A OTAN e as “oportunidades para a paz”

A OTAN e as “oportunidades para a paz”

Trump rebaixou a Europa de vassala a serva e a obriga a pagar uma guerra que ninguém vencerá

Jorge Costa 30 jun 2026, 11:20

Publicado em Esquerda.Net

O pós-Segunda Guerra Mundial e o pós-Guerra Fria foram momentos de grandes expectativas sobre novos arranjos de segurança europeia e internacional que evitassem o regresso da guerra à Europa e permitissem a redução do fardo militar em tempo de paz, libertando riqueza para o desenvolvimento e a justiça social.

Neste artigo, revisito o ciclo de conversações entre Aliados e URSS no início da década de 50 em torno da questão da Alemanha, bem como as implicações do processo de restauração capitalista no leste europeu em termos de segurança internacional e europeia. Nos dois momentos, foi determinante a política norte-americana de primazia à afirmação e expansão da NATO.

Molotov e “a oportunidade para a Paz”

Conferência de Genebra, em 21 de julho de 1955. Da esquerda para a direita, o MNE soviético, Vyacheslav Molotov, o presidente do Conselho de Ministros da URSS, Nikolai Bulganine, o líder soviético Nikita Khrushchev, o político e militar Georgi Jukov, o presidente francês do Conselho de Ministros, Edgar Faure, o secretário britânico de negócios estrangeiros, Harold Macmillan, o primeiro-ministro britânico, Anthony Eden, e o Secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles. (foto AFP)7
Conferência de Genebra, em 21 de julho de 1955. Da esquerda para a direita, o MNE soviético, Vyacheslav Molotov, o presidente do Conselho de Ministros da URSS, Nikolai Bulganine, o líder soviético Nikita Khrushchev, o político e militar Georgi Jukov, o presidente francês do Conselho de Ministros, Edgar Faure, o secretário britânico de negócios estrangeiros, Harold Macmillan, o primeiro-ministro britânico, Anthony Eden, e o Secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles. (foto AFP)7

Em Abril de 1953, o quadro do pós-guerra mundial não estava ainda completamente estabilizado. Estaline acabava de morrer, na Alemanha oriental era esmagada a primeira de uma série de revoltas populares (depois, Hungria 1956 e Checoslováquia 1968) sufocadas pelo Exército Vermelho. No seu discurso «Uma Oportunidade para a Paz», em abril de 1953, Eisenhower desafia a URSS a demonstrar as suas intenções pacíficas pondo fim à guerra na Coreia, assinando um tratado sobre a independência da Áustria, libertando os prisioneiros de guerra remanescentes e concedendo aos povos do leste europeu a liberdade de escolherem os seus próprios governos. Dois anos depois, todas as exigências de Eisenhower tinham sido satisfeitas, exceto a concessão da soberania completa aos países da Europa de leste, que a liderança soviética daquela época nunca aceitaria.

Viatcheslav Molotov, o veterano ministro dos negócios estrangeiros da URSS (que assinara com o ministro Ribbentrop o pacto nazi-soviético de partição da Polónia em 1939), insiste na criação de um novo status quo para o pós Segunda Guerra Mundial, assente na convivência pacífica entre os blocos socialista e capitalista. O estatuto de soberania limitada atribuído por Moscovo aos países do leste europeu estaria fora da mesa, mas a questão alemã poderia ser discutida. A URSS propõe aos Aliados a realização de eleições livres numa Alemanha unificada, desde que seja garantida a futura neutralidade do país, integrado num novo sistema europeu de segurança coletiva de que a URSS seria parte integrante (Roberts, 2008).

Em março de 1954, a abertura de Eisenhower à proposta de Moscovo era tão curta como a dos soviéticos quanto à liquidação do bloco de Leste pela via eleitoral. E todo o quadro fica ainda mais difícil com a acelerada adesão da RFA à NATO em maio de 1955. Em resposta, é criado o Pacto de Varsóvia (seis anos depois da fundação da NATO). Os governantes soviéticos ainda vão propor uma distensão organizada entre os dois blocos: aproximação confederal entre as duas Alemanhas e dissolução gradual da NATO e do Pacto de Varsóvia numa nova estrutura comum de segurança. Molotov chega mesmo a propor, em alternativa, a admissão da URSS na NATO, mas os Aliados recusam qualquer negociação sobre segurança europeia enquanto os soviéticos não abdicarem da neutralidade da Alemanha como condição para a reunificação (Roberts, 2008).

