PCC no transporte expõe vínculos políticos em São Paulo
Transporte coletivo SP

PCC no transporte expõe vínculos políticos em São Paulo

Investigação sobre infiltração do crime organizado em empresas de ônibus atinge Milton Leite, aliado de Nunes e Tarcísio, e coloca em xeque o discurso de combate às máfias no transporte público

Tatiana Py Dutra 18 set 2026, 11:17

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

“Metade das empresas de ônibus de São Paulo está sendo investigada por serem do crime organizado, do PCC. Essa é a situação que a gente tá vivendo [em São Paulo].”

A declaração da vereadora Luana Alves (PSOL) resume a dimensão política da operação que atingiu o transporte público da capital paulista e colocou no centro das investigações o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil). Para a parlamentar, o caso expõe uma contradição entre o discurso de combate ao crime organizado adotado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) e as relações políticas mantidas com uma das principais lideranças do centrão paulistano.

Milton Leite é aliado de Nunes e mantém interlocução política com o governo Tarcísio. Em 30 de agosto, poucas semanas antes da operação, o governador participou do lançamento das candidaturas dos filhos do ex-vereador, Alexandre Leite e Milton Leite Filho. Questionado sobre a relação com Milton Leite após a deflagração da operação, Tarcísio afirmou que ela sempre foi “institucional”, definindo-a também como “um relacionamento propositivo, voltado a projetos”.

É justamente essa proximidade que Luana coloca sob questionamento:

“Todo mundo deve estar vendo a operação que aconteceu, tendo como alvo várias figuras políticas poderosíssimas aqui de São Paulo, inclusive o ex-presidente da Câmara de São Paulo, Milton Leite, que é aliado do governador Tarcísio, que é braço direito de grande parte do governo de São Paulo e também aliado do Ricardo Nunes.”

A vereadora chama atenção para o contraste entre essas alianças e a imagem construída pelo governo paulista em torno da segurança pública.

“Então, esse é o governo que diz que vai combater, que está combatendo o crime organizado. O governo do Tarcísio tenta passar uma imagem de ‘um cara da segurança pública que combate as máfias’, combate os crimes, mas olha a situação que a gente tá”, disse.

Investigação mira empresas de ônibus e suspeitas de lavagem de dinheiro

A Operação Vectura Corrupta, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, investiga a suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de transporte coletivo e em estruturas do poder público.

Segundo a investigação, 12 das 22 empresas de ônibus que operam na capital estariam sob suspeita de terem algum tipo de relação com integrantes ou colaboradores da organização criminosa. A apuração envolve suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, fraude em licitações e utilização do setor de transporte para movimentar recursos ilícitos.

A operação também alcançou figuras políticas e empresários ligados ao setor. Entre os alvos está Milton Leite, que teve a prisão temporária decretada por 30 dias.

A decisão judicial afirma que o ex-vereador é citado em diferentes momentos da investigação como possível responsável pela operação de empresas que estariam sob controle do PCC. O documento também menciona depoimentos de policiais militares que apontariam Leite como proprietário de fato da Transwolff, empresa que já havia sido investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para a facção.

Milton Leite nega ser dono da Transwolff e qualquer relação com o PCC. A empresa também afirma que o político não possui participação societária, não participou da gestão e não deu ordens na companhia. Em declaração ao UOL, Leite afirmou:

“Não sou dono de empresa de ônibus e só assumi uma interlocução na SPTrans a pedido do Bruno Covas (ex-prefeito morto em 2021), por causa da greve de 2019. Não tem nada de ilegal. Vou me apresentar ainda hoje porque não devo nada”.

Até a manhã desta sexta-feira (18), porém, ele ainda não havia se apresentado à polícia.

Mensagens colocam Milton Leite no centro da investigação

A investigação chegou ao nome do ex-presidente da Câmara a partir de mensagens encontradas nos celulares de pessoas apontadas como integrantes ou colaboradoras do PCC.

Em um dos diálogos citados pela polícia, um suspeito afirma que seria necessário “envolver o Milton Leite para resolver a questão”. Em outro trecho, aparece uma preocupação em dar ciência a Leite sobre fatos envolvendo a UPBus.

Para os investigadores, as conversas indicariam que o ex-vereador poderia exercer influência sobre decisões estratégicas relacionadas ao sistema de transporte.

A decisão judicial também registra que Leite é mencionado como possível responsável pela operação de empresas investigadas. A acusação, entretanto, ainda está sendo apurada, e a defesa nega qualquer participação em esquema criminoso.

A relação com Nunes e Tarcísio

A proximidade política de Milton Leite com o prefeito Ricardo Nunes é conhecida. O União Brasil, partido comandado por Leite na capital, apoiou a candidatura de Nunes à reeleição em 2024, e o ex-presidente da Câmara teve papel importante na articulação política da gestão municipal.

Com Tarcísio, a relação também é política. O ex-vereador participa do campo de alianças que sustenta o governador na capital e, em agosto, o próprio Tarcísio participou de evento de campanha dos filhos de Leite.

Após a operação, entretanto, o governador procurou caracterizar a relação como institucional. “As operações não enxergam pessoas, não enxergam partidos, não enxergam posicionamentos políticos. Elas enxergam fatos”, afirmou Tarcísio.

A defesa política do governador é acompanhada de uma tentativa de separar a investigação criminal das alianças partidárias. O ponto levantado por Luana Alves é outro: se o governo estadual apresenta o combate ao crime organizado como uma de suas principais bandeiras, qual é o grau de responsabilidade política de seus aliados quando figuras próximas são atingidas por investigações dessa dimensão?

A vereadora também questiona o próprio modelo de transporte da capital.

“A cidade de São Paulo, tendo uma política pública tão importante quanto o transporte, que deveria estar a serviço da mobilidade das pessoas, de garantir mais igualdade, de garantir direito à cidade, está, na prática, servindo para interesses do crime organizado”, afirmou. 

Crime organizado e poder público

O caso não representa a primeira investigação sobre a presença do PCC no transporte paulistano. A Transwolff, por exemplo, já havia sido alvo de uma operação em 2024, quando a Prefeitura de São Paulo interveio na empresa diante das suspeitas de utilização da companhia para lavagem de dinheiro.

A nova investigação amplia o alcance das suspeitas e coloca sob escrutínio um setor que movimenta bilhões de reais e depende diretamente de contratos, subsídios e fiscalização do poder público.

É justamente por isso que a questão ultrapassa a situação individual de Milton Leite. As investigações precisam esclarecer como empresas suspeitas de ligação com o crime organizado conseguiram operar dentro de um serviço público essencial, quais foram os mecanismos de fiscalização existentes e se houve participação ou conivência de agentes públicos.

Por enquanto, as suspeitas contra Milton Leite permanecem sob investigação e ele nega qualquer ligação com o PCC. O mesmo vale para os demais investigados, cuja eventual responsabilidade criminal ainda deverá ser estabelecida pelas autoridades.

Para Luana Alves, porém, o episódio já produz uma consequência política: coloca em xeque a narrativa de que a segurança pública pode ser tratada apenas pelo viés policial, enquanto as relações entre poder econômico, contratos públicos e grupos políticos permanecem intocadas.

“Essa situação que a gente tá mostra a hipocrisia da extrema-direita e do centrão. Estão juntinhos, que governam a cidade, o estado de São Paulo, a gente tem que se livrar disso”, afirma Luana.


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