A ascensão espúria da extrema direita no Peru
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A ascensão espúria da extrema direita no Peru

O desafio da esquerda anticapitalista peruana consiste em intervir de maneira unificada e estratégica na resistência ao novo governo Fujimori

Johnatan Fuentes 27 jul 2026, 09:34

Foto: Keiko Fujimori em registro com seu pai, Alberto. (ICI Radio/Reprodução)

Via Jacobin America Latina

A vitória eleitoral de Keiko Fujimori, cuja legitimidade é amplamente questionada devido às graves irregularidades que marcaram o segundo turno, constitui um ponto de inflexão na política peruana. Após mais de uma década de crise orgânica, caracterizada pela instabilidade governamental, pela extrema fragmentação do sistema partidário, pela derrubada do governo de Pedro Castillo e pela crescente captura das instituições estatais pelo bloco dominante, a extrema direita recuperou o controle direto do Poder Executivo. O resultado do segundo turno foi, além disso, extremamente acirrado: apenas 49.641 votos separaram as duas candidaturas.

Esse desfecho sinaliza o esgotamento da experiência de dominação baseada no autoritarismo parlamentar que se instaurou após o golpe de Estado de dezembro de 2022. Em seu lugar, começa a se delinear uma estratégia destinada a consolidar um regime autoritário de caráter presidencialista, que busca restabelecer, adaptando-o às condições atuais, o projeto político inaugurado por Alberto Fujimori na década de 1990.

O que está em jogo vai, portanto, além de uma simples troca de governo. Trata-se de uma tentativa de reorganizar o bloco no poder por meio de uma nova articulação entre o Executivo, as elites econômicas, os aparatos coercitivos do Estado e os setores mais reacionários do sistema político.

Seria um erro, no entanto, interpretar esse resultado como uma resolução da crise do regime ou como a consolidação definitiva de uma nova hegemonia conservadora. As profundas contradições sociais, a crise de representação política, a deterioração da legitimidade do Estado e as disputas persistentes entre as diferentes facções do bloco dominante indicam que a crise orgânica do Estado peruano continua em aberto, embora tenha entrado em uma nova fase sob a liderança da extrema direita.

Passado e presente do fujimorismo

Para compreender o novo cenário, é útil retomar a interpretação do cientista social peruano Aníbal Quijano sobre o fujimorismo. Segundo Quijano, o regime instaurado por Alberto Fujimori foi muito mais do que um governo encarregado de aplicar um programa neoliberal. Representou uma nova modalidade de dominação autoritária, voltada para a reorganização do Estado peruano após o esgotamento da ordem oligárquica e a crise do Estado desenvolvista durante a década de 1980.

A liberalização econômica, a concentração do poder na Presidência, a subordinação das instituições, a militarização da política, a corrupção sistemática e a desarticulação da representação social fizeram parte de um mesmo projeto histórico. O fujimorismo transformou profundamente o regime político: enfraqueceu os partidos, corroeu as organizações sociais e consolidou uma forma de dominação plebiscitária e autoritária, apoiada no personalismo, no clientelismo e na promessa de restabelecer a ordem.

Essa tradição política, no entanto, nunca operou exclusivamente dentro das fronteiras peruanas. Diversas análises apontaram a existência de redes transnacionais de assessoria, financiamento e circulação de estratégias que vinculam as direitas latino-americanas a centros internacionais de poder. Keiko Fujimori e seu círculo fazem parte de uma constelação que articula think tanks, consultorias eleitorais e espaços de formação política conectados a circuitos externos, particularmente nos Estados Unidos.

Essa dimensão internacional não substitui as determinações internas nem a função que o fujimorismo desempenha dentro do bloco dominante peruano. Permite, ao contrário, compreender a recente profissionalização da extrema direita, sua capacidade de adaptação eleitoral e a renovação de seus instrumentos de intervenção política. O fujimorismo contemporâneo é herdeiro do regime autoritário da década de 1990, mas constitui também uma reconfiguração dessa matriz: incorpora novas tecnologias de comunicação, redes midiáticas e estratégias conservadoras que circulam internacionalmente, em um contexto marcado pelo avanço global da extrema direita.

Crise pós-eleitoral e estatismo autoritário

O novo cenário expressa uma recomposição do bloco dominante e, ao mesmo tempo, a persistência de uma disputa profunda em torno da legitimidade da ordem política. Os processos eleitorais recentes dificilmente podem ser compreendidos como mecanismos neutros de competição democrática. Em um contexto marcado pela concentração midiática, pelas enormes assimetrias materiais entre as forças políticas e pelo uso intensivo de recursos públicos e privados, a disputa eleitoral se desenrola em um terreno profundamente desigual.