Ninguém pode hoje dizer o que teria acontecido se esta “oportunidade para a paz” tivesse sido aproveitada, qual teria sido o impacto que a perda da RDA teria no leste europeu e na própria URSS ou quanto duraria a neutralidade de uma Alemanha submetida a um sistema europeu de segurança coletiva. Certo é que foi preciso atravessar quatro décadas de Guerra Fria para que, com o fim da URSS, fosse reaberto o debate sobre uma arquitetura de segurança euro-asiática.

Gorbachev e o fim da Guerra Fria

Reunião em Camp David, 2 Junho de 1990. No sentido dos ponteiros do relógio: intérprete Peter Afanasenko, Secretário de Estado norte-americano, James Baker, o presidente George H. W. Bush, vice-presidente Dan Quayle (único de gravata), conselheiro de segurança nacional, Brent Scowcroft, MNE soviético, Eduard Shevardnadze, Presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, e o marechal soviético Sergei Akhromeyev (de costas para a foto).  (George H.W. Bush Presidential Library, P13412-08)
Reunião em Camp David, 2 Junho de 1990. No sentido dos ponteiros do relógio: intérprete Peter Afanasenko, Secretário de Estado norte-americano, James Baker, o presidente George H. W. Bush, vice-presidente Dan Quayle (único de gravata), conselheiro de segurança nacional, Brent Scowcroft, MNE soviético, Eduard Shevardnadze, Presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, e o marechal soviético Sergei Akhromeyev (de costas para a foto).  (George H.W. Bush Presidential Library, P13412-08)

Após quatro décadas de Guerra Fria, a figura de Mikhail Gorbachev marca o ritmo e o sentido de um processo em grande medida imprevisto dentro e fora da URSS, tanto por aliados como por inimigos. No início de 1985, o “socialismo real” era uma das duas superpotências que se confrontavam na Guerra Fria e a doutrina de Reagan era ainda a da URSS como “império do mal”. Os EUA armavam diretamente a insurgência fundamentalista anti-soviética no Afeganistão e guerrilhas de desestabilização em países saídos de processos anti-imperialistas (Nicarágua, Angola, Moçambique). Mas o tempo da história foi mais rápido do que o esperado nas chancelarias. Apenas sete anos depois, a URSS tinha deixado de existir.

Desde o final da década de 1970, os sinais acumulavam-se: taxas de crescimento em queda e inferiores às dos EUA por mais de uma década; impossibilidade de, nessas condições, compatibilizar modernização da economia, resposta aos EUA  na corrida ao armamento e aumento do nível de vida da população. Neste período, 60 milhões de soviéticos viviam em vulnerabilidade económica e o sistema de saúde degradava-se até à diminuição da esperança média de vida (Mandel, 1992). A perestroika (em português, reestruturação), reforma lançada por Gorbachev em 1985, visava preservar a URSS respondendo à sua crise e ao esgotamento do seu modelo burocrático, militar e policial.

Combinando objetivos cada vez mais contraditórios, a perestroika acaba por desmantelar a antiga economia planificada sem gerar uma alternativa consistente. A inflação galopante precipita o declínio da URSS: os bens de consumo desaparecem dos circuitos de distribuição legais, substituídos por máfias ou pelo mercado livre, a preços exorbitantes. As ligações entre as empresas públicas começam a dissolver-se.

Para chefiar a política internacional do governo soviético, Gorbachev nomeia Eduard Shevardnadze, então secretário do PCUS na Geórgia, que executará nos anos seguintes uma estratégia de desanuviamento com vista à redução da despesa militar. Nesse contexto, o mesmo Ronald Reagan que em 1983 lançava a “guerra das estrelas” (Iniciativa de Defesa Estratégica, na designação oficial) e entregava mísseis anti-aéreos aos fundamentalistas mujahedines no Afeganistão, passava a realizar cimeiras anuais com Gorbachev, alterando política e discurso.

