Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Trump provocará uma guerra comercial

Sobre as recentes medidas protecionistas adotas por Donald Trump com relação às importações de aço e alumínio.

Fábrica de aço nos EUA - Reprodução
Fábrica de aço nos EUA - Reprodução

Uma manhã de junho de 1930 o presidente Hebert C. Hoover recebeu na Casa Branca o banqueiro Thomas Lamont, sócio do banco J. P. Morgan. Lamont relatou pouco depois o que sucedeu na entrevista: “Quase me ajoelhei para implorar ao presidente que exercesse seu poder de veto contra a estúpida lei Hawley-Smoot”. Essa norma contemplava aumentar as tarifas de centenas de artigos importados pelos Estados Unidos a fim de proteger empresas e fontes de emprego.

A lei havia sido aprovada em maio por ambas as câmaras, mas Hoover, todavia poderia vetá-la e regressá-la ao Legislativo. Ainda que o banqueiro tivesse toda a confiança do presidente, este decidiu assinar o decreto dando plena vigência a esse instrumento legal e aumentando as tarifas de 890 artigos, desde bens manufaturados até produtos agrícolas. De repente se desatou uma feroz guerra comercial, justo quando o mundo se afundava na Grande Depressão. A lei Hawley-Smoot não provocou essa grande crise, mas sim contribuiu para fazê-la mais profunda e longa. A guerra comercial que ajudou a desatar serviu para que a depressão cruzasse todas as fronteiras. E a mensagem de protecionismo tóxico acentuou os efeitos da crise: entre 1929 e 1933, os fluxos do comércio internacional caíram de 5,3 para 1,8 bilhões de dólares (mmdd).

É importante recordar este triste episódio à luz das ameaçadoras medidas recém-adotadas por Donald Trump. As tarifas de 25 e 10 por cento impostas pela Casa Branca às importações de aço e alumínio, respectivamente, serão contraproducentes por duas razões importantes. Primeiro, porque estas medidas desatarão uma guerra comercial generalizada quando os países afetados aplicarem medidas compensatórias. A UE, por exemplo, declarou que poderia impor tarifas às importações de motocicletas Harley Davidson, aos jeans e até ao whisky Bourbon. Mas as guerras comerciais reduzem o crescimento e a geração de empregos. Não é o que necessita a economia global que segue afetada pela grande crise financeira de 2008.

Segundo, os efeitos em cascata dentro da economia estadunidense afetarão de forma negativa as empresas e trabalhadores das indústrias usuárias do aço e alumínio importados. Setores como o automotivo, o de eletrodomésticos e o da construção serão afetados pelo aumento do custo de seus insumos. E se os assessores de Trump creem que estas tarifas conduzirão a uma expansão da indústria de aço e alumínio, deveriam pensar duas vezes, pois construir uma nova fábrica nessas indústrias não se faz da noite pro dia. As tarifas não frearão o declínio industrial nos Estados Unidos.

A Casa Branca afirma querer recuperar a grandeza da indústria de aço e alumínio. Mas a história demonstra que o declínio desses ramos da produção nos Estados Unidos se deve mais a seus próprios erros do que a outra coisa. No caso do aço, depois da segunda guerra, o domínio da indústria estadunidense era total, e por essa razão se manteve fiel à tecnologia tradicional com fornos tipo Bessemer. Mas desde os anos 50 os europeus começaram a experimentar tecnologias mais eficientes (injeção direta de oxigênio) que logo começaram a dominar nesse ramo. Para os anos 70, os fornos de arco elétrico também se haviam difundido, enquanto os gigantes da indústria nos Estados Unidos se mantinham aferrados à velha e rígida tecnologia. Em conclusão, a falta de competitividade da indústria siderúrgica estadunidense se deve a sua complacência. Mas para essa doença, o remédio correto não é uma maior dose de protecionismo.

As tarifas anunciadas por Trump são uma advertência ameaçadora. Já em janeiro taxou as importações de máquinas de lavar e painéis solares e as novas medidas confirmam sua bravata no âmbito da rivalidade comercial. Hoje as probabilidades de que Trump rompa as negociações sobre o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) aumentaram significativamente. Seus principais assessores em matéria comercial, começando com o secretário de comércio, Will Ross; o representante de comércio, Robert Lightizer, e o presunçoso e ignorante assessor especial, Peter Navarro, adotaram abertamente uma postura anti-NAFTA. Hoje, esse instrumento entreguista do qual tanto se orgulham os tecnocratas neoliberais está pendendo por um fio.

Se algo nos ensina a história econômica é que as guerras comerciais não servem para mudar o curso das profundas reestruturações econômicas que sofrem as economias capitalistas. Essas modificações tectônicas não se podem reverter com tarifas ou cotas de importações. Ademais, a história revela que com frequência as guerras comerciais estiveram estreitamente vinculadas a rivalidade para manter uma hegemonia monetária. É quase normal que por seus efeitos econômicos negativos, os conflitos comerciais também terminem por conduzir a guerras armadas. O contexto atual mundial tem todos esses ingredientes de um coquetel explosivo. A conflagração terá repercussões terríveis.

Tradução de Marcelo Martino da versão em espanhol disponível no portal Sin Permiso.

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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