Crônicas de uma Bolívia convulsionada #5
Em El Alto com Joel e o último dia na Bolívia
Foto: Manifestantes contra o presidente Rodrigo Paz. (Prensa Latina/Reprodução)
Quinta-feira. Hoje coloquei despertador pra não perder a hora, Joel marcou comigo às 8h30, na estação UPEA (Universidade Pública de El Alto), é bem longe pelo que vi na véspera, não quero me atrasar.
Pego e telefone e vejo a mensagem “seu pacote de dados se encerrou”. Como vou a El Alto sem internet pra falar com Joel, e se ele não aparecer? Perco uma meia hora tentando resolver pelo computador, no wi-fi do hotel e não consigo. As bancas, onde seria mais fácil, só abrem depois das 10h. Não dá, não posso esperar mais. Pego todas as informações do trajeto, “printo” e aviso Joel, “vou me atrasar, chego às 9h”, deixo na mensagem o número de celular do chip local, espero que ele veja.
O trajeto até a estação UPEA faz o mesmo caminho da terça, mas vai além. Passo de novo pelo local do bloqueio, não tem tanta gente, está praticamente só os “ponchos rojos” tomando conta do local. A UPEA é a última estação da linha azul, toda ela sobre a avenida 16 de julho.
Logo depois da segunda estação, fico sozinho no teleférico. À esquerda, a moderna construção do aeroporto contrasta com os as casas sem acabamento, todas elas. À direita o pico Chacaltaya, enorme, lindo, coberto de neve. Olho pra baixo e a avenida é tomada de comércio de rua. E tomada, é tomada mesmo, não se enxerga o asfalto, só barracas, uma grudada na outra.
Chego à estação e espero em frente, cheguei no horário. Agora é esperar e contar que Joel tenha visualizado a mensagem. Não passa muito tempo, mas o tempo ali nessa situação, passa muito devagar. Joel me liga 9h10, parece que passou meia hora. “Já estou chegando”.
Assim como com Marisol, saímos para caminhar, ele me sugere ir ver os bloqueios na “Carretera Copacabana”. Como está o clima ali com quem é de fora? Pergunto. “Pasa nada! Só não gostam que tire fotos ou fique filmando, mas está tranquilo”. É o 5º distrito, um dos mais mobilizados.
Joel é do grupo da ex-senadora Adriana Salvatierra, presidente do Senado quando do golpe de 2019. Renunciou assim como Evo e toda a linha sucessória, o que permitiu a irregular posse de Jeanine Añez. Tudo sob a pressão de sequestro e ameaça à familiares. Depois, na implosão do MAS, ele fica mais próximo ao grupo de Andrónico. “Era a melhor aposta para uma transição de geração”, ele diz.
Caminhando pela Carretera Copacabana ele me explica sobre os bloqueios, é tudo auto-organizado, as “Juntas Vecinales”, algo como uma associação de bairro, organizam-se independente da Federação, a FEJUVE, um dos pilares do levante contra o governo. Não é exatamente tão coordenado “de cima”. Começo a entender a marcha inesperada da segunda feira, um distrito, “por conta”, foi lá e decidiu fazer a marcha a La Paz.
De um lado, penso no quanto isso expressa uma cultura de organização muito enraizada na base, ao mesmo tempo, penso o quanto a fragmentação é ainda mais profunda do que eu pensava. Não é só uma fragmentação FEJUVE-COB-CSUTCB, dentro de cada uma dessas organizações existe outra dimensão de fragmentação, no sentido da baixa coordenação das ações.
Joel me fala da sua visão da explosão do MAS, Evo não quis fazer a transição geracional, Arce fez um péssimo e corrupto governo.
Começamos a falar da situação atual, ele está muito tranquilo. “Se eles pensam que vão cansar o movimento, estão muito enganados”, me conta como a auto-organização permite um revezamento das tarefas que é muito difícil derrotar pelo cansaço. Ele mesmo, só tem que garantir seu bloqueio uma vez a cada 10 dias. Não tem como cansar mesmo.
“Mas achas que o governo renuncia?”, eu pergunto. “Pode ser que não, mas se não cair agora, cai em outubro, como em 2003”, a referência é sua primeira lembrança de mobilização, a Guerra do Gás. O início do levante foi em fevereiro e Sánchez de Lozada só renunciou em outubro. A segurança com que ele fala isso, pela confiança que tem no movimento, me impressiona.