Em 1987, contra a opinião de Henry Kissinger e de outros vultos republicanos (Brown, 2010), Reagan assina o acordo para eliminar armas nucleares de médio alcance. A URSS é quem mais cede nesse terreno e, no ano seguinte, anuncia a retirada do Afeganistão, ao mesmo tempo que corta o apoio militar à revolução sandinista na Nicarágua e a Cuba, ao ANC sul-africano, à SWAPO namibiana, ao MPLA e à FRELIMO. Ao mesmo tempo, Gorbachev consegue afastar chefias militares hostis, aproveitando o desaire de segurança verificado em maio de 1987, quando um jovem alemão, Matthias Rust, conduziu um avião ultraleve até à Praça Vermelha, em Moscovo, onde aterrou sem ser importunado por forças soviéticas.

Em junho de 1988, na XIX Conferência do PCUS, Gorbachev declara que não haverá mais intervenções em países estrangeiros. Quando reitera esse discurso na ONU, em dezembro, a imprensa limita-se a destacar a redução de efetivos no Leste, mas desvaloriza o plano dos princípios: “a imposição externa de um sistema social, de um modo de vida ou de políticas por quaisquer meios, sobretudo militares, é uma perigosa armadilha do passado”. O então secretário de Estado norte-americano, George Schultz, comentaria mais tarde que, “se alguém declarou o fim da Guerra Fria, fê-lo naquele discurso. E a imprensa passou ao lado” (Brown, 2010). Retirado o penhor soviético, as “democracias populares” do Leste caem de imediato, arrastando a pacífica anexação da RDA pela Alemanha federal e esvaziando o Pacto de Varsóvia até à sua extinção formal em junho de 1991. Uma nova “oportunidade para a paz” estaria à vista.

Na URSS, o desastre económico anuncia-se ao longo do seu último ano de existência. Perante o debate de um “Plano Marshall” para apoiar a liberalização, Brent Scowcroft, conselheiro de segurança nacional de Bush, dá o tom: sem reformas económicas radicais, a Rússia poderia tornar-se “um poço sem fundo”. Em julho de 1991, Gorbachev questiona Bush: se os EUA podiam gastar 100 mil milhões de dólares na guerra do Golfo, por que não podiam investir na perestroika, que tinha assegurado enormes ganhos no âmbito da política externa, incluindo um apoio soviético sem precedentes no Médio Oriente? Gorbachev alinha no “momento unipolar” iniciado com o ataque ao Iraque e aprova mesmo as resoluções do Conselho de Segurança da ONU autorizando os bombardeamentos liderados pelos EUA. Mas a resposta de Washington ao pedido de apoio financeiro é negativa, bem abaixo dos 30 mil milhões de dólares entregues à Europa de Leste como ajuda ocidental (Anderson, 2014).

Nesta fase, os EUA ainda valorizam a Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa (depois OSCE, onde se reuniam os países da NATO e do Pacto de Varsóvia), mas já recusam a ideia de obsolescência da NATO no novo contexto histórico. Pelo contrário: a “operação tempestade no deserto”, na sequência da invasão iraquiana do Koweit, confere a Saddam Hussein o papel de “pária” exemplar que moldará o novo conceito estratégico da NATO. Na cimeira de Roma, no final de 1991, os Estados membros são chamados a uma maior mobilidade para gestão de crises, em linha com o modelo de reação rápida criado por James Carter após a revolução iraniana: os “riscos para a segurança dos aliados podem (…) derivar de dificuldades, incluindo rivalidades étnicas e disputas territoriais que são vividas por muitos países da Europa central e de leste”.

Ieltsin e o momento unipolar

Em 1987, Boris Ieltsin perfilava-se como um dirigente comunista crítico. Cai em desgraça como responsável local do PCUS em Moscovo e demite-se do cargo, chegando a simular uma tentativa de suicídio para se furtar ao confronto nas instâncias partidárias (Brown, 2010). Mas nunca se tornou um dissidente: no verão de 1988, Ieltsin ainda apela à XIX Conferência do PCUS para a sua reabilitação, no “espírito da perestroika”. A sua oportunidade chega com a mudança do sistema eleitoral promovida por Gorbachev em 1989. Ieltsin ganha fama numa campanha estridente pela aceleração das reformas, sendo eleito deputado quando muitos hierarcas do PCUS falham esse objetivo por ficarem aquém dos 50% de votos favoráveis.

