Ainda e finalmente a Copa: Mbappé e a fé no que virá
A Copa das contradições trouxe muitos dissabores, mas também diversos exemplos de luta e resistência para o futuro
Terminada a Copa, além da estafa e do tédio que ocupam o lugar social das partidas acompanhadas por multidões no planeta, ainda cabem algumas reflexões.
Com o Brasil precocemente eliminado, as redes inundadas de polêmicas como a rivalidade entre brasileiros e argentinos, vale apontar alguns elementos centrais e arriscar alguns prognósticos do que vem pela frente.
Em primeiro lugar, foi uma Copa que gerou muitos debates políticos, culturais e desportivos. Foi uma copa que expressou a situação mundial, uma verdadeira copa das contradições.
Uma Copa onde o streaming superou a transmissão tradicional das emissoras de televisão aberta, apenas para citar um dos aspectos do “novo tempo”, onde mudam as formas do esporte e dos meios de comunicação de massas.
Uma Copa onde Trump dobrou o não menos mafioso Infantino a reverter o resultado de um cartão vermelho em campo, lembrando a cena de um Chaplin histriônico brincando com o Globo no épico “O Grande Ditador”.
De um lado, as bets, a extrema direita, o desmonte de coletividade como se notou na seleção brasileira, as trampas de Trump, o racismo, a perseguição aos imigrantes e elitização do esporte. No outro lado do campo, jogaram a esperança das seleções menores, a cooperação em times como de Cabo Verde, a unidade entre torcedores do México, Estados Unidos e Canadá, mesmo os nórdicos da Noruega ao celebrar com uma coreografia comum, a vaia a Trump, o esforço de trabalhos em equipe. A meu ver duas figuras antagônicas poderiam simbolizar o que foi a copa, com o risco de ser reducionista.
Neymar e Mbappé. Um verdadeiro interregno separa esses dois jogadores, entre os mais conhecidos do futebol mundial. Se pudesse agregar outras figuras, levaria junto o incrível Lamal e como concessão aos argentinos, a garra de uma figura como o arqueiro Dibu Martinez.
Entretanto, fico com Mbappé e Neymar como ilustrações das contradições de uma Copa repleta e marcada por contradições.
Neymar foi a cara de um Brasil derrotado. Uma seleção marcada pela apatia e pelo individualismo, sustentada pelos bilhões que rodam nas Bets. Apoiador da extrema direita e dos seus valores, Neymar é arrogância de um futebol feio e precificado. Sua última Copa encerra de forma lacônica uma carreira onde seu enorme talento individual contrasta com a incapacidade de triunfos coletivos. A seleção brasileira de Ancelotti, fruto de uma CBF corrupta e desconectada dos anseios populares, entra para história como uma seleção sem marca, apesar de contar com grandes jogadores como Vini Jr e Endrick.
Já Mbappé chegou ao topo da artilharia em Copas. Foi o artilheiro da Copa 2026, balançando 10 vezes as redes, se tornou o maior artilheiro de todas as Copas, com 22 gols. Com apenas 27 anos, o atacante que nasceu no ano do primeiro título mundial da França, Mbappé, no auge de sua carreira, tem duas ou três copas mais pela frente para ampliar sua impressionante marca.
Foi mesmo uma “Copa da diáspora”, como bem escreveram Gustavo e Louvato. A seleção da França é uma das que expressa essa condição, onde seus ídolos nacionais são quase todos de origem árabe e africana. Mbappé tem pai de origem camaronesa e mãe com ascendência argelina, simbolizando contra os discurso de ódio da direita xenófoba francesa, o orgulho das periferias de toda França.
E para completar o “hat trick”, Mbappé foi um dos pouquíssimos jogadores a se recusar a fazer propaganda para as bets, justificando que para as camadas trabalhadoras, para os colegas de bairro de onde ele vem, o vício no jogo é uma chaga.
A indicação do ídolo Zidane para ser o novo treinador da seleção francesa nos mostra esperança. O encontro de duas gerações “da diáspora”, com Zizu e Mbape jogando juntos, é um alento para a disputa dos próximos torneios rumo à Copa centenária, de 2030.
Os desdobramentos políticos serão relevantes. A França vive uma verdadeira desintegração de sua política colonial, com as independências recentes no Sahel, o debilitamento da política “Francafrica”, as revoltas dos Kanakys e das colônias ultramares. Isso se combina com a luta dos subúrbios contra a linha anti-imigração dos partidos de direita e extrema direita francesa, sobretudo a corrente ligada a LePen.
Uma seleção onde os heróis são imigrantes vai pesar na próxima quadra política, que tem a eleição presidencial de 2027 como nova rodada. A esquerda pode se posicionar e disputar, a depender do clima político, com a necessidade de unidade das forças antifascistas ao redor da candidatura de Jean Luc Melenchon.
A aposta no que virá é que a “era Neymar” fique para trás. E que as gerações de Lamal, Vini jr e Mbappé possam florescer com outros padrões e disposição.
Três questões, para concluir, são centrais, a meu ver:
- o entendimento das bets como parte da face do “realismo capitalista” no mundo dos esportes; uma luta tenaz e ampla contra essas práticas é central.
- a contradição entre ídolos populares com alcance de massas oriundo de origem migrante e a extrema direita que ataca nessa frente; o pilar desse choque será a França, no período que se abre e vai até a eleição presidencial de 2027.
- a hipótese de Mbappé representar uma recomposição no futebol, de forma mais coletiva, engajada, vibrante. Afinal de contas, o “jovem” Mbappé é simplesmente o maior recordista na história de gols na Copa.
A Copa das contradições trouxe muitos dissabores. Mas trouxe a festa de um Lamal, apoiador da Palestina, na conquista da Fúria; a celebração anti imperialista com a faixa das Malvinas em mãos da seleção argentina, e ao meu ver, colocou Mbappé em condições de futuro, com fé no que virá, nos próximos anos.