Avançamos, na caminhada e no papo. Chegamos à bifurcação da “Carretera” e subimos no viaduto para visualizar os dois braços da bifurcação, um vai para Copacabana, cidade turística, o outro, liga a Bolívia ao Peru. Esses bloqueios interrompem o comércio entre os dois países.
Começamos o caminho de volta. E quero saber mais do que ele vê que está por vir. Se o quadro é de desagregação como ele diz:
– E se cai o governo e vem novas eleições, quem apresentar? – pergunto.
– Não tem ninguém, vai ter que se produzir alguma liderança. Para ter chance de ganhar, tem que ser um indígena.
– E não acha que a direita, os EUA, podem tentar produzir uma liderança assim para levar adiante o seu programa?
– Podem, mas eles não vão conseguir, só ver o que aconteceu com Paz. Se elegeu pelos movimentos e, quando tentou aplicar outro programa, aí estamos. O povo não vai deixar.
A segurança dele me impacta. Mas não é totalmente sem razão, o povo boliviano tem longa estrada derrubando governos e suas medidas.
Vamos nos aproximando da estação, Joel ainda vai pegar a estrada, de bicicleta, umas 3h até o seu distrito. Estou inconformado com essa desconexão entre força social e força política e retomo o tema.
– Por onde passa uma solução então?
– Teria que repactuar, Evo teria que liderar uma reaproximação e promover a formação de uma nova geração.
– Achas que é possível?
– De jeito nenhum.
Nos despedimos com um abraço e, assim como nos outros encontros, tudo que peço é seguir em contato, falarmos mais, trocarmos impressões. Uma entrevista, quem sabe. “Não, sou muito envergonhado”. Bom, seguimos nos falando.
Desço para La Paz com um sentimento muito difícil de descrever. Como pode tanta força de mobilização, parar um país, colocar o governo nas cordas e não ter nada, nada em vista como alternativa política?
Na volta presto mais atenção na paisagem do que no movimento. Me sinto um pouco desolado com a situação. “Como pode? Como pode?” repito em pensamento. Mas a luta de classes é assim, muitas vezes, as insurreições chegam antes da hora, antes de estar tudo pronto. Minha esperança é que todo esse processo possa significar passos em direção à uma superação dessa contradição. Quem sabe?
…
Acordo cedo na sexta-feira, ainda não amanheceu. Pela janela, vejo o dia clareando lentamente. Parece um filme. A luz surgindo por detrás das montanhas e dando vida à cidade. Último dia aqui. O que levar de volta?
Mando mensagens de despedida a todos com quem falei. Pergunto à America se ela virá visitar as companheiras em greve de fome. “Sim, 9h50 estarei lá”.
America atrasa, preciso resolver o checkout do hotel, “vou ali e já volto”. Quando saio para ir ao encontro dela, vejo uma marcha chegando pela Mariscal Santa Cruz, fico dividido entre ir ver “qual é” da marcha e ir ao encontro de America. Prioridade no contato. Quando chego, ela já entrou no prédio da Defensoria del Pueblo. Deixou avisado que eu chegaria. Dessa vez estou mais tranquilo na entrada. Chegamos e as companheiras Maria Oporto e Ruth Verônica estão dando uma entrevista online, 15º dia de greve de fome, elas seguem muito firmes. Na entrevista, denunciam a perseguição a lideranças do movimento e falam da inconstitucionalidade da lei do Estado de Exceção aprovada ontem no Senado.
Nosso tempo de visita acaba antes mesmo de falarmos com as companheiras. Eu e America nos despedimos delas apenas com o olhar e com gestos, fechamos os braços no peito como quem diz “força, estamos juntos”, Ruth responde com o mesmo gesto, enquanto Maria responde a outra pergunta da entrevista.
Na outra visita, na terça, eu tinha conversado pouco com America, então convido ela para irmos até a marcha, ver o que está acontecendo. Descemos a “calle Colombia” em direção à Mariscal Santa Cruz. Na caminhada, ela para duas ou três vezes, deixa os pedestres que vem atrás de nós passarem. “Desculpa, ando meio paranoica”. Na hora, acho meio exagerado, logo essa percepção vai mudar.