Diversas análises jornalísticas e políticas examinaram os mecanismos pelos quais o desenrolar e o desfecho de uma eleição podem ser condicionados dentro dos próprios limites institucionais. Entre eles estão a formação tendenciosa do senso comum, a judicialização das candidaturas, o controle da agenda midiática e a intervenção direta dos grandes poderes econômicos. O problema, portanto, não se limita a determinar se houve fraude no sentido técnico. Abrange também a qualidade democrática do processo, a igualdade efetiva da competição e a capacidade do sistema político de representar a vontade popular.

Essas disputas aprofundam a distância entre a legalidade formal e a legitimidade social, uma das características dos regimes atravessados por crises prolongadas. Um resultado pode estar em conformidade com os procedimentos institucionais e, ainda assim, carecer de legitimidade suficiente para estabilizar a ordem política.

Nicos Poulantzas alertou que as crises do capitalismo contemporâneo poderiam favorecer o desenvolvimento de formas de estatismo autoritário. Esse processo não implica necessariamente a supressão formal da democracia. Consiste, antes, na crescente concentração de poder no Executivo, no enfraquecimento dos contrapesos institucionais, na expansão dos aparatos coercitivos, na judicialização da política e na redução efetiva dos espaços de deliberação democrática.

O novo governo poderia aprofundar várias tendências que já se tornaram visíveis nos últimos anos: o fortalecimento do Executivo, a expansão das políticas de segurança, a criminalização do protesto social, o uso do aparato judicial contra os adversários políticos e a imposição de maiores restrições à participação popular e à atividade das organizações de esquerda.

Primeiras reflexões sobre a derrota eleitoral apertada da esquerda

O novo governo assumirá em um cenário marcado por uma profunda crise de legitimidade do regime político. A elevada desconfiança em relação às instituições, a fragmentação social e o desgaste das formas tradicionais de representação configuram um contexto no qual a vitória do fujimorismo não expressa a construção de uma nova hegemonia. Revela, ao contrário, sua capacidade de articular um bloco eleitoral conjuntural em meio a uma crise orgânica. Sua vitória repousa menos na adesão positiva a um projeto nacional do que na formação de uma coalizão social e política coesa pelo medo, pela promessa de restabelecer a ordem, pela defesa do status quo e pela rejeição às alternativas de mudança encarnadas pela esquerda.

O segundo turno colocou em jogo duas estratégias diferentes. “Juntos pelo Peru” procurou ampliar sua base por meio de acordos com setores democráticos e de centro. O fujimorismo, por outro lado, priorizou a consolidação e a mobilização de seu núcleo eleitoral. Em vez de moderar seu discurso ou construir alianças mais amplas, concentrou seus esforços em maximizar a participação de seu eleitorado tradicional e desenvolveu uma campanha focada em territórios do sul andino que historicamente lhe eram adversos.

A estratégia da extrema direita não pretendia reverter completamente o mapa político que surgiu em 2021, mas sim reduzir a diferença nas regiões onde a esquerda havia alcançado seus maiores níveis de apoio. Os resultados mostram que ela conseguiu aumentar sua votação em várias dessas regiões em relação ao segundo turno anterior, embora sem alterar a correlação política geral no sul andino e na serra central.

Roberto Sánchez, por sua vez, obteve um fluxo eleitoral superior ao alcançado por Pedro Castillo em várias regiões do norte e entre os setores de classe média urbana de Lima. Isso demonstrou uma maior capacidade de disputar espaços nos quais o voto contestatório havia encontrado, historicamente, maiores dificuldades. No entanto, esse crescimento não foi suficiente para compensar a redução da vantagem no sul andino. Embora Sánchez tenha vencido em dezesseis regiões, ele o fez com margens menores do que as obtidas por Castillo no segundo turno de 2021. A diminuição dessa diferença foi decisiva para o desfecho nacional.

Uma parte importante da campanha da esquerda baseou-se na expectativa de que o antifujimorismo voltaria a atuar como o principal fator capaz de articular uma maioria social. O processo eleitoral mostrou, no entanto, que esse campo político já não mantém o poder de articulação de ciclos anteriores. O antifujimorismo continua sendo uma identidade relevante, mas está mais concentrado em setores urbanos, especialmente em Lima, e possui menor capacidade de irradiação nacional e geracional.

A essa dificuldade somou-se o afastamento de setores importantes da direita liberal e do chamado centro político, que promoveram o voto viciado ou adotaram uma posição de suposta neutralidade. Essa orientação enfraqueceu ainda mais a possibilidade de formar uma ampla frente democrática contra o avanço do fujimorismo.

O voto no exterior também desempenhou um papel decisivo. Seu apoio majoritário a Keiko Fujimori acabou influenciando o resultado final, enquanto, no território nacional, Roberto Sánchez obteve o maior número de votos. Essa diferença revela uma geografia política profundamente desigual entre o eleitorado residente no Peru e o da diáspora. Além disso, foi precisamente na votação no exterior que se concentraram as irregularidades mais graves, o que alimenta as questionamentos sobre a legitimidade do desfecho eleitoral.