O golpe de agosto de 1991 vai conferir a Boris Ieltsin um novo estatuto político. Boa parte da hierarquia do PCUS, das chefias militares e do KGB adere à tentativa de travar o fim da URSS. Com Gorbachev detido pelos golpistas na sua casa de férias, Ieltsin lidera o cerco protetor do parlamento. Face à multitudinária reação popular, o episódio termina ao terceiro dia, mas a situação política altera-se drasticamente. Nos meses seguintes, Ieltsin promove – com acordo de Gorbachev – a proibição do PCUS pelo parlamento. São proclamadas as independências dos países bálticos, da Arménia, da Geórgia e da Moldávia. A dinâmica centrífuga é imparável e vai consumar o fim da URSS em dezembro – e a consequente despedida de Gorbachev. Termina o período bicéfalo da crise e Ieltsin, à cabeça da “Rússia independente”, é o único vencedor.

Em suma, o derrube de Gorbachev foi essencialmente obra de uma fação rival da nomenklatura, ainda distinta dos novos oligarcas mas já com zonas de sobreposição. Os chefes do PCUS na Ucrânia e no Cazaquistão aliam-se a Ieltsin após o fracasso do golpe de agosto de 1991 e convertem-se em líderes independentistas nas respetivas repúblicas, continuando a contar com os departamentos locais do KGB praticamente inalterados (Mandel, 1992). A Ucrânia, que em março tinha larga maioria a favor de uma federação renovada, vota em dezembro, esmagadoramente, pela independência.

No dia 2 de janeiro de 1992, Ieltsin, rodeado de conselheiros ocidentais, inicia a “terapia de choque”: abolição dos controlos estatais sobre a maioria dos preços de bens de consumo e serviços, explosão da inflação, transição para economia de mercado. O efeito das medidas é equivalente ao impacto de uma guerra total: a hiperinflação (1350% em 1992) lança a maioria da população na pobreza. O PIB cai 43% entre 1991 e 1998, a produção industrial diminui 56%. A economia informal, estimada em 40% pelo governo de então, constitui máfias poderosas que, em aliança com setores da antiga nomenklatura ou dos novos poderes, disputam a apropriação privada das infraestruturas, das empresas e dos recursos naturais, através da violência e da corrupção. Milhões de cidadãos das antigas repúblicas soviéticas, a começar pelos mais qualificados, emigram para a Europa e para a América do Norte.

Nas eleições de 1992 e 1993, as forças ultra-nacionalistas (Jirinovsky) ou neo-estalinistas (Ziuganov) obtiveram resultados significativos. Boris Ieltsin, o defensor do parlamento perante o golpe de agosto de 1991, estará dois anos depois a ordenar o bombardeamento da Duma, cuja dissolução era recusada pelos deputados ali sitiados.

Com apoio ocidental, Boris Ieltsin manda bombardear o parlamento russo para aplacar a contestação à terapia de choque.
Com apoio ocidental, Boris Ieltsin manda bombardear o parlamento russo para aplacar a contestação à terapia de choque.

Ieltsin abre um ciclo de presidencialismo autoritário que vai manter-se até hoje. Como assinala Perry Anderson:

“É possível que Ieltsin fosse um bêbado corrupto e incompetente, mas tinha-se convertido à causa do anticomunismo e não tinha escrúpulos em aplicar uma terapia de choque nem em entregar os principais ativos do país a um pequeno grupo de criminosos em troca de somas simbólicas, reservando uma comissão para os consultores transferidos de Harvard para a Rússia. Ieltsin enviou tanques para o parlamento russo e manipulou um referendo constitucional para se manter no poder, e a equipa de Clinton felicitou-o calorosamente. Quando se viu que a sua reeleição estava em risco, chegou um oportuno empréstimo norte-americano, juntamente com uma equipa de conselheiros vindos da Califórnia, que o ajudaram na campanha eleitoral. Depois de Ieltsin arrasar Grozni, Clinton celebrou a libertação da Chechénia. Quando eclodiu a crise financeira de 1998, o FMI ajudou-o sem condições. Em contrapartida, o alinhamento diplomático de Ieltsin com Washington era tão completo que Gorbachev, que não era de forma alguma suspeito de hostilidade para com os EUA, chegaria a afirmar que o seu ministro dos Negócios Estrangeiros era o cônsul norte-americano em Moscovo” (Anderson, 2014).

