados, impulsionar movimentos populares, desenvolver e democratizar organizações estudantis, movimentos feministas, movimentos negros, coletivos ambientais e todas as formas de organização democrática da sociedade.
Também é fundamental disputar os territórios, os espaços de trabalho, as periferias, as universidades e os ambientes digitais. A política precisa voltar a dialogar com os problemas cotidianos das pessoas, oferecendo respostas concretas para a precarização da vida, a falta de moradia, o desemprego, a violência, o adoecimento psíquico e a desigualdade.
A construção de uma alternativa de esquerda exige coragem para enfrentar os interesses econômicos dominantes, mas também capacidade de dialogar com aqueles que foram atraídos pela extrema direita em razão do medo, da insegurança e da ausência de perspectivas.
Neste ponto, temos de levar em conta a ausência de um modelo alternativo ao capitalismo. O fracasso da experiência soviética, a crise do Leste, a restauração capitalista neoliberal, tudo isso deu munição à ideologia capitalista. Depois, na América Latina, tivemos o fracasso da Venezuela, o que agravou essa ausência de modelo. Durante muito tempo, Nahuel Moreno definiu que nossa estratégia seria o modelo da URSS com democracia socialista. Isso acabou faz tempo e, mesmo na época, estava equivocado.
Esta é uma realidade que deve ser assumida: não há modelos. Mas tal ausência torna plausível a famosa afirmação de Frederic Jameson de que “é mais fácil imaginar o final do mundo do que o final do capitalismo”.
Uma palavra sobre China
O Banco Mundial estima que cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema desde o início das reformas de 1978. Esse foi o período de restauração capitalista. Mas as bases sobre as quais se fez a restauração não foram as mesmas da restauração soviética. Não foi a adesão ao capitalismo de dominância financeira. Foi a consolidação de um projeto dominado pelo estado, um capitalismo de estado apenas viabilizado porque os capitalistas e latifundiários haviam sido derrotados antes, na Revolução de 1949. De toda a forma, a China serve de contraponto à burguesia brasileira, que diz que o único modelo possível é o capitalismo com suas privatizações, bancos poderosos comandando e conglomerados empresarias como a marca do sucesso.
A classe dominante brasileira é a ideologia dominante, é que o mercado é todo poderoso e deve pautar as decisões políticas. A China mostra que existem possibilidades de combinar diferentes instrumentos econômicos sem transformar fórmulas teóricas em dogmas, mantendo objetivos estratégicos de desenvolvimento nacional. Mostra a importância de projetos nacionais que ultrapassem os ciclos eleitorais e tenham continuidade institucional, científica e produtiva. Há questões que são marcantes na China e que, no Brasil, são consideradas graves erros. Elas explicam boa parte do desenvolvimento chinês e precisamos nos apoiar nelas na defesa de nosso programa:
- Planejamento econômico estatal: capacidade de direcionar investimentos e setores estratégicos;
- Empresas estatais: presença do Estado em setores fundamentais da economia;
- Industrialização acelerada: desenvolvimento da indústria, tecnologia e infraestrutura;
- Combate à pobreza: políticas de redução da pobreza e ampliação das condições materiais de vida;
- Planejamento de longo prazo: metas econômicas e planos nacionais de desenvolvimento.
Ter a China no horizonte do nosso discurso não quer dizer defender o modelo chinês nem ignorar os tremendos problemas do país. A repressão em Hong Kong mostrou que o governo chinês não defende realmente a soberania dos povos. O apagamento histórico da rebelião juvenil de 1989 mostra que os elementos burocráticos e autoritários são dominantes no regime político. A presença de grandes empresas privadas e a desigualdade de renda tendem mais cedo ou mais tarde a produzir contradições que explodam e até desorganizem a sociedade chinesa. A exportação de capital é também uma marca do desenvolvimento do país, com a superexploração da mão de obra.
Do ponto de vista cultural, é inaceitável o culto à personalidade tão presente na China quanto foi presente na então URSS. Este é sucedâneo da religião, mas sem a liberdade religiosa. Então, sem tomar como modelo, e mantendo o princípio de classe e internacionalista de que nosso campo são os trabalhadores chineses e o apoio as suas lutas econômicas, políticas, culturais é preciso conhecer e até difundir avanços da China, sempre reivindicando que foram viabilizados pela revolução socialista que mudou o destino do país. Sem aquela revolução nada do que ocorre na China pode ser explicado. Eis uma arma que deve ser usada em nosso favor para defender a necessidade da revolução brasileira.
Conclusão: conhecer para transformar
A ascensão da extrema direita precisa ser compreendida como expressão de uma crise estrutural da sociedade capitalista contemporânea. Suas raízes econômicas, seus mecanismos subjetivos e sua capacidade de mobilização demonstram que estamos diante de um fenômeno que exige respostas políticas muito mais profundas do que a simples disputa eleitoral.
Derrotar eleitoralmente a extrema direita é necessário, mas não suficiente. É preciso combater as condições econômicas, sociais e culturais que permitem sua reprodução.
A defesa da democracia precisa significar também defesa da igualdade, da liberdade, dos direitos humanos, da justiça social e da participação popular. Sem isso, a democracia corre o risco de permanecer reduzida a um conjunto de procedimentos institucionais, distante das necessidades reais da maioria.
O desafio histórico da esquerda é construir uma alternativa que não se limite a administrar a crise, mas que seja capaz de apresentar outro horizonte de sociedade.
O freio de emergência não será acionado por uma liderança isolada, por uma eleição ou por uma instituição. Será resultado da organização consciente de milhões de pessoas que compreendam que o futuro não está determinado e que a história continua aberta à ação coletiva.
Interromper a marcha da barbárie significa recuperar a capacidade de imaginar e construir um mundo diferente. Um mundo no qual a economia esteja a serviço da vida, a democracia seja exercida cotidianamente e a liberdade não seja privilégio de poucos.
Essa é, em última instância, a tarefa política colocada diante de nosso tempo: transformar a indignação em organização, a resistência em projeto e a esperança em força coletiva de transformação social.