O mapa resultante confirma que a extrema direita conseguiu ampliar parcialmente sua inserção territorial, enquanto o campo popular conservou boa parte de seus redutos históricos, embora com menor intensidade eleitoral. Mais do que uma vitória hegemônica do fujimorismo, o resultado expressa um reequilíbrio desfavorável para o campo popular em meio a uma crise de representação que permanece em aberto. Seu desfecho dependerá menos da dinâmica institucional e mais da capacidade de mobilização social e reorganização política das classes populares.

Rumo a uma resistência democrática e popular

Desde a década de 1990, a estratégia da esquerda legal peruana foi marcada por um processo gradual de dissolução política, decorrente de sua subordinação a sucessivas frentes democráticas hegemonizadas por setores liberais. Inicialmente, parte da esquerda apoiou a candidatura de Javier Pérez de Cuéllar como expressão de um bloco democrático oposto ao fujimorismo. Após a queda do regime autoritário, essa orientação se prolongou no apoio ao governo de transição liderado por Valentín Paniagua e, posteriormente, ao governo de Alejandro Toledo, que havia liderado a oposição ao fujimorismo no ano de 2000.

Sob a premissa de recuperar a democracia, a esquerda foi relegando a construção de uma alternativa política própria. Sua independência enfraqueceu à medida que se adaptava a um projeto de recomposição do regime, em vez de defender uma perspectiva de transformação estrutural da sociedade peruana.

A situação atual apresenta diferenças importantes. Nos últimos anos, ocorreu uma recomposição parcial da esquerda. Embora ainda careça de um programa socialista integral e de uma estratégia suficientemente desenvolvida, ela conseguiu reconstruir uma base social e territorial significativa, especialmente no sul andino e na serra central, em torno de um programa nacional-popular de esquerda.

O castillismo desempenhou um papel decisivo nesse processo, ao manter em vigor a representação política das classes populares que irromperam no cenário nacional durante o ciclo iniciado em 2021 e encerrado à força no final de 2022. Nesse contexto, Roberto Sánchez e Juntos pelo Peru enfrentam o desafio de consolidar essa recomposição por meio da construção de uma oposição coerente, ampla e popular.

Isso exige evitar que acordos táticos com setores do centro político diluam o horizonte de transformação expresso pelos setores andinos e populares. A disputa pela liderança da resistência democrática será, nesse sentido, decisiva. Para sustentar uma perspectiva de mudança, essa liderança deverá permanecer nas mãos da esquerda popular que conseguiu abrir caminho nos últimos anos, como ocorreu parcialmente durante a campanha do segundo turno.

A composição do novo Parlamento bicameral configura, por sua vez, um equilíbrio político instável. No cenário mais adverso, a oposição poderia ficar reduzida às bancadas do ⁠Juntos pelo Peru e do ⁠Agora Nação, partido de centro-esquerda e orientação social-democrata liderado por Alfonso López-Chau. Em um cenário mais favorável, o desafio consistirá em preservar a coesão de um bloco integrado também pelo ⁠Partido Cívico OBRAS, organização fundada por Ricardo Belmont, e, eventualmente, por alguns congressistas do ⁠Partido do Bom Governo, força centrista liderada pelo ex-ministro Jorge Nieto.

Essa possibilidade se torna especialmente relevante diante dos indícios de uma fratura na bancada do Partido do Bom Governo, provocada pelas primeiras negociações de seu líder e ex-candidato à presidência, Jorge Nieto, com o fujimorismo. O OBRAS, por sua vez, também não escondeu suas conversas com a Força Popular, apesar de ter ratificado sua participação no bloco parlamentar da oposição.

Como tem ocorrido repetidamente nas últimas décadas, a instabilidade continua sendo uma característica estrutural do sistema político peruano. As novas correlações de forças no Parlamento permanecem abertas a diversas reconfigurações, tanto devido às disputas internas das bancadas quanto à estratégia de cooptação e disciplinamento empregada pelo fujimorismo. O cenário menos provável, no entanto, parece ser uma ruptura imediata do bloco governista de extrema direita, composto pela ⁠Fuerza Popular, o partido fujimorista liderado por Keiko Fujimori, e pela ⁠Renovación Popular, força de direita radical e conservadora liderada por Rafael López Aliaga. Esse bloco busca, além disso, consolidar acordos com o Partido do Bom Governo.

Diante desse panorama, o impulso da mobilização social em torno de um programa antineoliberal mínimo será fundamental para superar os limites da disputa parlamentar e minar, a partir da base, o regime autoritário que o fujimorismo tentará consolidar. Uma vitória eleitoral contestada da extrema direita não equivale a uma derrota social do campo popular. No Peru, existe uma ampla base trabalhista e popular capaz de resistir além de suas lideranças políticas circunstanciais.

O desafio da esquerda anticapitalista consiste em intervir de maneira unificada e estratégica nessa resistência, construindo um polo radical dentro do bloco democrático e popular em formação.


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