O Google quer comprar a alma da A24
Ao aproximar-se da inteligência artificial, a produtora que simbolizou a independência criativa enfrenta o dilema entre crescer ou preservar a própria identidade
Fotos: A24/Divulgação
A A24 embarcou na aposta do Google. Pense nisso por um instante. É como se aquela videolocadora de bairro – a que ficava numa galeria meio escondida, com cheiro de carpete úmido e capas de VHS gastas pelo manuseio constante – resolvesse, de repente, vender as chaves para uma gigante da tecnologia.
Aquela locadora era um refúgio. O dono, um sujeito de óculos de aros grossos que parecia ter visto mais filmes do que horas de sol, sabia exatamente o que indicar depois de uma semana ruim. Não empurrava apenas os sucessos de bilheteria da vitrine. Colocava nas suas mãos um filme de um cineasta japonês melancólico, uma comédia italiana sobre uma família excêntrica ou um drama existencial vindo de algum país que você mal conseguia localizar no mapa.
Não havia franquias intermináveis, universos compartilhados ou heróis salvando o mundo em série. Havia a sensação de descobrir algo que parecia ter sido feito para poucas pessoas. Era cinema. Cinema de gente estranha, obsessiva, apaixonada. Cinema que não parecia resultado de uma reunião de marketing.
Aí, como noticiou nesta semana Ben Fritz, do The Wall Street Journal, o Google chega com seus 75 milhões de dólares. Chega com a DeepMind, com os algoritmos, com aquele papo de “vamos ajudar o cineasta a otimizar o processo de curadoria e produção”.
Otimizar o processo! Já viu coisa mais sem graça? Otimizar o processo é o que a gente faz quando está tentando organizar os cabos atrás da televisão ou calculando se o saldo no banco permite uma assinatura extra de streaming. Arte não se otimiza; arte se encontra no acaso. Se um diretor não passa três noites em claro, tomando café frio, remoendo um final que não faz sentido, não sai um filme da A24 de verdade. Sai um produto de prateleira de supermercado.
Dizem que a IA vai ajudar a montar storyboards, antecipar problemas de produção e tornar as filmagens mais eficientes. Mas existe um detalhe que costuma passar batido nessa conversa: muitas vezes, é justamente o problema que faz um filme ser memorável.

O cinema sempre avançou aos tropeços. Grandes diretores construíram suas obras insistindo em ideias que pareciam impraticáveis, caras, confusas ou simplesmente malucas. Se Fellini tivesse uma inteligência artificial soprando no ouvido: “Olha, Federico, esse ângulo não é muito bom, vai dar trabalho para a equipe de iluminação e talvez o público estranhe”, provavelmente teria mandado o computador para o espaço.
E nem precisamos voltar tanto no tempo. Em 2023, numa entrevista concedida a Geoffrey Macnab para o suplemento Saturday Interview, do The Independent, Tim Burton contou o quanto ficou perturbado ao ver programas de IA reproduzindo personagens da Disney em seu estilo visual. Não era apenas uma questão de direitos autorais ou de uso indevido da sua identidade artística. Havia algo mais inquietante ali.
“Eles fizeram a IA criar minhas versões dos personagens da Disney”, disse Burton. “Não consigo descrever a sensação que isso provoca. Lembrou-me de quando algumas culturas dizem: ‘Não tire uma foto minha porque ela vai roubar a minha alma’.”
A frase pode soar dramática, mas ajuda a entender o incômodo. Para Burton, não se tratava apenas de copiar uma estética. Era como ver décadas de referências, obsessões, estudos, tentativas, erros e descobertas pessoais reduzidas a uma fórmula que uma máquina consegue reproduzir em segundos. Como se aquilo que levou uma vida inteira para ser construído pudesse ser transformado em um prompt. Convenhamos, deve ser sufocante perceber que algo tão particular pode ser tratado como um conjunto de comandos.
Burton não foi o único a passar por isso. No mesmo ano, as redes sociais foram tomadas por vídeos que imitavam o estilo de Wes Anderson. TikTok, Instagram e YouTube ficaram cheios de pessoas transformando uma ida ao mercado, um passeio de bicicleta ou o trajeto para o trabalho em cenas que pareciam saídas de um filme do diretor.