Clinton e a recusa do dividendo da paz

Clinton assina o tratado de alargamento da NATO à Polónia Checoslováquia e Hungria. 21 de maio de 1998
Clinton assina o tratado de alargamento da NATO à Polónia Checoslováquia e Hungria. 21 de maio de 1998

Sobre a atuação de um poder vencedor perante um inimigo derrotado, o historiador John Lewis Gaddis (citado em Achcar, 2024), identifica três “pontos de referência – 1815-18, 1918-19 e 1945-48”:

“Os historiadores estão em geral de acordo sobre as lições a tirar de cada um deles. Eles aplaudem as resoluções das guerras napoleónicas e da Segunda Guerra Mundial porque os aliados vitoriosos atuaram o mais depressa possível para trazer os seus adversários vencidos – a França no primeiro caso, a Alemanha e o Japão no segundo – de volta ao sistema internacional como participantes integrais nas estruturas de segurança do pós-guerra. Os historiadores tendem a criticar (senão a condenar) os acordos estabelecidos após a Primeira Guerra Mundial precisamente porque não o fizeram para dois dos mais poderosos estados europeus – a Alemanha e a Rússia soviética. Argumentam que a instabilidade resultante abriu caminho a uma nova conflagração”.

Quanto à derrota da União Soviética na guerra fria, ela foi seguida da aplicação de uma “doutrina de choque” neoliberal que consumou a humilhação nacional de um país enorme e ferido, em que a psicologia de cerco historicamente integrou diferentes narrativas políticas. Em particular, o anúncio da expansão da NATO foi feito logo em 1994 e em choque flagrante, não só com a posição da Federação Russa mas também com as garantias oferecidas a Gorbachov, em 1990, pelo Secretário de Estado norte-americano James Baker – “nem um centímetro para leste”. Compromissos no mesmo sentido foram afirmados por diversos líderes ocidentais ao longo do processo de unificação alemã, como atestam documentos desclassificados dos EUA, da URSS, da Alemanha, do Reino Unido e da França divulgados online. A violação dessas garantias foi recordada de forma expressiva por Mikhail Gorbachev em 2014, logo após a imposição do controlo russo da Crimeia:

“Naqueles anos [1990-91], o tema da expansão da NATO não foi de todo discutido, nem abordado. (…) Nenhum país da Europa Oriental o sugeriu, nem mesmo após o fim do Pacto de Varsóvia em 1991. [Em 1993, já sob Ieltsin] considerei isso um grande erro. Foi certamente uma violação do espírito das declarações e garantias que nos foram dadas em 1990. (…) Temos agora uma crise nas relações europeias. Uma das suas causas, embora não a única, é a relutância dos nossos parceiros ocidentais em ter em conta o ponto de vista, os interesses legítimos e a segurança da Rússia. Verbalmente, aplaudiram a Rússia, especialmente durante os anos de Ieltsin, mas, na prática, não lhe deram qualquer importância. Estou a pensar principalmente no alargamento da NATO, nos planos para a implantação de um escudo antimísseis e nas ações do Ocidente em áreas importantes para a Rússia (Jugoslávia, Iraque, Geórgia, Ucrânia). Disseram-nos, literalmente: não é da vossa conta. Como resultado, formou-se um abcesso, que rebentou.”

Após as eleições presidenciais de 1993 e pela primeira vez em quarenta anos, os EUA estavam em condições de determinar unilateralmente o ambiente de segurança internacional. Durante vários meses, o novo presidente, William Clinton, terá hesitado entre a manutenção da NATO nos seus limites de então e a expansão para os países do antigo Pacto de Varsóvia ou mesmo da União Soviética. O tema foi objeto de controverso nas esferas do poder da superpotência agora única e explicada com os habituais rótulos ornitológicos: “pombas” e “falcões” vão enfrentar-se nos anos seguintes.