A manifestação é de artistas e trabalhadores envolvidos na produção das “entradas”, uma festa de rua que deve acontecer em junho. Estão preocupados que as manifestações atrapalhem a festa e, claro, sua renda. A manifestação não tem, exatamente, um lado.
Como na marcha da segunda, a agitação é no gogó. “Que queremos?”, “uma solução”, “que queremos?”, “uma solução”, “que queremos, carajo?”, “uma solução, carajo”.
Eles só querem “uma solução”, seja qual for. Comento com America que “solução” pode ser qualquer coisa, pode ser um massacre do exército contra os bloqueios, pode ser a derrubada do presidente. Se “solucionar” eles estarão felizes. America ri.
Sentamos ao pé do obelisco, foi meu ponto de encontro com Marisol. Começando e terminando essa jornada ali.
Ela tem uma visão mais crítica do MAS. Para ela, foi a burocratização dos 14 anos de Evo que levou à paralisia dos movimentos. Cooptados e redirecionados para dentro do aparelho do Estado perderam sua capacidade de mobilização. Com Arce, as coisas só pioraram.
E o movimento de mulheres? Pergunto. Sob Arce, chegou a ter uma articulação nacional, grande, significativa, mas só o grupo do qual faz parte se reivindicava feminista. Além delas, só o que chamou de “feminismo de classe média”, com pouca preocupação de se conectar com o movimento camponês. E mesmo essa articulação se esfacelou com a crise do MAS.
Faço a ela a pergunta que fiz a todos. “Como vê isso se resolvendo, tem solução?” Hoje, segundo America, só Evo poderia derrotar a direita. Aí é recomeçar a construção desde baixo. A luta, hoje, é pela derrubada de Paz e pelo reestabelecimento de Evo para disputar as novas eleições.
Essa é a opinião que ouvi de todos. Mesmo os setores mais críticos ao MAS veem assim. Agora com Evo e disputar o depois. O paralelo com o Lula vem ao natural. Com Lula, sem ser lulista. Assim como para ela é “com Evo, sem ser evista”. E disputar o depois.
Nos despedimos. Tenho mais algumas horas até subir a El Alto, para o aeroporto. Vou sacar um dinheiro, planejando almoçar de novo pelo “Prado”. Na saída do banco, um “tipo” da direita começa a me filmar, denunciando “esses estrangeiros que vieram da Argentina (SIC) acabar com a nossa democracia”. A “paranoia” de America se mostra totalmente justificada. Minha primeira resposta é ignorar, mas o cara parece decidido a me tirar do sério. Vai me seguindo e me filmando pela rua. “Temos que expulsar!”, “quem está financiando?”, “veio aqui para dizer para a COB bloquear tudo”. O cara não vai me deixar em paz, e agora?
Sigo meu caminho pro hotel. Vou entrar e ficar “guardado”, como o outro companheiro argentino. Não, se eu entrar no hotel o cara vai saber onde estou e pode voltar.
O canalha ainda diz, “não adianta, vou te seguir ainda por muito tempo”. Que merda, já nem sei mais para onde ir. Passando reto pelo hotel, subo a escadaria que leva da rua Murillo à rua Linares. Olho pra trás, o cara está lá embaixo, não me seguiu. Mas e agora?
Faço um caminho mais longo, olhando para todos os lados, procurando o provocador. Me aproximo lentamente da rua do hotel. Sumiu mesmo. Já conseguiu seus likes. Entro no hotel pensando que dali só saio para o aeroporto. Me mapearam. Já é hora de voltar mesmo.
Na ida ao aeroporto estou tenso, mas tudo corre sem maiores problemas. A perseguição a estrangeiros aqui está grande, minha preocupação agora é na imigração. Será que vão pegar no pé? Penso que não, uma vez que estou de saída e o que poderiam querer é que eu vá embora. Ainda que com atrasos enormes, tudo corre bem no retorno, chego em casa já na madrugada do sábado para o domingo.
A Bolívia “convulsionada” fica pra trás, fica para a experiência e para as reflexões. Ficam também as relações e laços criados, espero que permaneçam por longo tempo. A luta do povo boliviano segue em aberto, seguirá por muito tempo, até que essa enorme força social de mobilização produza um projeto político comum dos “de baixo”. Com a sensibilidade de Marisol, a entrega e a dedicação de America, a confiança no povo do Joel e a lucidez histórica e teórica de Óscar, tenho a certeza de que o povo boliviano vai encontrar um caminho.