Os vídeos viralizaram porque eram divertidos. Bastava reunir alguns elementos facilmente reconhecíveis: enquadramentos simétricos, uma paleta de tons pastel cuidadosamente calculada – com os rosas suaves, amarelos pálidos e azuis claros de que Anderson tanto gosta -, roupas com aquele ar vintage que remete ao trabalho de Milena Canonero, a melancólica “Obituary”, composta por Alexandre Desplat para “A Crônica Francesa” (2021), e uma narração que lembrasse o tom afável de Bob Balaban em “Moonrise Kingdom” (2012).
Pronto. Estava criado o “efeito Wes Anderson”.
Mas o fenômeno também revelou uma coisa curiosa. Quando um estilo pode ser resumido a uma lista de elementos visuais facilmente reproduzíveis, corre-se o risco de esquecer que o que torna Wes Anderson interessante não são apenas os enquadramentos centralizados ou as cores pastéis. É o olhar por trás deles.
Talvez seja justamente aí que esteja o limite dessa conversa sobre eficiência criativa. A arte nunca foi apenas o resultado final. Ela também é o caminho torto, a escolha que não fazia sentido, a ideia que parecia errada até funcionar. É o acidente que vira solução e o problema que acaba definindo a identidade da obra.
Por isso, quando alguém diz que a inteligência artificial vai eliminar os obstáculos do processo criativo, fico pensando se não estamos falando justamente de eliminar uma parte importante daquilo que torna a criação humana única.
A gente vive num tempo em que até a nossa “estranheza” está sendo mapeada. O Google quer comprar a nossa autenticidade porque o dinheiro deles compra tudo, menos o imprevisto. E o cinema que a gente amava na locadora era feito do imprevisto: aquela cena que não deveria estar lá, aquele ator que olhou para o lado errado na hora certa, aquela trilha sonora que desafinava de um jeito genial. A máquina não entende o “genial”. Ela entende o “provável”. E filme bom não é o provável. Filme bom é o erro que o diretor se recusou a apagar.
Eu fico aqui pensando no Scott Belsky, que cuida da inovação na A24. Ele jura de pé junto que a IA é apenas uma ferramenta, como um pincel ou uma câmera. E eu até reconheço que há verdade nisso. Mas é que nem aquela história de trocar o DVD original por uma versão digital “comprimida”: parece a mesma coisa, tem a mesma capa, tem o mesmo título, mas, no final, você sente que falta alguma coisa. Falta a alma do objeto.

O risco da A24 não é falir. O risco dela é ficar “boa demais”. É ficar redonda, certinha, com os cantos aparados por um algoritmo que calculou, com base no comportamento de milhões de usuários, que o público prefere um final mais mastigadinho.
Se o cinema virar essa coisa de dados, de “o que o público quer ver”, a gente vai acabar assistindo a filmes feitos por uma planilha de Excel. E, sinceramente, eu prefiro ficar em casa olhando para a estante vazia de onde um dia tirei fitas que mudaram a minha vida. Pelo menos a estante não tenta me convencer de que é uma obra de arte.
No fim das contas, a A24 está tentando ser grande demais. E quando a gente cresce demais, acaba esquecendo de olhar para o chão e pisa em quem a gente era. Se a inteligência artificial começar a dar palpite no roteiro, a A24 vai descobrir que, quando perdemos a nossa própria voz, viramos apenas um eco de alguém que tem servidor demais e sensibilidade de menos.
Aí, quando você apertar o play, vai perceber que a história não foi escrita por um autor solitário em um escritório bagunçado, mas por um computador que calculou que aquela cena faria você ficar mais dez minutos logado na plataforma. É um progresso, dizem. Eu chamo de fim daquela nossa conversa, lá no balcão da locadora, sobre o porquê de um filme ser, ao mesmo tempo, um desastre e uma obra-prima.
E você, prefere um filme que te entende por causa de um algoritmo ou um filme que te incomoda porque foi feito por alguém que também não se entende muito bem?