As “pombas” defendiam a manutenção da NATO, mas propunham um segundo círculo de cooperações bilaterais – a “Parceria para a Paz” – com os países saídos do bloco de leste e a Rússia. Em caso de evolução favorável de Moscovo, estas duas dimensões (NATO e a “Parceria pela Paz”) poderiam vir a integrar-se; caso contrário, a aproximação poderia restringir-se aos antigos países satélites, sendo preferível, sempre, a prévia integração no campo ocidental pela adesão à União Europeia. Esta visão era partilhada pelo chefe de Estado Maior, John Shalikashvili, que tinha chefiado o Comando Aliado na Europa, e pelo secretário da Defesa, William Perry. Além destes, Jack Matlock (embaixador na URSS no tempo de Reagan), William Burns (também ex-embaixador em Moscovo, depois chefe da CIA sob Biden) ou George Kennan, veterano da estratégia imperial norte-americana, previam também o risco de exacerbamento dos receios russos de cerco e invasão. Para Kennan, a decisão do alargamento da NATO foi “o pior erro da política externa norte-americana no pós-guerra”.

Os “falcões”, aproveitando a conveniente recusa da União Europeia em oferecer um sistema de adesão semelhante ao que tinha sido aplicado a Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, defendiam a imediata incorporação dos países do Leste no bloco político-militar da NATO, antes que uma eventual evolução negativa da Rússia viesse dificultar tal passo. Em defesa desta política, além do ex-secretário de Estado Henry Kissinger e de Zbigniew Brzezinski, os dois grandes estrategas dos presidentes Nixon (republicano) e Carter (democrata), respetivamente, estava o conselheiro de segurança nacional de Clinton, Anthony Lake, aliás discípulo de Brzezinski e seu colaborador na administração Carter.

Em janeiro de 1994, apesar da frontal oposição expressa por Ieltsin, Clinton anuncia a expansão a Leste: “a questão deixou de ser se a NATO vai aceitar novos membros mas sim quando e como”. O alargamento era apoiado pelos presidentes checo, Vaclav Havel, e polaco, Lech Walesa, bem como do chanceler Helmut Kohl.

Ao longo dos três anos seguintes, Washington preparará o alargamento de acordo com o plano dos falcões, ensaiando formas de neutralizar a oposição russa. Logo em junho de 1994, ao aderir ao programa Parceria para a Paz, a Rússia reitera a sua rejeição da expansão da NATO. Em setembro, na ONU, Ieltsin defende o papel da OSCE e no ano seguinte define como política oficial russa a oposição ao alargamento da NATO. Clinton aceita adiar a expansão da NATO por um ano por conveniência da reeleição de Ieltsin (Achcar, 2024). Mas a Rússia está ainda demasiado enfraquecida pela “terapia de choque” e Ieltsin demasiado dependente do apoio político e diplomático norte-americano para qualquer gesto significativo. No final de 1995, os EUA enquadram as forças armadas russas na missão de manutenção da paz da NATO na Bósnia-Herzegovina para implementar os acordos de Dayton que puseram fim à Guerra da Bósnia. A iniciativa é a primeira operação militar conjunta Rússia-NATO e abre caminho à assinatura, em maio de 1997, na Cimeira de Paris, do Ato Fundador NATO-Rússia, onde a aliança afirma que “não tem intenção, nem plano, nem motivo” para vir a estacionar armas nucleares no território dos novos Estados-Membros. O Ato Fundador cria um Conselho Conjunto Permanente para discussões bilaterais e abre uma Missão Permanente da Rússia junto da NATO. Mas estes passos são apenas um prelúdio de conforto para abrir o caminho do alargamento. Menos de dois anos depois do Ato Fundador, a NATO integra a República Checa, a Polónia e a Hungria. Este avanço é fruto de uma decisão norte-americana tomada na sequência de debates e votações no Senado norte-americano – debates que, significativamente, nunca tiveram qualquer equivalente na Europa, fosse nas instituições dos países-membros da NATO fosse nas da União Europeia.

