A misoginia como uma ferramenta de disputa da extrema direita na América Latina
É preciso combinar a batalha eleitoral que se aproxima com a organização de um movimento feminista internacional amplo, radical e consciente
Foto: Mobilização feminista em Buenos Aires. (FBA/Reprodução)
As eleições brasileiras de 2026 vão definir com que grau de dificuldade será o enfrentamento à extrema direita no mundo no próximo período. O presidente dos EUA, Donald Trump, abalado por derrotas internas (movimento No Kings e anti-ICE) e externas (guerra contra o Irã), precisa da vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil. Ainda assim, Renan Santos, do partido Missão, é mais um que apresenta o perfil fascista e misógino nessa campanha presidencial.
No último editorial da Esquerda em Movimento, a importância da eleição brasileira na conjuntura internacional é discutida entendendo também a situação interna e externa do governo Trump e como ela afeta a América Latina. Assim como existe um forte sentimento anti-Trump entre o povo latino, a luta contra a misoginia aqui também é uma barreira importante na defesa da nossa soberania nacional.
Um outro representante do projeto de Trump, inclusive da taxação de produtos brasileiros, é o candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL). Há duas semanas, ele apostou na misoginia pura e escancarada ao atacar a candidata ao senado pelo PSOL, Manuela D’ávila. O adesivo ‘’anti-Manuela’’ com o alvo vermelho no rosto da candidata expressa essa aposta no discurso violento contra as mulheres, principalmente no contexto em que o Brasil marca recordes de feminicídios.
Por outro lado, Manuela e as candidatas e candidatos do PSOL saem por cima no enfrentamento. É no PSOL que as lutas por soberania nacional e feminista se encontram. Se nos EUA existem hoje ‘’mini-Mandanis’’ ganhando as primárias e dispostos a defender o programa da esquerda socialista, no Brasil existem feministas de norte a sul dispostas a combater e vencer a extrema direita. Passa por isso a disputa do voto feminino, principalmente entre as evangélicas. Em que pese a ‘’popularidade’’ que o ódio às mulheres têm ganhado nas redes sociais, graças às Big Techs e aos bilionários subservientes a Trump, a consciência feminista tem raízes fortes entre as mulheres latinas combinada com uma latência da pauta feminista desde o movimento Mulheres Vivas no Brasil e o Ni Una Menos na Argentina.
Dentro dessa disputa, o voto feminino representa um elemento duplo. É um direito conquistado pelo movimento feminista há muitas décadas e que volta a ser questionado exatamente pelo caráter democrático e consciente nas últimas eleições. Vale lembrar que, em 2018, o movimento Ele Não impediu a vitória de Bolsonaro no primeiro turno e, em 2022, o voto feminino, combinado com o desgaste do governo Bolsonaro, garantiu a vitória de Lula. Esses avanços do feminismo latino com o voto feminino, direito ao divórcio, possibilidade de independência/participação política e mais recentemente a luta pela legalização do aborto custam cada vez mais para o Capital. Aliado a isso, o feminismo latino tem uma tradição de ruas e tem sempre a possibilidade de levar a batalha para as ruas com uma maioria social unificada pelos direitos das mulheres.
A Lei Maria da Penha, que completou 20 anos nesta última sexta-feira (07), também voltou à pauta colocando a batalha de uma mulher que sofreu violência, a transformou em um ativismo muito além do simbólico. A Lei Maria da Penha significa, para a maioria das mulheres brasileiras, a possibilidade de lutar pela própria vida e de acreditar em um fim que não é trágico. Por outro lado, se revela que nenhum direito será garantido sem luta e sem um enfrentamento direto ao alinhamento dos líderes da extrema-direita no Brasil e no mundo. Casos de violência grotescos, listas de “estupráveis” e vídeos que orientam ‘’o que fazer quando ela diz não’’ são cada vez mais cotidianos, testando a régua da moralidade em 2026 para o que foi a vida das mulheres há séculos.
Se a palavra misoginia é muito conhecida hoje, o sentido da palavra consentimento precisa ser popularizada novamente, combinando a batalha eleitoral que se aproxima com a organização de um movimento feminista amplo, radical e consciente de que seu programa faz Zucco, Flávio, Milei e Trump tremerem. Na América Latina, imperialistas e misóginos não podem se criar!