Marcha da Maconha: 18 Anos de Resistência
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Marcha da Maconha: 18 Anos de Resistência

Seguimos lutando contra as políticas higienistas, a criminalização da pobreza e contra a ideia de que determinadas vidas podem ser descartadas

Raquel Vasconcelos 29 jun 2026, 18:14

No primeiro dia do solstício de inverno de 2026, em uma linda tarde de sol que engrandeceu a multidão que ocupou a Avenida Paulista, a Marcha da Maconha completou sua maioridade. Pela décima oitava vez em construção coletiva, resistência, e muita luta marchamos em São Paulo. Com gente de todas as idades, vindas de diferentes territórios, unidas por diversas lutas, desde o acesso à cannabis medicinal, passando pelo uso adulto, desencarceramento em massa, fim da política de guerra às drogas, eliminação das comunidades terapêuticas, entre outras, milhares gritaram às 16:20h de 21/06/2026, LEGALIZA!

A frente, com seu tradicional Bloco do Cuidado, que reúne pessoas que fazem uso medicinal da cannabis, a marcha seguiu os seus passos e ritmo, lembrando assim, que ninguém fica para trás.

Uma marcha repleta de juventude negra e periférica, que transforma as ruas da cidade em um espaço de encontro, festa e liberdade. Talvez seja um dos poucos momentos do ano em que podemos nos sentir livres para fazer fumaça sem sermos imediatamente criminalizados.

Cada pessoa que ocupa as ruas carrega uma reivindicação, uma história de violência, de cuidado, de sobrevivência ou de resistência. É dessa multiplicidade de vozes que nasce a força desse movimento.

Estamos nas ruas porque queremos a legalização de todas as drogas. Porque entendemos que a chamada guerra às drogas é uma mentira que só beneficia aqueles que lucram com a violência, o encarceramento e a morte da população pobre, negra e periférica.

A guerra às drogas e o mercado ilegal que ela alimenta beneficiam uma pequena parcela que lucra com a proibição, enquanto deixam como legado violência, encarceramento e destruição nos territórios. Ao redor dessa economia ilegal também se acumulam outras formas de destruição: o desmatamento, a grilagem de terras, a exploração de trabalhadores e a devastação de comunidades tradicionais. A proibição não eliminou o mercado das drogas, apenas entregou seu controle à ilegalidade e à violência.

Seguimos na luta pelo desencarceramento. Pelas milhares de pessoas presas por crimes relacionados às drogas, muitas delas vítimas de uma política que seleciona quem deve ser perseguido e quem pode permanecer impune. Essa política também revela desigualdades profundas quando olhamos para as mulheres encarceradas. A prisão feminina no Brasil está profundamente ligada aos crimes relacionados às drogas, mostrando como o proibicionismo se apoia nas desigualdades de gênero, raça e classe. São mulheres pobres, negras e periféricas que acabam ocupando os elos mais vulneráveis dessa cadeia e pagando com sua liberdade o preço de uma política fracassada.

Mesmo a recente decisão do STF sobre o porte de maconha para uso pessoal não foi capaz de reparar a injustiça produzida ao longo de décadas. A decisão representou um avanço importante, mas não libertou automaticamente as milhares de pessoas que seguem encarceradas em decorrência da política de drogas. A seletividade penal continua operando e transformando usuários e pequenos comerciantes em alvos preferenciais do sistema de justiça.

Estamos nas ruas pelas famílias que lutam diariamente pelo acesso ao óleo de cannabis e aos tratamentos que garantem qualidade de vida para seus filhos e familiares. Queremos que o óleo de cannabis seja oferecido pelo SUS de forma ampla, gratuita e acessível. Nenhuma família deveria depender de ações judiciais, campanhas de arrecadação ou da própria sorte para garantir um tratamento que pode transformar vidas.

Estamos ao lado das associações que, durante anos, construíram conhecimento, acolhimento e cuidado quando o Estado ainda se recusava a reconhecer os benefícios terapêuticos da cannabis. Foram elas que abriram caminhos para milhares de pacientes e familiares.

Acompanhamos com atenção os novos avanços regulatórios e as futuras autorizações para pesquisa, cultivo e produção de medicamentos à base de cannabis. Esperamos que esses avanços sirvam como uma verdadeira política de reparação histórica. Queremos que esse processo fortaleça as associações, os cultivadores populares e os jardineiros que sustentaram essa luta por décadas. Não queremos que a regulamentação beneficie as grandes empresas ou o agronegócio. A cannabis precisa ser regulada a partir da justiça social, da saúde pública e da reparação daqueles que foram criminalizados e perseguidos pelo proibicionismo.

A legalização do cultivo da planta é parte dessa reparação histórica com aqueles que sofreram, e ainda sofrem, os impactos do proibicionismo.

Neste ano, também celebramos os 10 anos do coletivo Craco Resiste, que através da redução de danos luta para que usuários de drogas sejam vistos como sujeitos de direitos, com dignidade e humanidade, e não como problemas a serem removidos da cidade.

A redução de danos precisa ser a regra, e não a exceção. Celebramos experiências concretas que demonstram que o cuidado funciona. O direito à moradia, ao trabalho, à saúde e ao tratamento são fundamentais para que as pessoas possam reconstruir suas trajetórias. A experiência do grupo TTT (teto, trampo e tratamento) é um exemplo disso.

Também lembramos que este ano marca os 20 anos das Mães de Maio, mães que tiveram seus filhos assassinados pelo Estado em uma política marcada pelo racismo e pela lógica da guerra às drogas. Suas histórias nos lembram que essa luta é também uma luta pela memória, pela justiça e pelo fim de uma política que transforma territórios negros e periféricos em alvo permanente da violência estatal.

É contra essa lógica que seguimos lutando. Contra as políticas higienistas implementadas por Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas, contra a criminalização da pobreza e contra a ideia de que determinadas vidas podem ser descartadas. A resposta para uma sociedade atravessada pela desigualdade e pela violência não pode ser mais violência, expulsão ou encarceramento. Precisamos de políticas construídas a partir do cuidado, do direito à moradia, ao trabalho, à renda e à saúde.

Depois de 18 anos ocupando as ruas de São Paulo, sabemos que cada passo dado coletivamente nos fortalece.

O bagulho é loko e o processo é lento.

Legaliza tudo.


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