A influência de Brzezinski na política de Clinton, no segundo mandato presidencial, aumenta ainda mais com a nomeação da sua antiga orientanda Madeleine Albright para o cargo de conselheira de segurança nacional e de Wesley Clark, outro discípulo, para chefe do comando europeu da NATO. Brzezinski é um teórico daquilo a que chama “geoestratégia imperial”, a gestão norte-americana da sua “primazia” sobre “vassalos” – Europa, Japão – e sobre “bárbaros” – Rússia, China (Brzezinski, 1997). Filho de um diplomata nacionalista polaco, sempre rejeitou a doutrina da contenção proposta por George Kennan para a gestão da guerra fria, contrapondo uma política de “envolvimento pacífico”, assente em ofensivas no campo cultural e ideológico com recurso a instrumentos de propaganda e intercâmbios. Como conselheiro de segurança nacional de James Carter, contrariou a desgraduação do confronto com a URSS prometida por Carter no seu programa. Pelo contrário, promoveu apoios à insurgência fundamentalista afegã, o boicote aos jogos olímpicos de Moscovo de 1980 e políticas de embargo cerealífero, além do aprofundamento das relações com a China, rival da URSS no movimento comunista internacional (Lears, 2025). Nos anos da presidência Reagan, o estratega polaco opôs-se também à travagem da corrida nuclear, em nome da ideia absurda de supremacia atómica (a “destruição mútua assegurada” inibe o ataque nuclear por qualquer agente racional).

Em 2006, reencontro de Zbigniew Brzezinski com a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, e com o ex-chefe do comando europeu da NATO, Wesley Clark.
Em 2006, reencontro de Zbigniew Brzezinski com a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, e com o ex-chefe do comando europeu da NATO, Wesley Clark.

Sob Clinton, a consumação da doutrina Brzezinski incluiu o bombardeamento da Jugoslávia pela NATO em 1999. Ainda assim, a intensidade das relações diplomáticas e comerciais da Rússia com o ocidente alimentou expectativas sobre um novo desenho das relações internacionais. George Robertson, secretário geral da NATO em 2000, testemunha como, nas vésperas de tomar posse, Putin pretendia promover a adesão da Federação Russa à aliança, desde que o país fosse para isso convidado e sem o risco de uma recusa humilhante. Ora, nos anos seguintes, a não-resposta ocidental foi ouvida como uma resposta-não. À porta e sem convite para entrar, a Rússia assistiu, em 2004, à integração das antigas repúblicas bálticas da URSS e também da Eslovénia, Eslováquia, Bulgária e Roménia.

Os elevados riscos desta expansão já estavam identificados desde a década anterior, não só pelas esferas do poder norte-americano, mas também pelo outro lado da “nova cortina de ferro”, como lhe chamou Anatol Lieven, ao citar a previsão ouvida em 1995 a um determinado “conselheiro russo de política externa normalmente pragmático, sóbrio e centrista”:

“Disse-me que, na eventualidade de uma aproximação da NATO à Ucrânia, a Rússia faria o seu melhor para arrasar a economia ucraniana com um bloqueio energético, instigar a revolta nas populações russas da Crimeia e do leste da Ucrânia e subverter as forças armadas da Ucrânia, cujo corpo de oficiais ainda é largamente composto de pessoas de etnia russa”.

Da “revolução laranja” de 2004, na Ucrânia, resulta um plano de adesão à NATO, logo suspenso, mas retomado como prioridade na sequência da revolta de Maidan, em 2014. A atuação da Federação Russa altera-se então e, a par da imposição do controlo russo na Crimeia, eclode uma guerra civil de baixa intensidade na região fronteiriça do Donbass. Em fevereiro de 2019, o preâmbulo da Constituição ucraniana passa a incluir o objetivo de adesão à NATO. Entretanto, a aliança já tinha incluído Croácia e Albânia (2009), Montenegro (2017) e Macedónia do Norte (2020). Na cimeira de junho de 2021, os governos da NATO, reunidos em Bruxelas, reiteram a decisão tomada em 2008, em Bucareste, de que a Ucrânia se tornará membro da Aliança no futuro.

Menos de um ano depois, em fevereiro de 2022, a Rússia desencadeia uma invasão em larga escala da Ucrânia, convicta de que estaria ao seu alcance uma anexação que colocasse nas mãos de Putin o futuro do país vizinho. Sendo diversas e contraditórias as justificações invocadas pelo Kremlin para a sua “operação militar especial” – “desnazificação” da Ucrânia, pertença nacional à Rússia, proteção da minoria russófona -, as negociações de paz realizadas em Istambul nos meses seguintes mostraram que o centro da agenda do Kremlin era a neutralidade futura da Ucrânia independente. A intervenção das potências da NATO nessa negociação contribuiu para o seu fracasso e a guerra continuou até hoje.

NATO, um zombi que caminha

No pós-Segunda Guerra Mundial, enquanto potência hegemónica no campo ocidental, tal como no pós-Guerra Fria, enquanto centro da nova ordem unipolar, os Estados Unidos da América fizeram da NATO a chave da sua relação com a Europa. Nunca permitiram uma arquitetura de segurança no continente sem a aliança no centro, Washington no comando e Moscovo no exterior.

Em 1955, a adesão da República Federal Alemã à NATO bloqueou qualquer evolução relevante nos compromissos entre leste e ocidente sobre segurança europeia. A “oportunidade para a paz” era desperdiçada pelo mesmo Eisenhower que a anunciou, seguindo-se quarenta anos de Guerra Fria e de corrida ao armamento.

O fim da URSS e do Pacto de Varsóvia, em 1991, também não conduziu à inclusão da Rússia num novo desenho comum de segurança europeia. Recuperada da “terapia de choque”, a Rússia desenvolveu-se como um regime oligárquico centrado na exploração de petróleo e gás e dono de um gigantesco complexo industrial-militar. A Europa relacionou-se com a Rússia em duplicidade: abastecia-se do gás russo (em particular a indústria alemã) enquanto colaborava na expansão da NATO para leste. O anúncio da futura admissão da Ucrânia na aliança foi lido por Moscovo como flagrante violação de compromissos históricos e ameaça concreta. Conjugada com objetivos de tipo imperial do nacionalismo neo-czarista de Putin, esta evolução ofereceu um ambiente interno favorável à invasão de 2022. Começou uma nova guerra em solo europeu e uma nova corrida aos armamentos. No atual contexto, em que a globalização económica coexiste com a agudização de antagonismos e a militarização das relações internacionais, a reaproximação entre a Rússia e a China parece consolidar uma “nova Guerra Fria”, como lhe chama Gilbert Achcar.

O papel da NATO neste contexto pode evoluir rapidamente. O desinvestimento financeiro norte-americano iniciado no primeiro mandato de Trump colocou a aliança em “morte cerebral”, como afirmava Macron em 2019, ainda antes da retirada humilhante do Afeganistão, em 2021. Com a invasão da Ucrânia, em 2022, a NATO regressa à vida, sob Biden, enquanto plataforma do apoio ocidental a Kiev. Em 2025, nova inversão de marcha: Trump elimina o apoio financeiro à Ucrânia e tenta vergá-la a um acordo de partição dos recursos minerais do país entre os EUA e a Rússia. O futuro da NATO continuará a refletir a crise de hegemonia imperial dos EUA e a turbulência no seu comando: no imediato, o percurso imprevisível de um Trump debilitado pela derrota no Irão.

Sob Biden como sob Trump, mais central ou mais periférica, certo é que a NATO será sempre um fator de militarização da situação internacional e que não haverá “oportunidade para a paz” enquanto a União Europeia puser o negócio do armamento e a miragem de uma vitória militar na Ucrânia acima das vidas que estão em jogo. A rejeição da escalada militar e de todos os imperialismos em presença é o fator decisivo para garantir a soberania da Ucrânia mediante soluções democráticas que parem a mortandade e a destruição.

Bibliografia

Achcar, Gilbert (2023) “The New Cold War: The United States, Russia, and China from Kosovo to Ukraine”, Chicago, Haymarket Books

Anderson, Perry (2014) “Imperium et Consilium”, Madrid, Akal

Brown, Archie (2010) “Ascensão e Queda do Comunismo”, Lisboa, Publicações D. Quixote

Brzezinski, Zbigniew (1997), The Grand Chessboard, “American Primacy and its geostrategic imperatives”, Basic Books

Lears, Jackson. “Globaloney”. Recensão de “Zbig: the life of Zbigniew Brzezinski, America Cold War Prophet”, de Edward Luce, London Review of Books, vol 48, nº4 (2025)

Mandel, Ernest Mandel “The Irresistible Fall of Mikhail Gorbachev”, International Viewpoint, #221 (1992)

Roberts, Geoffrey “A Chance for Peace? The Soviet Campaign to End the Cold War, 1953–1955“, Cold War International History Project – Working Paper #57, Woodrow Wilson International Center for Scholars (2008)


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 28 jun 2026

“Eppur si muove” – um mundo em movimento

A extrema direita deve ser derrotada e esse deve ser o compromisso do PSOL atuando nas lutas e nas próximas eleições
“Eppur si muove” – um mundo em movimento
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